Amamos detestar Borja. Ou detestamos amar Borja. Ele dá em um mesmo jogo motivo para todos os lados apaixonados. Ele não é Evair ou César mas é um Matador de deixar Maluco. Ele não é Ricardo Bueno ou Alex Afonso mas tem cornetadas e caneladas de ambos.

Desde Barrios, em 2015, o Palmeiras não tinha alguém que fizesse três gols em um jogo. O Allianz Parque nunca tinha visto. E foi justo Borja (de melhor média de gols no clube que Gabriel Jesus, e de cornetas que eu costumo fazer para Gioino…) quem marcou. Justo contra o clube do coração dele. Eliminado pelos gols que o artilheiro do Palmeiras em 2018 marcou.

Higor Ricardo, no Twitter, definiu muito bem o que somos: “a gente não zoa os rivais quando ganhamos. Nós nos preocupamos em jogar na cara de outros palmeirenses que eles estavam ‘errados’”. Sobre Borja e sobre tudo e todos.

O velho “você-é-corneteiro-mas-eu-não-sou”.

Para se pagar como jogador mais caro em 103 anos de clube, Miguel precisa ser o que foi o inesperado Betinho na Copa do Brasil-12, e/ou Evair na final do SP-93.

É injusto. Mas é o preço que se paga por ter se pagado tanto por ele.

Se um marciano não soubesse que ele custou 33 milhões, aplaudiria o oportunismo dele em 2018 e não entenderia como o mesmo cara perde tantas bolas e os mesmos gols que marca.

Eu me identifico com Borja. Eu dou várias de Miguel. Não por ter ido com o meu caçula o recepcionar em Cumbica. Penso que sou ele por vezes por sentir que eu teria feito o mesmo lance infeliz que ele tentou ou executou no gramado.

Borja parece tão inexplicável quanto a nossa paixão. Aquela que você ama na mesma frase com que você odeia na mesma fase. Ele vai da besta ao bestial num gol, da jogada genial ao lance jeguial na sequência.

Borja é tudo que o futebol nos dá é tudo que doamos para ele. Por isso parece tão humano quanto o erro. Quando acerta, até parece que erra.

Pega-se no pé dele como ele pega na orelha da bola. Marca-se Borja como ele marca seus gols.

Ele é 9 ou 1,99. Berro ou barro. Birra ou Borja.

Ainda prefiro Willian no comando do ataque. Mas o que eu realmente gosto é quem me faça vencedor.

Não torço contra o Borja. Torço pelo Palmeiras e para o melhor do clube. Mas se você quiser distorcer, fale o quiser. Só não queira ser definitivo com ele, com o Palmeiras, e com a vida.

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Mauro Beting
Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV. Curador do Museu da Seleção Brasileira, um dos curadores do Museu Pelé. Trabalhou nos jornais Folha da Tarde, Agora S.Paulo e Lance!, nas rádios Gazeta, Trianon e Bandeirantes, nas TVs Gazeta, Sportv, Band, PSN, Cultura, Record, Bandsports, Foxsports, nos portais PSN, Americaonline e Yahoo!, e colaborou nas revistas Placar, Trivela e Fut! Lance. Está na imprensa esportiva há 27 anos por ser torcedor há 50. Torce por um jornalismo sério, mas corneta o jornalista que se leva muito a sério.