Ana Lúcia agradece oportunidade e vê grande legado ao futebol feminino do Palmeiras

Ana Lúcia agradece oportunidade e vê grande legado ao futebol feminino do Palmeiras

Fotos: Tatiane Marques/ Divulgação

O Palmeiras demitiu a técnica Ana Lúcia do time feminino mesmo depois de fazer a melhor campanha da Série A2 do Brasileiro e garantir o acesso à elite do futebol feminino nacional. Ana foi desligada do clube antes da semifinal da competição, diante do São Paulo.

O fato causou estranheza de todos os torcedores que acompanharam o desempenho das meninas alviverdes durante 2019.

O silêncio do clube e a falta de explicações do porque de um término de um trabalho de sucesso causaram revolta na torcida, que já até organizou um protesto para a tarde desta quinta-feira (25) em Vinhedo, cidade-sede do time feminino do Verdão e que está dando toda estrutura para a equipe.

Em entrevista exclusiva ao NOSSO PALESTRA, Ana Lúcia disse ter sido desligada por incompatibilidade e não quis entrar em atrito com o clube. Ela somente agradeceu a oportunidade.

Seu nome foi até sondado para assumir a Seleção Brasileira, mas na noite de quarta-feira (24), a sueca Pia Sundhage foi confirmada para assumir o lugar do ex-técnico Vadão.

Confira o bate-papo!

NP: Você pressentia em algum momento que seria desligada do clube?

Ana: De mandeira alguma. Fui pega de surpresa. Fiquei muito triste, mas tenho que aceitar. Os números e o acesso provam que a missão foi bem cumprida. Campanha invicta. O motivo que foi me dito foi incompatibilidade, mas sempre respeitei a hierarquia do clube e nunca entrei em atrito com ninguém. Tinha divergências normais com o diretor, mas tudo sempre dentro da normalidade.

NP: Foi comentado um possível erro de gestão de elenco e briga com as meninas. Mas algumas jogadoras já desmentiram e até te defenderam. Como você vê isso? Como era o seu relacionamento com elas?

Ana: O ambiente de trabalho era muito bom, aquela resenha gostosa. Eu não conhecia todas as jogadoras quando começamos lá em janeiro, mas elas abraçaram o projeto comigo, acreditaram que poderíamos colocar o Palmeiras onde ele merece, que é na primeira divisão. Muitas sofreram pra entrar em forma, o planejamento não foi tão fácil. Mas só tenho que agradecê-las. O que eu vivi no último domingo nunca mais vai sair da minha memória.

NP: Você guarda alguma mágoa do clube?

Ana: De jeito nenhum. Eu só tenho a agradecer ao Palmeiras pela oportunidade. Um clube tão grande que me convidou para tocar um projeto altamente desafiador. Realizei meu grande sonho como treinadora. Tive apoio de todos os setores do clube, fisiologia, análise de desempenho. Tive o prazer de conversar muito com o Felipão. Todos sempre foram muito receptivos. Tinha treinado o Guarani, a Ponte Preta e o Audax na minha carreira, e foi diferente treinar o Palmeiras, ainda mais um início de projeto. Só levo coisas boas.

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NP: O fato de um homem assumir o seu cargo de alguma forma te chateia ainda mais?

Ana: Não, claro que não. Pra mim não importa o gênero, e sim o profissional. Eu confesso que não conheço ele, fui apresentada mas nunca tive o prazer de conversar sobre futebol feminino com ele. Acho que toda essa revolta está acontecendo por tudo que a gente passou no último mês. O Mundial trouxe muita visibilidade. Toda campanha das duas técninas finalistas da Copa. Pra muitos o clube está indo na contramão né? Mas eu torço muito pra que ele faça um ótimo trabalho e consiga dar prosseguimento a tudo que nós criamos. Ele vai pegar um time com um grande conceito tático, tanto defensivo quanto ofensivo. A parte física também está 100%. O que dá mais orgulho é isso. Peguei um projeto do zero e estou deixando um grande legado.

NP: Acredita que o Palmeiras tem chances de passar pelo São Paulo?

Ana: Tudo vai depender de como elas vão assimilar a minha saída. Elas também não entenderam o porquê do trabalho ter sido interrompido. Mas se a nova comissão conseguir equilibrá-las, o Palmeiras tem totais condições de passar sim. Conheço o grupo e sei o potencial que essas meninas têm. Só é preciso tranquilidade agora pra aceitar a mudança e focar novamente no campo e no novo trabalho.

NP: Como você enxerga a continuidade do projeto. Acredita que o investimento seguirá alto para 2020?

Ana: Com certeza. Ano que vem é Série A, o clube deve buscar algumas contratações maiores. Já deixei uma base forte, mas o investimento não pode parar. Fico muito honrada de ter feito parte e de ter plantado essa semente nesse clube tão grande. O Palmeiras foi o maior clube que eu treinei e com certeza também vai agregar muita coisa na minha carreira. O sentimento é um misto de muita alegria pelo acesso, mas também de muita tristeza pela demissão.

NP: Tem algum recado para deixar pra torcida do Palmeiras? Essa revolta de alguma forma te acalenta pela demissão?

Acredito que seja um reconhecimento né? Acho que a minha precoce demissão fará mais palmeirenses abraçarem o projeto do feminino. Essas meninas merecem. Só tenho elogios para fazer para a torcida. Não esqueço quando fomos jogar em Porto Velho (Rondônia), e o estádio estava completamente lotado de palmeirenses. As meninas nem acreditavam. O que vivemos domingo foi inesquecível. Tenho mais de 30 anos de futebol feminino e nunca tinha vivido uma alegria igual aquela do acesso. Pra quem não sabe, Vinhedo possui uma grande colônia italiana. Tem muitos palmeirenses por lá. A cidade nos abraçou. Realmente só tenho gratidão por tudo que eu vivi.

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  • Gabriel Amorim

    Gabriel Amorim

    Gabriel Amorim, 28 anos, detesta quem assiste ao jogo sentado e tem como grande ídolo Armando Nogueira. Formado em Jornalismo pela UMESP em 2012, cobriu a Copa do Mundo da Rússia pelo jornal Lance!