Ão, ão, ão, Parmalat foi campeão

Ão, ão, ão, Parmalat foi campeão

- Ão, ão, ão! Parmalat é ilusão!

O coro não era da “imprensinha” detonada pela torcida palmeirense neste século. Era da Mancha Verde em julho de 1992. Menos de três meses depois da assinatura em 26 de março daquele ano do maior e melhor contrato de cogestão técnica e administrativa da história do futebol sul-americano. A parceria Palmeiras-Parmalat. A mais vitoriosa PPP. Win win situation.

Palmeiras que desde 1976 não conquistava um título foi campeão paulista em 12 de junho de 1993. Um ano antes do previsto pela cogestora. Acabando com 16 anos de fila e enfileirando cinco canecos em 18 meses. Um recorde. Mais outro título histórico com a melhor campanha do profissionalismo paulista em 1996. A primeira Copa do Brasil em 1998. A primeira Mercosul no mesmo ano. Nossa Libertadores em 1999. Por ideia jeguial do clube sempre brigado com a patrocinadora, o Palmeiras abriu mão do direito (sabe-se lá o diabo o porquê) de disputar o Mundial da Fifa em 2000. Ano da conquista de mais um Rio-São Paulo e da primeira Copa dos Campeões. Já sem tanto dinheiro da época das vacas balofas da Parmalat. Quando craques e ídolos foram comprados pelo dinheiro da multinacional italiana (ou pelo próprio clube) como Zinho, Mazinho, Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edmundo, Edilson, Flávio Conceição, Cléber, Rincón, Rivaldo, Mancuso, Muller, Djalminha, Luizão, Júnior, Viola, Alex, Oséas, Arce, Júnior Baiano, Paulo Nunes, Asprilla. Talentos combinados com os que chegaram em 1991 ao clube como Evair e César Sampaio, e aos revelados na base como Velloso, Amaral e Marcos fizeram das Vias Lácteas montadas pela Parmalat no Palestra a referência técnica, esportiva e administrativa do futebol brasileiro. Não por acaso de novo campeão mundial a partir de 1994. Com dois titulares palmeirenses. E poderiam ter sido mais. Com treinadores históricos como Wanderley Luxemburgo e Luiz Felipe Scolari no comando.

Mas tudo isso que parecia delírio em 1992 era “ilusão” pela visão tosca de má parte da imprensa e pela má vontade da torcida.

Assina aqui quem apurou mais profundamente a informação trazida em primeira mão pela repórter Regiani Ritter, na Rádio Gazeta, em março de 1992. Eu tinha menos de dois anos no jornalismo esportivo como colunista da “FOLHA DA TARDE” (hoje o jornal “AGORA S.PAULO”). Graças aos conselheiros Sergio Pellegrini e Paulo Nicoli (quem trouxe a Parmalat ao Palmeiras junto com Luiz Gonzaga Belluzzo), informei detalhes do acordo. A nova camisa listrada. A intenção da parceira em montar um time dos sonhos no Palestra.

Não era ilusão. Mas parte da imprensa tratava com deboche. Não acreditava na palavra emprenhada pelo novo parceiro que, por contrato, pagaria ótimos 500 mil dólares por mês de patrocínio na camisa. Além de vesti-la com grandes nomes que não estavam no contrato assinado. Mas no fio do bigode.

Por isso algum jornalistas foram contra. Outros fizeram campanha contrária sem saber ler e nem entender. Alguns seguiram o jogo e as jogadas da turma do contra de sempre dentro do Palmeiras. A oposição da situação mais deletéria que qualquer oposição ferrenha. Os mesmos que jogam sempre contra. E ainda acham que só a Parmalat lucrou em oito anos de parceria.

Turma da alfafa (não comem amendoim) que esquece que a empresa em 15 meses tirou o Palmeiras da fila de 16 anos para puxar o trem-bola da modernidade. Patota e patrulha que insiste que o clube deixaria os piores anos da história com as próprias patas. Não de mãos dadas a uma parceira com dinheiro e ideias.

O Palmeiras, como Sociedade Esportiva, sempre teve grandes parceiros. As Indústrias Matarazzo para comprar o Parque Antarctica em 1920. A Parmalat para nos fazer sonhar a partir de 1992. A WTorre para reerguer nossa casa a partir de 2008. A Crefisa para dar crédito aos nossos delírios a partir de 2015.

E sempre andamos às turras com nossos burros empacando negócios. Até quando temos razão.

A imprensa vai ser muitas vezes contra. Mesmo não sendo quando dinheiro público paga as contas dos outros. Mesmo não questionando quando outros parceiros mais obscuros faziam tabelinhas com outros clubes.

Fora a MSI no Corinthians 2005-06, nenhuma outra foi tão questionada ou detonada como a Parmalat. Excel, HMTF, Unimed, ISL, BMG, Traffic. Nenhuma foi tão incinerada (para depois ser medianamente incensada) quanto a Parmalat, de 1992 a 2000.

A imprensa em 1992 dizia que seria “ilusão” esse mantra da Mancha e perderam feio.

Em 1993 bolaram a expressão “Esquema Parmalat”, junto com cartolas dos rivais, para justificar derrotas e goleadas, creditando às arbitragens o que Evair e Zinho e bela companhia ilimitada ganhavam em campo.

Se de fato muitas ações da empresa na Itália se mostrariam fraudulentas com o tempo e ajudavam a sustentar parte dos investimentos no futebol, também não se pode negar que o legado (que mais uma vez o clube não souber desfrutar) deixado foi igualmente campeão. Todos os clubes queriam uma Parmalat ao lado. E acima. Mais ou menos como hoje desejam o dinheiro da Crefisa (patrocinadora que paga demais e investe além do patrocínio, mas não manda como a Parmalat. E nem deve. É outra história, administração, economia e política).

O que o Palmeiras e o palmeirense hoje é patrulhado pelo patrocinador é fichinha perto do que foi na época da Parmalat. E, insisto, não só pela imprensa. Também dentro do clube. E da arquibancada. Principalmente da torcida organizada que rapidamente virou a página com a virada de jogo e da história.

A Parmalat não foi ilusão. Fez o Palmeiras multicampeão. Mais palmeirense. Em todos os sentidos

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.