Meu lance impossível - só poderia passar por ali!

Meu lance impossível - só poderia passar por ali!

Foto: Agência Estado

Pra começar, eu não tinha a menor esperança consciente de que aquela vitória era possível. Alucinado pelas cores, eu trocava tudo e todos por 90 minutos de Palmeiras, mas, diante de tudo, topei viajar com meus pais pra onde eu não teria qualquer chance de ver o jogo. Era uma quinta-feira, um tanto fria, mas o horário foi se aproximando e minha esperança resolveu ressurgir.

Uma hora antes que a bola rolasse, vi a escalação e aquilo foi indigestão pura. Esquema sem lateral, com Márcio Araújo e Rivaldo de pontas improvisador. Era um absoluto horror. A dupla de ataque contava com Tadeu e Luan. Quem, em sã consciência, imaginaria que aqueles caras poderiam reverter os 2x0 que haviam tomado no jogo de ida daquela eliminatória?

Se você se pergunta de qual jogo eu conto, te ajudo. Sul-americana de 2010, Luis Felipe Scolari no comando, Palestra Itália demolido, Pacaembú vazio, mas muito, muito intenso, acredite. Era o jogo de número 500 de São Marcos e a torcida, apegada ao pouco de alegria que tinha, homenageou o ídolo com a inscrição em mosaico do número conquistado. Esse era o cenário para enfrentar o Vitória e sua boa vantagem.

O primeiro tempo foi uma tragédia perfeita. Quando todos já caiam em si que a remontada não viria, Marcos Assunção, aquecendo os motores para protagonizar o meu lance impossível, achou Tadeu e o camisa 9 cavou pra encobrir Viáfara e fazer o primeiro. Faltavam 2 e restavam 45 minutos. Era como subir o Everest de jegue.

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Foto: EFE

Burro, o parente do quadrúpede que o Palmeiras tinha como parceiro, o goleiro rubro-negro falhou miseravelmente no início do segundo tempo e a bola sobrou pro volante Márcio Araújo que, de ruim esteve ainda pior como lateral, chutou errado e o iluminado Tadeu completou pras redes. Saída errada, chute torto, gol do caneludo em noite de Evair. Mesmo eu, descrente, passei a ver um Zidane em cada Assunção. Era possível que acontecesse.

O resto do jogo, agonia pura, poética. Com nove mil e duzentos chutes a gol naquele segundo tempo e todos pra Avenida Paulista, o Palmeiras não achava o caminho, mas todos viam que o caminho eram os pênaltis, a especialidade daquele que recebera as homenagens da noite. Nada tão natural como vencer nas penalidades no jogo 500 de São Marcos.

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Foto: Agência Estado

De Marcos dos Santos Assunção.

Lembram da minha situação? Então, nesse momento, eu estava sentado à beira de um estábulo, com cheiro de bosta das vacas como companheira, caçando um sinal de Wi-Fi que tinha na portaria do hotel. Vidrado com os olhos no celular, vi a falta e pensei: será? Será mesmo? Não pode ser? Seria um absurdo. Não tem como. O frio virou suor. Minha desesperança, fé. Nunca fui tão Palmeiras num lugar tão improvável. Olhei e sonhei.

O resto dessa história fica no coração de cada um de vocês, de nós. Eu abracei os bichinhos, joguei feno pro alto, chorei, gritei, comprei a camisa de Tadeu (é sério!) e pensei até que Rivaldo era jogador. A bola só poderia ter passado por ali. Naquele espaço. Naquele minúsculo espaço entre mão e trave. Era a mesma chance do Palmeiras conseguir aquela vitória. Quase, quase zero. E existe uma vitória mais gostosa do que a impossível? Eu desconheço, honestamente.

Com vaca, desânimo e péssimo futebol, meu coração se recusa a esquecer de Marcos Assunção e meu lance impossível. Se é que aquilo foi mesmo real, né, porque, olha..

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.