Em depoimento exclusivo, pai de Prass lembra passagem marcante do filho pelo Verdão: "Ele ficará em cada camisa azul do Palmeiras"

Em depoimento exclusivo, pai de Prass lembra passagem marcante do filho pelo Verdão: "Ele ficará em cada camisa azul do Palmeiras"

Fotos: Cesar Greco/Ag. Palmeiras

Enquanto falavam no rádio “se o Prass fizer, o Palmeiras será campeão”, neste momento, uma voz me perguntou:

  • O Fernando tá doido?

Era minha nora. Você pode estranhar. Você deve chamar meu filho de Prass. Mas, para quem é da família, ele é o Fernando.

Minha nora, a Letícia, não estava acreditando que ele decidiria com os pés a Copa do Brasil de 2015. Rivalidade acirrada. Tudo poderia acontecer num jogo entre Palmeiras e Santos. Coração estava na boca.

Essa não foi a maior dificuldade da nossa vida. O Fernando amassou muito barro para chegar ao Palmeiras. Somos de Porto Alegre e ele sempre quis ser goleiro. Quando criança, perto de completar três anos, meu filho já dava ponte. Se esticava para defender meus chutes. Me deu muito trabalho. Vários voos na lajota de casa e quebrava tudo.

Chegou a jogar na linha, no futsal. Não demorou muito e os amigos obrigaram: vai para o gol.

E é no gol que ele defende a família. Nossa família sempre será o Palmeiras. Assim como o Vasco e o Coritiba.

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No comecinho, nas categorias de base do Grêmio, meu filho teve uma lesão muito séria no joelho. Precisaria passar por cirurgia e não tinha certeza que voltaria a jogar. Isso quando ele tinha 18 anos.

Essa fase foi bem dura. Um ano parado. E eu sempre pedi: não pare de estudar. Ele fazia curso de educação física.

Meu filho é persistente. É natural nas emoções. Não exagera, não enfeita, não finge. É verdadeiro. Sério.

Depois vieram os maiores desafios.

A Francana, em São Paulo. Pouco mais de dois mil reais por mês. Em 160 dias teve salário de 30 dias. O Fernando já namorava a Letícia e sofria pra poder falar um pouquinho com ela. Procurava algum orelhão que aceitasse a ficha porque a ligação ficava mais barata. Ele sempre foi mão fechada.

Em Franca davam o que comer em uma casa que parecia senzala, com sete ou oito jogadores.

Meu filho persistiu.

Foi jogar em Goiânia, no Vila Nova. A luz começou a aparecer.

Até que chegou ao Coritiba, ganhou estabilidade e ficou quatro anos. Depois veio o Vasco. Campeão da Copa do Brasil no Rio.

  1. Outra Copa do Brasil.

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Peguei um avião em Florianópolis e cheguei em São Paulo perto da hora do almoço. Liguei para o Fernando e falei: tenho certeza que vocês vão ganhar.

Eu tinha certeza. Não é por nada, mas tudo estava caminhando bem. O time entrosado, ele pegando demais, o clima. Não dava para perder.

Linha atacante de raça. Torcida que canta e vibra..

Duas horas antes do jogo.

Cheguei no shopping faltando uma hora e meia para começar. Achei que seria tranquilo, mas fiquei surpreso. As ruas estavam tomadas. Eram verdes. Só se ouvia coisas relacionadas ao Palmeiras. A cidade estava pintada.

Fiquei preocupado porque precisava encontrar minha nora e meus dois netos. Eles estavam nessa multidão. Meus netos eram pequenos.

Até que um rapaz (fiquei sabendo depois, o palmeirense Denis Mateo) ajudou a abrir espaço no mar verde. “São crianças. São filhos do Prass. Dá licença”. Me contaram que foi o que ele gritou naquele dia.

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Muita gente ficaria sem voz. E eu mal esperava.

Dudu duas vezes. A voz começava a sumir.

Pênaltis. Expectativa. Esperança.

Meu filho passou por tanta coisa no futebol. Era um dos mais experientes. Eu tinha certeza que ganharia. Só não esperava esse filme.

Lista divulgada. Fernando era o quinto cobrador.

Eu olhei para minha nora.

  • O Fernando tá doido?

Eu sabia que ele treinava pênaltis. Só nunca achei que era pra valer.

E achei que não chegaria na última batida. Que o Palmeiras venceria antes.

Gustavo Henrique bateu. Ele defendeu.

Não consegui pensar em nada. Os olhos marejaram. O grito do estádio era um só.

Era o nome do meu filho. O sobrenome, aliás: Prass.

Tinha um mosaico em homenagem. O mosaico foi o ponto máximo. Vi e fiquei sem entender. Ela, minha nora, também estava perplexa. A homenagem marcou. Foi emocionante.

Muita gente com a camisa de goleiro na arquibancada. Aquela azul. Virou marca.

Vocês não fazem ideia do que é ter um filho lá no campo, jogando. Sendo gritado pela torcida toda. Vocês não têm ideia do que é ser pai do Fernando.

É um filho que foi melhor do que a encomenda. Uma pessoa correta e responsável. Ele superou o pai. É meu ídolo. É meu orgulho. Vai continuar sendo em qualquer lugar.

E sei que ele está no coração do palmeirense.

Até que chegou a hora:

“Se o Prass fizer, o Palmeiras será campeão da Copa do Brasil.”

Essa frase foi dita pelo país inteiro.

Ele correu, bateu e minha nora desmaiou.

DESMAIOU.

Pulou de alegria e desmaiou. Simplesmente caiu. Eu fui socorrer. Meus netos não entenderam nada. Logo depois, uns dois minutos mais ou menos, ela estava bem. E só aí caiu a ficha.

Meu filho fez o gol do título.

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Sou pai do único goleiro que fez um gol de título na história do Palmeiras.

Mas isso não é a melhor coisa do mundo. A melhor coisa do mundo é ser pai do Fernando.

Um homem honesto, inteligente, vencedor.

É claro que eu queria que ele pudesse terminar a carreira no Allianz Parque. Ele cansou de falar que seria o final perfeito. Mas o futebol não depende apenas da vontade de uma pessoa.

Toda saída dói.

Ele vai para outra casa. Não sei qual, não sei o lugar e nem quando.

Torço para que o abraço seja tão forte quanto foi nesse tempo.

Meu filho me ensinou que ídolo não se despede.

Ídolo fica na história.

Fica em cada camisa azul do Palmeiras.

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  • Guilherme Cimatti

    Guilherme Cimatti

    Guilherme Cimatti é repórter da equipe esportiva da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Já passou por BandNews FM, Estadão, Globo e CBN. Sempre trabalhou em rádios, mas tem uma queda por crônica.