Diante do Junior Barranquilla, uma vitória por 3 a 1 e duas histórias muito interessantes para uma reflexão. O goleiro Fernando Prass fez mais uma partida memorável pelo Palmeiras ao realizar grandes defesas, pegar sua 13ª penalidade com a camisa do clube e ainda iniciar a jogada do segundo gol do jogo. Tudo isso vestindo a faixa de capitão que era de Dudu, mas surpreendentemente apareceu no braço do goleiro logo na entrada em campo.

  • FERNANDO PRASS

A história de Fernando Prass no Palmeiras começou em 2013, dois anos antes da chegada de Dudu ao clube, por isso será lembrada primeiro. A “Muralha da Colina” foi quem conseguiu fazer o torcedor palmeirense se sentir novamente tranquilo depois de encarar a difícil aposentadoria de “São Marcos”. Se não bastasse o fardo e as comparações, Prass  iniciou sua trajetória com a missão de tirar o clube da Série B. Não só cumpriu, como se tornou líder, referência e capitão. O símbolo da reconstrução era também considerado o tal torcedor em campo eleito pela torcida. Aquele que sente, que sofre, que vibra e que se entrega até o fim. E assim foi até o meio do ano de 2017.

O goleiro, que foi protagonista nos mais decisivos jogos do título da Copa do Brasil em 2015 e importante na campanha do título brasileiro de 2016 até sua fratura no cotovelo, falhou em duas partidas seguidas. Em maio de 2017, dois gols contra o São Paulo e outro contra o Atletico Tucumán geraram desconfiança da torcida, que nas redes pediu a titularidade de Jailson. Ele finalizou brilhantemente o segundo turno do Brasileirão do ano anterior, mas dois jogos não mereciam tanto barulho.

Em julho, nova falha contra o Cruzeiro, no Mineirão, e a paciência do torcedor com o ídolo se esgotou. As manifestações por Jailson cresceram e três jogos depois lá estava ele entre os onze titulares. Depois, com sua lesão, Fernando Prass retornou ao time e passou todo o segundo turno da equipe sem sofrer grandes críticas. Quando foi para o banco de reservas, torceu pelo companheiro, respeitou a decisão do treinador e trabalhou para recuperar seu lugar. Poderia deixar o clube, mas renovou seu contrato por mais um ano mesmo sem a certeza de que jogaria em 2018.

Nessa temporada, Prass havia jogado apenas três partidas até o duelo contra o Junior Barranquilla. Correspondeu quando exigido nos confrontos contra Corinthians, São Caetano e Novorizontino. No banco de reservas, ele reveza com Weverton as poucas oportunidades de atuar. Na Bombonera, por exemplo, viu o jogo dos camarotes. Mas em momento algum reclamou, criou problema, se desmotivou ou pensou em deixar o clube. Como bom capitão, mesmo sem a faixa, ele é um dos mais ativos quando está no banco de reservas. Nos treinos, é um dos que mais orienta, auxilia e aconselha. Um dos primeiros a entrar no gramado e dos últimos a sair. Como merecido, viveu uma noite especial diante do Junior Barranquilla.

Após a derrota no clássico com o Corinthians, o clima no Allianz Parque não era dos melhores. Tão murcho quanto o primeiro tempo do Palmeiras estava o ambiente no estádio. Já classificado para a próximo fase da Copa Libertadores da América, reservas entraram em campo buscando visibilidade, reconhecimento e provar o que sabe. Tudo o que Fernando Prass não necessita atualmente. Ele quer e pode apenas jogar. Todos sabem tudo o que ele é capaz de fazer em campo. E fez. Fechou o gol enquanto o placar estava zerado, pegou uma penalidade quando o jogo estava 1 a 0 e iniciou a jogada do segundo gol alviverde. Entre os últimos dois atos citados, Prass beijou inúmeras vezes o escudo do clube na camisa. Orgulhoso, bateu no peito. Alegre, socou o ar. Empolgado, chamou o torcedor. Emocionado, se jogou no chão. Feliz, cumprimentou um a um do time ao final da partida. Tudo isso vestindo a braçadeira que já foi dele por muito tempo, mas até o jogo passado era de Dudu. E é dele que vamos falar agora.

  • DUDU

O jovem Dudu chegou ao Palmeiras no início de 2015. Foi o primeiro grande jogador da chamada “Era Mattos”. Sua contratação rendeu o inesperado chapéu nos rivais Corinthians e São Paulo, que disputavam o atleta. Ele chegou jovem, destemperado, irritado e com muita vontade. Vontade que conquistou o torcedor, mesmo tendo lhe prejudicado nos primeiros seis meses de clube, quando não sabia controlar o ímpeto e se perdia nos excessos dentro de campo.

Com o tempo foi amadurecendo, alcançando bons números e marcas pelo clube, como a artilharia do Allianz Parque e a regularidade no time titular. Sem os dois gols dele na final da Copa do Brasil de 2015, Fernando Prass não estaria na história como o goleiro que marcou o gol do título na primeira disputa de penalidades máximas da história da Copa do Brasil. Torcedor dentro de campo, Dudu comemorou gol contra o Corinthians dentro do Pacaembu tirando o boné de um repórter, que simbolizaria um chapéu, para lembrar os rivais de que ele foi para o clube que lhe fez se sentir em casa.

Tão em casa que Dudu recebeu até a oferta de planos de sócio-torcedor para sua família inteira gratuitamente, mas precisou negar. Antes mesmo do Palmeiras oferecer, todos os seus familiares já portavam suas carteirinhas. Dudu fez do clube o seu time e o time de seus dois filhos que estão sempre brincando na zona mista devidamente uniformizados da cabeça aos pés. Dudu viu Zé Roberto levantar a taça da Copa do Brasil e amadureceu o suficiente para ganhar a braçadeira em 2016 e erguer a taça do Campeonato Brasileiro. Dudu se tornou o torcedor em campo daquele time do técnico Cuca. Mas assim como Fernando Prass, Dudu não levantou nenhum troféu em 2017.

Aquele que era o símbolo do torcedor em campo e ouvia das arquibancadas um uníssono “Dudu, Guerreiro!” passou a ouvir apenas “Dudu! Dudu!” e teve de entender que muitos não estavam enxergando mais o guerreiro em campo. Ele não parou de se empenhar por isso. Três técnicos passaram pelo elenco de 2017 e todos o mantiveram como capitão. Em 2018, com novo técnico, a faixa seguiu com ele. Embora a entrega em campo fosse a mesma dos últimos anos, a oscilação técnica chateava a passional arquibancada. Veio o gol sem a celebração. O Dudu jogador não estava satisfeito com o que o torcedor dizia dele. Enquanto muitos se incomodaram, poucos perceberam que o Dudu jogador é o mesmo Dudu torcedor que entrega tudo o que pode e liga, sim, para o que os torcedores pensam dele. Após a derrota para o Corinthians, tomou a atitude de pedir ao treinador e ao diretor de futebol o rodízio da capitania. De acordo com ele, é hora de todos dividirem essa responsabilidade no grupo.

Alguns vão criticá-lo por omissão, mas Dudu nada mais fez do que assumir a responsabilidade de descentralizar o honroso e duro título da braçadeira. Para quem não se lembra, ele se tornou capitão também para concluir um processo de amadurecimento. É hora de outros atletas cumprirem essa etapa no atual elenco. E isso não envolve titularidade, banco de reservas ou qualquer outra questão técnica. Envolve mostrar a um grupo que ele precisa ser forte coletivamente em todos os sentidos. Não por acaso, a conclusão surgiu logo depois da derrota no clássico contra o Corinthians.

  • FERNANDO PRASS X DUDU

Os capitães Dudu e Fernando Prass têm muito em comum. Ambos já marcaram história nos recentes títulos nacionais do clube, assim como também acumulam desgastes com a torcida em momentos complicados. Embora de personalidades e jeitos diferentes, os dois tornaram-se representantes do palmeirense em campo num curto espaço de tempo. Dudu e Prass já alcançaram números importantes com a camisa do Palmeiras.

Diante do Junior Barranquilla, a braçadeira produziu uma história de dois personagens que merecem muito respeito. Enquanto um deixou o banco de reservas para ser novamente ovacionado pelo torcedor vestindo a faixa de capitão, o outro seguiu criticado e será ainda mais caso seja mau-compreendido em seu pedido para rodiziar a capitania da equipe. Momentos diferentes de nomes que merecem igual respeito e admiração.

Vivo o dia a dia do Palmeiras quase diariamente desde 2013. Fernando Prass e Dudu são respeitados desde o primeiro funcionário que os recebem até aquele que menos os encontram. Dentro do elenco, admiração e parceria são as características mais marcantes da relação com os dois capitães. Dentro da história do clube, respeito e dedicação marcarão suas passagens para quem pôde acompanhar o dia a dia de trabalho deles. Entre braçadeiras, lideranças e bastidores, ninguém merece ser intocável no futebol. Porém merece respeito, cuidado e carinho dos torcedores pelo laço e pela história criada com aquele clube, vivam eles o momento que viverem. Ídolos não surgem da noite para o dia e estão cada vez mais raros no futebol. 

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Rodrigo Fragoso
24 anos. Formado em Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero e especializado em gestão, direito e marketing esportivo pela FIFA/CIES/FGV. Com passagens pelo site Gazeta Esportiva, pelas rádios Nova Difusora de Osasco, Gazeta AM, Web Rádio Lusa, Web Rádio Verdão e como editor de vídeo na produtora Memória Magnética, atualmente é setorista do Palmeiras nos Canais Esporte Interativo e colunista do “Nosso Palestra”. Participou da cobertura da Copa do Mundo de 2014, do Panamericano de Toronto 2015 e das Olimpíadas 2016. Estudar sobre o que se escreve é fundamental para transmitir conteúdo.