Muito mais que gol

Muito mais que gol

Que orgulho de vocês, caras. No começo do ano, eu vim nesse espaço questionar quem eram vocês, porque tinham se deixado abater na força, na vontade, no grito, na dividida, nos olhos sedentos que passavam ao torcedor a certeza que tudo estava sendo feito ao máximo. Critiquei duramente a postura que havia sido covarde, naquele dia. Hoje, com uma alegria que mal cabem em texto, volto pra refazer, para zerar as mágoas que ficaram. Para que a mesma mão que apedrejou, volte a afagar, porque é a hora.

No primeiro debate televisivo após o apito final de Palmeiras 1x0 Corinthians, a discussão era sobre "poderia ter sido mais, poderia ter tido mais tempo de futebol e menos de briga". Não é uma visão errada, mas é uma visão que não entende o que um coração de torcedor precisava pra esse adversário, para esse jogo. Era mais do que vencer um time, era vencer tudo. Ser superior em todos os aspectos do jogo, era ser maior no coração, também.

Cada bola vencida, um grito para as arquibancadas, a cada bola que os zagueiros deveriam disputar no alto, eles atropelavam a disputa, quando o goleiro teve sobre sua área uma bola cruzada, era um murro como quem quer desmaiar os fantasmas que ficaram. Quando havia aquele lance de um contra um, eram 40 mil contra um, era uma união que tremia, de fato, o chão de quem tentava. Quando perdiam o duelo, tinha alguém babando pra resolver a dificuldade do companheiro. Uma comunhão de quem tem objetivos muito claros que não precisam ser vistos. Eles são sentidos por quem torce.

Sentidos de verdade, por aquele que emocionou a mim e a todos que tiveram a honra de ver uma imagem em que o garoto alviverde, o Nickolas, vê o jogo com a alma e com as palavras da mãe, a Silvia. Ele transcende as questões naturais do esporte, ele é exatamente o reflexo desse dia em que a energia toma conta de um lugar de um grupo de pessoas que estão apenas pelo amor a uma cor, uma bandeira. Quando se fala em ganhar mais do que na bola, é ganhar também o coração desse jovem palestrino que jamais esquecerá dos arrepios que sentia em meio a uma vitória moral, vitória de espírito. Ele já percebeu que não tiveram força, nem garra, para enfrentar um Palmeiras que quer muito.

Tem, assim como eu e qualquer alviverde de coração pulsante pelo mundo, orgulho. Tem muito carinho em sair do Allianz Parque vendo o que aconteceu. Vendo que o futebol é bem mais que a superioridade ou inferioridade técnica, é a reunião de espírito, de alma, de luta, de coisas que o dinheiro ainda não é capaz de comprar integralmente. Não tem salário que dê a um homem a hombridade de lutar alucinadamente por um objetivo como quando existe uma união entre ele e quem o cerca. A confiança de que se a mim não der, terá alguém capaz de fazer.

Deyverson fez. Até além do que se espera, foi o que qualquer torcedor estava afim de ser, foi briga, foi pirraça, foi bola, foi grito, foi firula, provocação. Foi sangue de quem queria mais. Dudu foi o motor. A técnica apuradíssima de quem merece que tiremos todos o chapéu pra ele. Ele que tirou rivais para dançar, ganhou na marra, no drible. Todos poderiam estar nesses paragráfos como estarão na lembrança desse garoto que pouco conheço, ainda, mas já sinto tanto carinho.

Vocês fizeram o dia melhor por serem o melhor que o Palmeiras pode ser. Com jogadores que jogam mais ou menos vezes, com mais ou menos técnica, todos com o mesmo desejo. O Palmeiras tem mais qualidade na bola e também teve mais tesão. Não há quem não morra de carinho de um dia assim.

Tem que ter raiva quando vocês erram, mas tem que ter muito orgulho dessa tarde de Palmeiras.

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.