A cartinha pro Dudu do Pacaembu

A cartinha pro Dudu do Pacaembu

Este foi o texto que publiquei no LANCE!, em dezembro de 2010, depois da derrota para o Goiás, na Sul-Americana, no Pacaembu.
Ela gerou uma inesquecível carta escrita pela mãe dele, Márcia. A mão. Como se escrevia antes por sentimentos que não têm época.

Aqui o texto de então:

Oi, Dudu.
Você sabia que você tem nome de craque palmeirense? Acho que você já sabe. Eu vi uma reportagem da ESPN-Brasil na sexta-feira quando você fez o Felipão chorar de emoção e de orgulho pela sua paixão pelo Palmeiras. E me fez chorar ainda mais no hospital São Luiz, onde o meu filho Luca estava sendo operado depois de quebrar o braço jogando como goleiro.
Dudu, eu também chorei quando vi a reportagem. Eu já estava chorando com o choro do meu filho com dois ossos quebrados. E a mãe dele me disse que ele só chorou tanto no final da quarta-feira, quando o time dele, o mesmo que o seu, perdeu para o Verdão. De Goiás. Como você, ele e o meu caçula, o Gabriel, choraram e se desesperaram. Também chutaram o que viram pela frente.
Dudu, não é certo agredir o que não tem nada com isso. Como também não é certo agredir um que é nosso, e joga por todos os nossos como o Deola. Só porque ele fez o que sempre faz muito bem. O que o Palmeiras sempre faz desde que era Palestra Italia – goleiros. Falta só fazer o resto…
Eu sei que você sabe disso tudo, Dudu. Porque vi na reportagem na TV que você leu um dos meus livros do Palmeiras. Não aquele da Panda Books que é para um público mais jovem, da sua idade. Mas aquele dos “10 Mais do Palmeiras”. Que poderiam ser mais de cem.
Pena que, hoje, Dudu, e desde que você nasceu, poucos mereçam estar nesse livro. Muitos não mereçam estar no clube. Como muitos dos que mandam no Palmeiras. Mas essa é outra história para gente grande. Por menor que seja.
Também por isso eu chorei, Dudu. Não imaginava que um menino de 8 anos lesse uma história tão bela e tão rica como a do seu time. Mas você é especial. Como parecem especiais todos aqueles que fizeram a bonita festa no Pacaembu, estragada por um bom segundo tempo do outro time. Acontece, Dudu. Pena que só esteja acontecendo com a gente, nos últimos anos. E são muitos. Que nos fazem parecer poucos.
Você deve ter lido no meu livro que o Palmeiras é campeão do século passado. E é mesmo. Pena que só tenha sido história neste século. Tanto é que um dos jornais que fizeram um ranking, uma pesquisa para contar o que a bola já sabia, não sabia disso. O repórter escreveu lá no jornal dele que o Palmeiras “se diz campeão do século”. E o próprio jornal não leu o que escreveu.
Mas isso é assim mesmo. Nós, jornalistas, esquecemos as coisas. Não lemos o que escrevemos. E as boas histórias são perdidas. Como os jogos que não podem ser perdidos. Como o Palmeiras que está se perdendo por erros de gente do bem, por acertos errados de gente do mal.
Dudu, quando eu tinha a sua idade, chorava de emoção e de orgulho com meu time. Quando a gente fica mais velho, dizem, a gente não chora tanto. Não acho. Posso não ter chorado depois do jogo, que eu estava trabalhando até 2h30 da manhã. Mas chorei em casa quando vi meus filhos dormindo com a camisa do Palmeiras. Mais ainda quando soube da raiva que eles tiveram na hora. Mais ainda quando vi meu filho quebrar o braço e ser operado. Mais ainda quando vi garotos de todas as idades, como o Felipão, chorando com seu choro e com sua ira. Lembrando o garoto Enzo, em 1999, quando o Palmeiras era Palmeiras, quando Felipão era Felipão, quando chorávamos de orgulho e de Palmeiras. Não do Palmeiras, como agora.
Um time que perde e se perde quando só pode vencer. Um time que perde e se perde quando quer perder. Um clube que perde e se perde quando todos, de situação e oposição, parecem só querer ganhar poder.
Mas isso é história de adulto, Dudu. Perdão pela chateação. Perdão pela zoação que você possa ter ouvido. Mas saiba que eu, mais alguns milhões, estamos com você. E não falo só dos irmãos de verde e de fé. Falo dos verdadeiros torcedores. Daqueles que se emocionam com o futebol e fazem tudo que você fez no Pacaembu. Irmãos de outros credos irmanados na fé pelo futebol que se resolve no campo com equipes que lutam para ganhar jogos. Com dignidade e respeito.
Gente que não perde por W.O. nem por brincadeira. Gente que não vai ao W.C. na primeira pressão. Gente que torce e não distorce. Gente que sofre. Mas que canta e vibra. Pelo que resta do nosso alviverde.
Não temos time à altura. Não temos dinheiro. Temos até bons candidatos à presidência. Mas enquanto não tivermos um pouco mais de paciência, serenidade e trabalho, mais palmeirenses fazendo o certo para o Palmeiras, só vamos acertar os chutes na arquibancada da frente, não no gol adversário. Só vamos fazer os golaços que o Dinei fez. Quando não serviam mais. Quando nem mais queríamos fazer.
Dudu, o Palmeiras vai sair dessa. Você é muito jovem para sofrer tanto. E como você já leu nessa linda história de amor, é só uma questão de tempo que você, como o Palmeiras, ainda têm muito. Pena que eu esteja com pouco, tanto que só hoje escrevi o que estava nos meus olhos desde sexta-feira. Estou mesmo parecendo o Palmeiras. Fazendo uma semana depois o que deveria ter feito alguns anos antes. Mas não se preocupe, Dudu. Gente grande é assim mesmo. Promete e não faz.

Quase 8 anos depois daquele jogo, estamos de volta, Dudu.
E com outro Dudu para chamar de nosso.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.