Nossa terra sempre tem Palmeiras e o amor de mãe pra filha resiste

Nossa terra sempre tem Palmeiras e o amor de mãe pra filha resiste

Fotos: Arquivo pessoal

'Chorou-se por todo Nordeste, o fim do sonho do novo mundo a beira dos anos 2000.'

Esse é somente um dos trechos da última campanha da Puma para apresentar a nova camisa do Palmeiras.

Quando você conhecer a história de Eliene Diniz Pereira Neves, de 26 anos, você vai ver que a empresa alemã soube como ninguém retratar a realidade da torcida palmeirense que se espalhou por cada canto desse país após os imigrantes italianos pisarem em solo brasileiro.

Mais de 3 mil quilômetros separam o Allianz Parque de São Luís, capital do Maranhão.

Em um vilarejo um pouco mais afastado de lá, nasceu uma paixão palmeirense capaz de contaminar três gerações de mulheres que vieram para mais do que ostentarem a sua fibra, como também transformarem a lealdade e a representatividade em padrão.

Veja a entrevista completa com a mãe que viralizou nesta semana após postar a festa de sua filha no twitter:

NP: Eliene, primeiramente de onde a sua família é?

Eliene: Somos de uma cidade do interior do Maranhão, chamada Alcântara. Moramos em uma vila que fica há uns 15 minutos de Alcântara na verdade. É um povoado Quilombola.

NP: De onde nasceu a paixão da sua filha pelo Palmeiras?

Eliene: A Larah quando nasceu eu não quis intitular como palmeirense, porque o pai é corinthiano e ficamos nesse atrito. Acabou que decidimos que ela que iria escolher pra qual o time ela iria torcer. Eu não quis entrar no meio porque vi que estava uma grande disputa. Quis conquistar ela aos pouquinhos. Ela começou a torcer pro Palmeiras quando me viu torcendo. Da mesma forma que eu virei palmeirense quando vi minha mãe comemorando o título da Libertadores de 1999. De uns tempos pra cá o amor só aumentou. Hoje ela não pode ver ninguém falando mal do Palmeiras. Ela rebate, defende e fica brava.

NP: Como surgiu a ideia do aniversário com o tema Palmeiras?

Eliene: Desde o começo do ano, ela me pediu que se eu fosse fazer aniversário pra ela, ela queria que o tema fosse do Palmeiras. Quando ela me pediu a festa do Palmeiras eu não hesitei em nenhum momento por ela ser menina. Eu fui criada em um ambiente com meu pai me ensinando a jogar futebol. E eu faço o mesmo com ela. Jogamos bola juntas, sempre ela foi incentivada a jogar. Por isso no twitter eu fiz questão de afirmar que futebol é coisa de menina sim!

NP: Vocês conseguem assistir aos jogos? O Palmeiras chega como até vocês?

Eliene: Eu só tenho a Larah de filha e ela não mora comigo. Eu só vejo ela nos finais de semana. Tanto eu quanto o pai dela trabalhamos e moramos em São Luís. Mas ela sempre está assistindo o Palmeiras sim, quando passa né? O povoado onde a Lara mora é muito humilde. Só 3 casas possuem tv fechada, só que uma delas é a da minha irmã. Quando tem jogo do Palmeiras a casa fica cheia de gente lá. Eu acabo acompanhando mais que ela porque tenho internet aqui em São Luís.

NP: Vocês já viram o Palmeiras de perto? Como foi?

Eliene: No ano passado, o Palmeiras veio enfrentar o Sampaio Corrêa, pelas oitavas Copa do Brasil. No dia do sorteio eu rezei tanto, pedi tanto pra Deus pro Palmeiras pegar o Sampaio. O jogo foi no dia 22. Dia 20 é aniversário da minha mãe. Minha irmã nos deu os ingressos de presente e aí eu pedi pra minha mãe trazer ela pra cá. Minha mãe não queria levar ela, porque ela iria perder dois dias de aula. Eu disse: Mãe, traz ela, por favor. Vai ser um momento único, eu não sei se a gente vai ter uma oportunidade como essa tão cedo. Convenci e nós fomos ao jogo com mais alguns primos. Foi um dia único. Um dos momentos mais especiais da nossa vida. Sentir o calor da torcida do Palmeiras, pulsar na arquibancada, foi uma das melhores emoções, vi minha filha feliz pulando, chamando o nome dos jogadores. Foi muito gratificante poder viver esse momento com a minha mãe e ela do lado.

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NP: De quem a Larah mais gosta desse atual elenco do Palmeiras?

Eliene: Os jogadores que ela mais gosta é o Felipe Melo e o Dudu. O Weverton ela também gosta. Mas do Felipe Melo, e principalmente o Dudu, ela ama. O Dudu é o xodó dela. Até o balão da festa dela é em forma de 7, e se você vira acaba virando o L de Larah.

NP: Recentemente o Palmeiras se posicionou a favor da campanha #Vidasnegrasimportam, o quanto é importante ver o clube que vocês amam apoiando uma luta que é de vocês?

Eliene: É importante ver o clube apoiar essas causas, sejam elas as dos pretos, dos homossexuais, das mulheres. As pessoas têm que ter essa consciência de que o Palmeiras não é só do branco, do paulista, do povo do eixo sudeste. O Palmeiras é do povo que ama. É muito importante o Palmeiras dar essa visibilidade, ter esse posicionamento forte, me enche de orgulho ele dar visibilidade e voz para a nossa causa. Até porque o elenco do Palmeiras tem muitos negros, essa causa especial me emocionou muito em ver o clube se posicionando, porque eu sou preta, a gente precisa que as pessoas nos escutem. Parem de nos marginalizar. Começarem a nos escutar, aceitarem que nós temos o lugar que nós quisermos na sociedade. Termos nossos direitos igualados com qualquer outra pessoa. Todas as vidas importam, mas mais ainda a das minorias tão desfavorecidas no nosso país.

NP: Como é pra você ver ataques preconceituosos na rede, principalmente contra esses posicionamentos do clube?

Eliene: Essas pessoas que se incomodam quando o clube se posiciona por nós, eu nem sei o que falar pra eles. O próprio nome do clube já carrega a palavra Sociedade, o que é Sociedade pra eles? O Palmeiras não está restrito pra eles. A Sociedade Esportiva Palmeiras tem pobre, preto, branco, rico, índio, gays, lésbicas. O clube não é de um pequeno grupo. Nosso clube foi fundado por imigrantes, não foi nem por brasileiros, sofremos uma opressão gigante até mudar de nome. Só pra você ver a grandiosidade do Palmeiras, de sua sociedade. Eu vejo no twitter alguns comentários preconceituosos e não tem o menor cabimento. É ignorância pura.

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NP: Como foi a reação de vocês ao verem a repercussão que o seu tweet causou?

Quando eu vi a repercussão da foto do aniversário dela, alguns influenciadores palmeirenses curtindo, retwettando, eu pensei: minha nossa senhora, vamos ver onde isso vai dar. Eu não imaginava que o Palmeiras ia repostar. Achei que só ia ter um comentário. Mas falei até com a minha irmã que fiquei assustada com a repercussão. Pra gente que mora longe, que sente esse amor, e que infelizmente não pode sentir esse calor do Allianz Parque de perto, acaba que aproxima mais a gente que está longe. Essa interação com o povo de São Paulo é muito legal. O clube não tem ideia do tamanho dele pra nós.

NP: É o maior sonho da Larah conhecer o Allianz?

Eliene: Não é um sonho só dela não. Eu também sou apaixonada pelo Palmeiras. É o nosso maior sonho ir pra São Paulo pra assistir um jogo, conhecer os jogadores, conhecer o Allianz. Mas pelas minhas condições financeiras é impossível. Eu sou empregada doméstica, pago minha faculdade de educação física, ajudo minha mãe com a Larah, gasto com passagem de São Luís para Alcântara todo final de semana. Mas é o nosso maior sonho sim, só de pensar em estar no Allianz Parque eu já fico toda arrepiada.

NP: O Palmeiras tem diversos negros na sua história. No elenco de hoje também possui alguns atletas negros, como o Patrick de Paula, jovem que tem uma origem muito humilde, de favela. Esses negros que venceram na vida são um exemplo pra sua filha?

Eliene: Eu tenho um carinho especial pelos jogadores negros do Palmeiras. O Patrick de Paula mesmo, tão novo, tão humilde, com uma infância bem parecida com a da minha filha. Tanto ele quanto o Verón, que é daqui do Nordeste. Ver os meninos da base é mais gratificante ainda. A maioria que subiu esse ano são todos negros. É muita representatividade ver eles com a nossa camisa. O preto pode ocupar o lugar que ele quiser, alcançar os seus sonhos. Eles são um grande exemplo não só para minha filha, mas para mim também. Aos poucos o negro está ocupando lugares que antes ele não ocupava. Mas ainda falta muita coisa. A triste realidade que a gente ainda vive é o racismo tanto no esporte quanto no nosso cotidiano diário. Mas tenho orgulho demais da minha raça, da nossa história.

NP: Você tem conhecimento sobre os seus antepassados? De onde eles vieram?

Eliene: Nós não sabemos de onde eles vieram, a única coisa que eu sei é que todos foram escravizados. O local de origem mesmo eu não sei. Mas teve muito familiar meu que lutou para eu estar aqui hoje, torcendo pelo Palmeiras e levando essa paixão pra minha filha.

NP: Vocês sofreram algum tipo de repressão por parte desse governo? Como o Palmeiras ajuda a encarar as dificuldades?

Eliene: Nossa família é muito unida apesar de todas as dificuldades. E o Palmeiras sempre está nos momentos de mais alegria. Tivemos que nos mudar da região onde nós viviamos um tempo atrás. É uma falta de respeito a forma como esse governo trata tanto os quilombolas quanto os indígenas. Fomos colocados em uma terra onde não é possível o cultivo. Muitas famílias quilombolas vivem da plantação de mandioca, de milho e arroz. Houve um impacto muito grande, e novamente estamos sendo ameaçados de ter que nos mudarmos, abandonarmos um lugar onde já criamos laços, amizades. Os quilombolas só querem respeito e serem integrados na sociedade. Não dá pra simplesmente você expulsar famílias de um lugar e colocá-las em outro do nada. É preciso respeito. Queremos apenas um governo que nos trate com mais humanidade e dignidade.

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Nota da redação:

Em março de 2020, já em meio a pandemia, o governo Bolsonaro publicou uma resolução tomada por sete ministros que anunciou a remoção e o reassentamento de famílias quilombolas no Maranhão. A medida atingiu 800 famílias de 30 comunidades dos descendentes de escravos que habitam a região desde o século 17.

Dentre elas, a família de Eliene e Larah.

Alcântara possui um Centro Espacial, onde o atual Governo vê um grande atrativo de recursos para o Brasil neste setor, e claro que o lugar onde todas essas famílias vivem, seria usado para dar seguimento ao projeto de expansão do Centro de Lançamento Espacial.

No mês passado, a justiça federal suspendeu o despejo dos quilombolas da região de Alcântara e a decisão foi vista como um grande alívio para todas as pessoas que temiam perderem as suas terras.

  • Gabriel Amorim

    Gabriel Amorim

    Gabriel Amorim, 28 anos, detesta quem assiste ao jogo sentado e tem como grande ídolo Armando Nogueira. Formado em Jornalismo pela UMESP em 2012, cobriu a Copa do Mundo da Rússia pelo jornal Lance!