Especial Robertão-69: Derby do medo, Corinthians 0 x 0 Palmeiras

Especial Robertão-69: Derby do medo, Corinthians 0 x 0 Palmeiras

Robertão 69

Primeiro jogo decisivo do quadrangular final do Robertão. Duelo paulista entre o líder do grupo B, o Palmeiras, contra o líder do A, e melhor campanha da fase inicial. O Corinthians de Dino Sani fez 24 pontos. O Palmeiras, 19 (um a mais que o Botafogo, segundo da chave). O saldo alvinegro era de 16 gols. O alviverde, apenas 5. O Timão fez mais gols e sofreu menos gols que a equipe de Rubens Minelli. Também tinha 3 pontos a mais que o Cruzeiro, segundo colocado do grupo, e também da colocação geral ao final da fase em que todos se enfrentaram.

O Palmeiras foi o time que mais atletas utilizou na primeira parte do Robertão. Também porque o elenco voltou da Europa desgastado. Muita gente se lesionou. Outros se perderam tecnicamente e ótimos reforços como Edu e Pio chegaram. O time foi encorpando e mereceu a classificação para a fase final. Logo depois de ter feito bela homenagem a Pelé, que em 19 de novembro marcou no Maracanã o seu milésimo gol. Na última partida santista no Robertão, no Palestra, empate sem gols contra o Botafogo, o elenco alviverde entregou uma salva de prata ao Rei pelo feito. Leão, Dudu, Baldochi e Eurico fizeram a homenagem. Todo o elenco foi ao jogo. Também para ver o Botafogo que seria rival no quadrangular final em turno único. Minelli adorava observar os rivais.

O Corinthians jogava pesado nos bastidores. Ameaçava não entrar em campo no quadrangular se tivesse que atuar alguma vez no Palestra nos três jogos finais. Ganhou a queda de braço. Mas a equipe vinha perdendo força justamente depois da derrota no Derby, gol de Ademir. O desempenho não era mais o mesmo. O lateral Pedrinho e o ponta Paulo Borges faziam falta.

A cartolagem corintiana não apenas evitou atuar na casa do rival como conseguiu jogar as duas primeiras em São Paulo. Justo para o time que fizera a melhor campanha “definir” os mandos. O da terceira rodada seria definido depois dos resultados das duas primeiras, em regulamento confuso como a CBD. Já o Palmeiras não gostou de ter de atuar as duas primeiras partidas fora. Ainda que a primeira fosse o Derby, em campo neutro. Na segunda rodada enfrentaria o Cruzeiro, no Mineirão. Como líder do grupo, o Palmeiras queria alguma vantagem que, na teoria, não obteve.

Na reunião na CBD, no Rio, foi o único clube que não gostou da tabela dirigida. Reclamou com veemência. Mas nao ameaçou deixar o Robertão como o Corinthians insinuara se tivesse de atuar alguma vez no Palestra.

Minelli estava preocupado antes do clássico marcado para o Morumbi enfim quase pronto, com a construção do último anel de arquibancada. “Antes havia um pessimismo geral quanto às nossas chances de classificação. Agora que chegamos, temo pelo excesso de otimismo”. No lado corintiano, o temor era o contrário. O clube não ganhava um forneio importante desde 1954. No Paulistão de 1969, num regulamento semelhante ao do Robertão, depois de ter feito a melhor campanha na fase inicial, o Corinthians perdeu os três clássicos e foi lanterna do quadrangular final.

Ainda assim tinha gente confiante. O ponta-de-lança Ivair, craque relevado pela Portuguesa, esbanjava: “já ganhei muitas vezes do Palmeiras [pela Lusa]. Podemos ganhar mais uma vez”.

Em campo, porém, ninguém fez por merecer sair do zero. O regulamento de um turno único ajudou a travar o Derby. Rivellino mais uma vez não fez bom jogo contra o clube de infância. Muito atrás e bem vigiado por Jaime e Dudu, pouco brilhou. Como o clássico arrastado e monótono. Nem Ademir da Guia, o melhor jogador do torneio nas rodadas anteriores, fez muita coisa.

Minelli sempre defendeu uma tese. “O futebol precisa ser sempre ofensivo pra não prejudicar o espetáculo”. Mas ele foi fraco. Porque os times entraram claramente para não perder um ponto numa época em que a vitória valia apenas dois.

Tamanho foi o respeito ou receio dos dois times que, aos 37 do segundo tempo, os mais de 40 mil presentes ao Morumbi vaiaram as duas equipes pelo desempenho tão medroso quanto irritante.

O ex-palmeirense Suingue foi a escolha tática com a camisa 7 de Dino para criar superioridade numérica no meio-campo. O preterido ponta-direita Buião soltou os cães e viria a ser afastado do Corinthians. O 4-3-3 do Palmeiras estava mais sólido. Quando não virava um 4-4-2 com Pio recuando para liberar Ademir para encostar em Edu Bala e César Maluco. Além do apoio do lateral-direito Eurico, que muitas vezes deixava o Palmeiras com cinco no meio, ficando Zeca na lateral-esquerda mais fixo, próximo aos zagueiros Baldochi e Nelson Coruja.

No primeiro tempo, o congestionamento deu resultado. Nada aconteceu. O Palmeiras foi pouca coisa melhor. Ou mais ofensivo. Na segunda etapa, a melhor chance foi um tiro de longe de Jaime. Leão fez algumas boas defesas. César ficou ainda mais isolado na frente, e bem marcado pelos eficientes Ditão e Luís Carlos.

Depois do jogo chocho, marcado é medroso, Minelli se mostrou satisfeito. “Não estou aborrecido. O Corinthians claramente nos respeitou demais. Jogou pra gente não jogar”. Leão seguiu na mesma linha: “na final do Paulista jogamos abertos e perdemos pro Santos. Melhor assim como fizemos agora”.

Minelli defendeu a estratégia adotada. “Sempre jogamos desse jeito. Cruzeiro e Botafogo também jogam como a gente. Quem não atuava assim era o Corinthians. Eles mudaram para nos enfrentar. Rivellino quase foi um zagueiro só pra não deixar a gente jogar o nosso jogo”.

O Derby chocho começou 15h15. Logo que acabou iniciou o clássico entre Botafogo e Cruzeiro, no Maracanã. O time mineiro, mais técnico e ofensivo, abriu 2 a 0. Mas o Botafogo foi buscar o empate em apenas 4 minutos, a partir dos 27 da segunda etapa. O melhor resultado possível no Rio para o Palmeiras.

No dia seguinte ao Derby, Minelli e o preparador físico Santo Baldaccin estavam preocupados com a recuperação do elenco. Embora finalmente não tivesse gente lesionada, o ritmo puxado dos jogos em final de temporada deixava muita gente à beira do estouro. Com dores musculares, César era a major preocupação da comissão técnica para o jogo duríssimo na quarta-feira, em Minas.

CORINTHIANS 0 x 0 PALMEIRAS
Torneio Roberto Gomes Pedrosa - fase final
Domingo, 30/novembro (tarde)
Morumbi
Juiz: Arnaldo César Coelho
Renda: NCr$ 244 336
Público: 38 022
PALMEIRAS: Leão; Eurico, Baldochi, Nelson e Zeca; Dudu, Jaime e Ademir da Guia; Edu (Cardoso), César e Pio (Serginho)
Técnico: Rubens Minelli

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.