Lembranças de um neto qualquer

Lembranças de um neto qualquer

Futebol era de terça e quinta. Na última aula, com o pessoal da sala, a alegria era intensa. Eu chutava forte e essa era minha única qualidade. Mas nem precisava de muito: a quadra era pequena e quase não cabia nela meu sonho. O meu e o de todos aqueles moleques. O professor escolhia sempre os dois ou três times e a brincadeira começava. Na escola fui artilheiro e perna de pau; fui bom goleiro e frangueiro no mesmo dia. A bola, claro, era figura fundamental nos sorrisos das crianças. E a bola nova tinha uma magia diferente: o cheiro, a textura, a cor.

 

Eu chegava em casa suado. Tinha bastante cabelo e era tigela: liso e esparramado. Meu uniforme molhado era o símbolo máximo e singelo de felicidade. Depois de almoçar ainda tinha espaço para jogar futebol na rua. Era o time da Elias Vitta contra o da rua de baixo. Um dos gols era a diferença física entre dois postes; o outro era o portão de um terreno do meu amigo, o Affonso. Lá quebrei vidros, ralei o joelho e machuquei alguns amigos. Naqueles dias, já faz mais de década, destruí lâmpadas e sujei portões. Meus avós puxavam minhas orelhas.

 

O paterno e o materno moravam quase no mesmo endereço. Um quarteirão separava as duas casas. E isso fazia com que eu frequentasse os dois lugares todos os dias. ‘Como foi hoje, Guigui?’, perguntava um deles. ‘Já aprendeu a chutar de esquerda’, questionava o outro. E a gente sempre se abraçava e a gente sempre ria. Um era palmeirense e o outro era corintiano. ‘Mas precisa estudar, hein? Não estão boas as suas notas’. Essa última era opinião unanime na família, seguida sempre pela tradicional ‘já sabe o que vai fazer na faculdade?’. E eu dizia: jornalismo, Yeye (apelido do avô materno). Jornalismo, Neneu (apelido do paterno). Falava com a certeza de um menino naturalmente cheio de incertezas.

 

Hoje cedo passei pela Rua Elias Vitta, onde minha avó ainda mora. Passei, de carro, pela lombada que eu era obrigado a driblar antes de chutar contra o portão da casa do Affonso. O guardinha da rua é o mesmo, mas o vizinho já se mudou e faz tempo. A vizinhança toda já não é a mesma. O próprio Affonso, meu grande amigo, foi para o interior. Só ficou a rua, com o concreto e a lembrança. Só restou o carinho daqueles tempos. É uma dor leve, mas que remete a um sorriso de canto de boca, sabe?

 

Meus avôs, já não mais nesse mundo, torciam muito pelos moleques da rua. Eles foram embora junto com o meu sonho de jogar bola profissionalmente. Foram de repente, do nada, assim como nosso time da Elias Vitta. E o time do clube. E o da escola. E foram com os abraços depois de todos os jogos.

 

Hoje sei o que quero ser quando crescer: quero ser o abraço deles – e como eles.

 

*Texto também publicado no iG

  • Guilherme Cimatti

    Guilherme Cimatti

    Guilherme Cimatti é repórter da equipe esportiva da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Já passou por BandNews FM, Estadão, Globo e CBN. Sempre trabalhou em rádios, mas tem uma queda por crônica.