A cadeira ao lado

A cadeira ao lado

Era dia de festa do deca. Palmeiras x Vitória em casa. Jogo das faixas. De levantar a taça como brinde. Primeira vez da Mariana sem o pai ao lado.

Ela é Roma de sobrenome. Tinha de ser Palestra como o avô materno Antonio. Não como o pai Paulo que era Portuguesa. Eles ensinaram Mariana a gostar e entender de futebol.

A primeira vez foi no Canindé. Vasco ganhou da Lusa do pai dela. E a menina cada vez mais Palmeiras como o avô. Tanto foi ficando que levou o pai pro lado verde da forza. Paulo começou a sair rouco dos jogos. De xingar juiz e atacante. Treinador e cartola. Cada vez mais perto da Mariana e do amor que é verde.

Não sei se ele ficou mais palmeirense ou mais Mariana. Ou os dois. “Sempre brincava com ele que eu era o "filho" que ele queria ter, só que nasci mulher e apaixonada por futebol, pra ser a companheira dele nas partidas. Quando víamos os jogos em casa, comíamos pipoca, ele amava, pulávamos e gritávamos em cada gol do Palestra, assim como também ficávamos bravos e tristes com ‘roubos’ e derrotas”.

Paulo morreu cedo, durante a Copa na Rússia. “Foi muito difícil ver os jogos sem ele. Não tinha mais emoção. Não tinha mais como escolher um país para torcer como sempre fazíamos....”.

O BR-18 voltou. O paizão Felipão também voltaria logo depois. Mariana voltou a torcer como sempre. “Sozinha. Mas com meu pai no coração”.

No jogo final, ela criou coragem e foi pela primeira vez sem o Paulo. Allianz lindo e lotado. Menos ao lado esquerdo dela. Uma só cadeira vazia. No lugar onde costumava sentar o pai. “Quando percebi que não viria ninguém, chorei pela primeira vez. Sabia que aquele lugar estava reservado para meu pai e que ele estaria ali comigo. Chorei também a cada gol que o Palmeiras fez, porque queria muito comemorar com ele. Dói olhar pra cima pra abraçar num gol quem estava sempre com a gente nessa hora. Mas eu sabia que ele estava comigo”.

Depois da festa, um rapaz ofereceu para tirar uma foto que Mariana não estava conseguindo fazer. “Quando vi a foto, percebi que ela ficou com uma luz branca ao meu lado, do reflexo do Sol. Mas esse reflexo era meu pai que estava ali na foto também! Assim como está e estará sempre!”
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A foto não tem filtro. Amor incondicional de avô pra neta, de filha pra pai, de Palestra para Palmeiras, de Roma para o Allianz Parque, também não tem filtro.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.