O dia em que abracei Felipão

O dia em que abracei Felipão

Por Nathália Ferrari

Era uma quarta-feira quente em São Paulo. O sol ardia nos braços e no topo da cabeça. Cheguei no horário combinado, entreguei minha carta de motorista, que serve unicamente como documento. Sou Ferrari mas não se engane, não sou nada boa no volante. Aliás, quem gosta de volante é o Felipão. Ao menos é o que dizem os entendididos amadores.

Entrei no Centro de Treinamento do Palmeiras, fui recebida numa recepção bastante pomposa. Olhei tudo em volta, arregalei bem os olhos para me lembrar de cada detalhe. Como o pé direito é alto, como os tons de verde se misturam às paredes brancas que predominam o ambiente... não deixei passar nada. Acima de mim, a representação dos escudos de Palestra Itália e Palmeiras, numa fusão perfeita de passado e presente. Aguardei uns 15 minutos e fui gentilmente escoltada até o campo pelo segurança. Aquele moço alto da voz de trovão, sabe?

Reencontrei velhos conhecidos. “Não tive êxito, ainda... mas estou voltando”, expliquei. E também não cresci!

Fico verdadeiramente feliz em ver a turma que começou naquela época de 2003 a 2007, atualmente brilhando nas televisões, rádios e sites. Se você fizer bem as contas, vai descobrir que eu tinha 13 anos quando me inseri neste meio, mas esta é história para outra hora.
Vou retomar meu sonho. Não vou mais desistir. Já fiz isso uma vez, não sou de repetir velhos hábitos. Aprendo com eles e sigo em frente.

Sim, caro leitor. Este é um texto altamente pessoal. E se me permite, preciso lhe contar como foi o dia que conheci Felipão, no ano de 2011, neste mesmo local. Era março, a estrutura era muito diferente, bem menos bonita e grandiosa. Eu fazia faculdade, no último ano de jornalismo.

Enfrentava alguns problemas naquele ponto, mas preferi sublimá-los por algumas horas, pois veria Luiz Felipe Scolari bem na minha frente. Sentei na primeira fila da sala de imprensa, tremi um pouco ao segurar o microfone. Felipão respondeu de maneira longa e satisfatória. Meu professor de rádio nem acreditou quando cheguei com aquela sonora. E meu avô, já no seu leito de morte, ouviu-me contar naquela noite como eu tinha conseguido conhecer e falar com um dos meus ídolos. Poucos dias depois ele se foi e toda aquela situação me mudou para sempre. A coisa mais legal daquele ano horroroso, foi sem dúvida, fazer uma pergunta para Felipão.

Sete anos separam esses dois encontros. Eu que pareço gostar de colecionar momentos traumáticos, adicionei mais um desde a última vez. Mudei mais um pouco, mas agora consigo ver as coisas com maior clareza e me perdoar por outro 7 a 1. Nesta quarta-feira de muito sol, Felipão já é decacampeão brasileiro e quem o chamou de ultrapassado, rendeu-se à experiência e à capacidade de reinvenção.

Gosto de exemplos assim, me agarro com força neles. Chego hoje no CT com um largo sorriso, dona de mim, dos meus objetivos e também orgulhosa por aquele senhor de bigode.

No final da recreação entre os atletas, pergunto ao voz de trovão: “será que o Felipão tira uma foto comigo?”. Ele me responde que sim e me diz para chamá-lo. Chamei. Fiz sinal de foto com as mãos. Felipão me manda entrar no campo.
Naqueles segundos seguintes, lembro de tê-lo abraçado e agradecido pelo deca. Peço para uma colega da Rede Globo fazer a foto.

Foram tiradas três, para garantir.

Saio dali feliz e controlo a emoção; sorte que os óculos escuros não me denunciaram e pude manter a minha postura profissional diante dos jornalistas. Fiquei num cantinho por uns dois minutos e só depois entrei na sala de imprensa, no andar inferior.

Tudo isso é sobre memória afetiva. Sobre a menina rebelde que tomava leite Parmalat, agarrada com a bandeira na frente da tevê. Que viu o Palmeiras campeão em 99 torcendo sozinha e só sonhava com o Palestra Itália. É sobre uma respostinha que fez aquele ano horroroso de 2011 ter um único bom momento para recordar. É sobre ter visto a campanha do Decacampeonato Brasileiro dentro do Allianz Parque ao lado da minha mãe.

É sobre aquele abraço e o meu “muito obrigada por retornar, você merece”.
É sobre superação. É por ter ouvido tantas vezes que o meu sonho era só uma fase que já tinha passado e que deveria diminuir-me para caber numa caixinha apertada. É gritar o mais alto possível, lá do gol norte. É não desistir, por mais Alemanhas que apareçam no caminho.

Estou no caminho entre sete e dez. Apesar dos meus olhos marejados enquanto escrevo, afirmo: estamos muito melhores agora, Felipão!

Uns segundos ou minutos podem transformar anos, dias, memórias. A generosidade de Scolari nas duas vezes em que nos vimos fez toda a diferença. E para variar, eternizei nesta foto um momento feliz, de alguém que superou toda a desconfiança e venceu com recordes irretocáveis.

A Nathalia de 2018 não poderia estar mais feliz com meu time e meu técnico do coração.

A foto está hoje nas minhas redes sociais e na parede do meu quarto, ampliada. E tudo isso é na verdade por um só motivo: sorte. Como eu tenho sorte por ser palmeirense!

  • Gabriel Amorim

    Gabriel Amorim

    Gabriel Amorim, 27 anos, detesta quem assiste ao jogo sentado e tem como grande ídolo Armando Nogueira. Formado em Jornalismo pela UMESP em 2012, cobriu a Copa do Mundo da Rússia pelo jornal Lance!