É um tiro de 12 com Sinatra ao fundo

É um tiro de 12 com Sinatra ao fundo

Ele é essa incongruência dos excepcionais, sim. Não reúne as qualidades mais conexas e lógicas e tampouco os defeitos que fariam casamento no contraponto de ser humano. É uma mistura para se estudar dedicadamente, por longo. Felipe é a classe dos musicais confundida com a brutalidade dos animais de caça. Ao mesmo tempo em que toma à mão uma taça de cristal com vinho nobre e delicado, se esgoela com frases de pouco sentido, rindo copiosamente e logo em seguida, acompanhado por uma passagem bíblica, em seu momento de reflexão junto ao sagrado.

Repete essa receita em seu trabalho. Envelhece em termos biológicos, mas como a bebida que lhe acompanha, parece ficar melhor. Enriquece qualidades em barril de carvalho, ou de gelo, ou sabe-se lá Jesus, rei do camisa 30, onde. Atinge o auge próximo ao final. Em seu terceiro ano com as cores alviverdes, faz sua melhor jornada. Era pra ser a curva de descenso, de piora. Que Felipe Melice ser sua melhor versão quando não seria natural sê-la. Estranho seria se não estivéssemos acostumados com esse (não) padrão.

O anacronismo de Felipe o faz chegar a 2019 sendo o melhor, de novo. E, se justiça houvesse nesse país que não leva a sério seu futebol, o levaria de volta ao posto de selecionável. Não será, todos sabem, e que azar. Do time da confederação. Controverso, sim, mas inquestionável, hoje, em sua função. Não ouse contrariar o dono do último mundo em verde e amarelo. Não é todo dia que o maior professor do maior do Brasil avisa a todos que seu meio campista fez seu melhor jogo. Ainda mais que o jogo passado havia sido o melhor, também. E o próximo poderá ser, mais uma vez.

Essa tal ousadia, acima de tudo, é subterfúgio ao focadíssimo profissional que se percebeu em erro, em rota de colisão, e mudou. Segue feroz, mas responsável. Segue falastrão, mas elogiando os seus e desviando dos perigos. Um 12 anos que já está escaldado e sabe tão bem, enfim, onde pisar. Acelera o termo quando sente ser preciso. Segura a tempestade porque vê que a bonança não está tão longe assim. Bomba relógio que tem a precisa certeza de onde está o botão de acionamento. O cartão vermelho parece domesticado. Ele já não se arriscar a tomá-lo. Vai ao limite, mas quase.

Tiro de bazuca apontado pro nariz, oponente algemado, mas com Bach de trilha sonora. Vestido de terno de alfaiataria, faca suíça com base romana à mão, mas pronta para destrinchar. Anel de prata, munhequeira suada e suja de mordidas raivosas. Felipe desarma, berra, esbraveja, e glorifica pela sequência artística de fotos que mostram o lance. Melo é o melhor do país, sim. Não é comum, não previsível, não é uma letra do Caetano com flow dos Racionais, mas é tão Palmeiras quanto deveria ser.

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.