Deixem a Palestra Itália pulsar pelo Palestra

Deixem a Palestra Itália pulsar pelo Palestra

Foto: FIFA

Dureza bater a cara contra o muro, o bloqueio, dessa memória. Deu pra sentir um gradil impedindo que os olhos que se acalentavam com o que viam pudessem imaginar quando seria a próxima vez. A barreira de coletes e tablets de checagem eram como despertador dos momentos de sonho que as imagens trêmulas e com baixa definição causavam. Foi como ver a felicidade sem poder tocá-la.

As horas que grudavam no relógio, como arte renascentista, naquele dia, era ansiedade. Hoje, é frieza. É silêncio. É ordem. É controle. Naquele dia, era pólvora acumulada. Havia rastro de Palmeiras por todo canto. A bomba explodiria numa catarse que não nos deixa definir. A vitória brotava do chão. Saia pelo ralo, pelas tubulações, por todos os cantos. Vertia pelo ar.

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Não havia espaço, não havia medo, não havia nada além da certeza que encher as ruas daquela maneira insana, que assombrava até a velha guarda que vira Evair levantar a América. Não havia regra. Milhões de pessoas no aperto do coração gritando o que viesse à mente para que o recado fosse dado: nós faríamos o Palestra sacudir essa cidade, seremos campeões. Ainda faltavam 3 horas para a bola rolar.

Não custou milhares de reais. Custou fila, custou suor. Maldita seja a geração que precifica a paixão. Ali, nada havia de planejado. Era uma imensa confusão de gente que jamais se viu, mas que se entenderia pelo olhar. Todo mundo se unia por um motivo em comum. Abraçava o desconhecido, trocava um afago, fazia rodízio para tremular a bandeira. Oferecia ajuda para acender um rojão.

Até agora, parece uma fantasia. Uma alucinação. Um nunca mais. Os olhos ainda marejam com os poucos segundos que a máquina pode eternizar. Nem seria necessário, o coração levará pra outras vidas, mas os olhos se agradam pelo refresco à memória. Vocês sentem, aí. Vocês viram as imagens em replay. A gente sabe o que aconteceu naquele dia.

A gente sabe que as ruas, hoje, estão cheias. De protestos. De clamor. De pedidos desesperados para que o regime acabe. Que a ignorância perca força. Que uma noite de encantamento seja novamente possível. Que as centrais pulsem. Que as ruas lotem, inundem as redondezas. Que um dia de jogo seja um dia de festa. O futebol de vocês terceiriza o amor. O nosso, é feito dele.

Morremos em 02.12 para renascermos campeões.
Estamos, por agora, respirando a morte lenta.

Liberem a rua.

Empurrem o Palmeiras.

  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.