Especial Robertão-69: no sufoco, Cruzeiro 1 x 1 Palmeiras, em 03/12/1969

Especial Robertão-69: no sufoco, Cruzeiro 1 x 1 Palmeiras, em 03/12/1969

O Cruzeiro era ótimo. Tinha um gênio endiabrado como Dirceu Lopes como meia-atacante. Um dos melhores do torneio. Mas tinha perdido Tostão com descolamento da retina depois de uma bolada do corintiano Ditão. Ainda assim era equipe ofensiva. Mais bonita de ver jogar. Gostava de atacar. Sabia como. “Mas se vier pra cima, criaremos no contragolpe”, avisou Rubens Minelli embarcando para Belo Horizonte. “Gosto de jogar contra time assim. Que joga e deixa jogar”, acrescentou César.

Além do time titular enfim definido e entrosado, o Palmeiras chegou a Minas para o segundo jogo do quadrangular decisivo com Neuri (goleiro), Minuca (zagueiro), Dé (lateral), Cabralzinho (meia), Copeu (ponta), Zé Carlos (volante) e Cardoso (meia-atacante).

O Cruzeiro tinha o ponta-direita Natal de volta, depois de 91 dias fora. O Palmeiras quis contratá-lo no meio do ano. Não conseguiu. Jogador de Seleção, seria ótimo reforço. Veio Edu da Portuguesa. E foi muito melhor para a nossa história.

César era a preocupação do médico Nelson Rossetti. Sentia o tornozelo esquerdo. Edu também sentia a virilha.

Em campo, o Cruzeiro atacou como se esperava. O Palmeiras esperou. Fechado. Até demais. Chegou no máximo três vezes à frente. Na última delas no primeiro tempo, aos 45, Jaime cobrou falta forte e a bola sobrou para o oportunista César não desperdiçar.

O Cruzeiro veio ainda mais pra cima na segunda etapa. Natal saiu e entrou o jovem Palhinha deslocado na ponta. Deu certo. Ele foi derrubado por Zeca. Pênalti que Darci Menezes bateu, Leão espalmou, Nelson não conseguiu afastar direito, Dirceu pegou a sobra e mandou a bola que desviou em Baldochi e sobrou para Palhinha empatar, aos 12, de fora da área. Minelli ficou uma arara com a defesa que não conseguiu afastar a bola.

O Palmeiras seguiu muito amuado. Edu não estava 100% e rendeu pouco. Minelli pensou em Copeu pro terceiro jogo. Pio recuou demais. César ficou sozinho à frente. Ainda assim deu para voltar de Minas com empate que obrigaria a vencer o Botafogo de qualquer jeito, na última partida. Pelo 1 x 1, cada atleta ganhou 500 mil cruzeiros novos.

Logo depois do final do jogo em Minas e no Pacembu (onde o Corinthians venceu o Botafogo por 1 a 0 e virou líder, só não goleando graças ao goleiro Cao), a CBD divulgou o mando dos jogos finais, na tabela dirigida pela pontuação.

Mesmo tendo feito melhor campanha na fase inicial, mesmo líder do quadrangular final, o Corinthians teria que jogar fora contra o Cruzeiro que só havia mandado uma vez. O alvinegro já atuara duas vezes como mandante (ainda que a primeira fosse o Derby paulistano). No outro jogo, natural que o Palmeiras recebesse em São Paulo o Botafogo. Além de melhor campanha que o time carioca, ainda não tinha exercido seu mando, diferentemente do clube carioca que estreara empatando com o Cruzeiro, no Maracanã.

Não era mesmo o ideal. Mas era o possível. O Corinthians que gostara da fórmula uma semana antes agora protestava. O presidente Wadih Helu foi até a CBD no dia seguinte. Não queria jogar no Mineirão. Mas não teve jeito. Teria que decidir um título que não conquistava desde 1954 fora de casa.

Mas ainda poderia ser campeão com o empate em Belo Horizonte. Desde que também Palmeiras e Botafogo empatassem no Morumbi.

Os critérios de desempate no quadrangular final em caso de igualdade de pontos: saldo de gols só no quadrangular; goal average (média de gols) na mesma fase; saldo de gols em todo o torneio; média de gols em todo o Robertão de um 1969.

Se fosse necessário, até o sorteio na sede da CBD definiria o campeão!!!
Para facilitar as contas alviverdes, e dificultar as chances de título: o Palmeiras teria que vencer o Botafogo e o Corinthians não poderia vencer; ou o jogo do Mineirão teria que terminar empatado, ou o Cruzeiro teria que vencer por menos gols que o Palmeiras.

Estava tudo embolado. Mas o Corinthians parecia com mais chances. Também pela festa feita em São Paulo depois da boa atuação e vitória contra o Botafogo. Buzinaço depois do jogo no Pacaembu. Confiança da diretoria que marcou para a semana seguinte um amistoso contra a Seleção de Gana, que no domingo anterior empatara com o São Paulo.

Jogo com pinta de festa para entregar as faixas...

E foram mesmo entregues. Mas em outro Parque.

Definida rapidamente estava a questão do televisionamento das partidas. Corinthians e Palmeiras se queixaram na CBD e na FPF pelos jogos de quarta-feira terem sido exibidos ao vivo também para Belo Horizonte e São Paulo. As negociações dos direitos (quando existiam) não eram por campeonato. Eram por jogos. Faltou acerto entre TVs e clubes.

E o desacerto foi extrapolado e impediu o registro da rodada final. No domingo decisivo, a CBD enviou ofício para as federações de Minas e São Paulo impedindo até mesmo a entrada no Mineirão e Morumbi de qualquer câmera de emissora de televisão. Nem para gravar o videoteipe a ser exibido depois das partidas.
Por isso não existe registro algum da última rodada do Robertão.

CRUZEIRO 1 X 1 PALMEIRAS
Torneio Roberto Gomes Pedrosa - fase final
Quartw-feira, 3/dezembro (noite)
Mineirão
Juiz: Armando Marques
Renda: NCr$ 155 941
Público: 36 525
PALMEIRAS: Leão; Eurico, Baldochi, Nelson e Zeca; Dudu, Jaime e Ademir da Guia; Edu (Cardoso), César e Pio
Técnico: Rubens Minelli
Gols: César 45 do 1º; Palhinha 12 do 2º

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.