O maior Rio do mundo é o da nossa aldeia

O maior Rio do mundo é o da nossa aldeia

22 de julho de 1951. A primeira conquista intercontinental do futebol brasileiro em nível de clube e seleção.

Passados exatos (e bota certos nisso!) 68 anos, ainda não houve um time brasileiro que tanha tido a torcida de quase todo o país como o Palmeiras contra a Juventus, no Maracanã. Foram 116 mil brasileiros órfãos do Maracanazo. O Palmeiras foi Brasil em 1951, como amam dizer nossos narradores.

Mas o mundo foi do Palmeiras?

O Maracanã foi. Mas foi mesmo do Brasil.

Os mais de 116 mil presentes não gritavam "Palmeiras", berravam "Brasil", um ano e uma semana depois do Maracanazo. Se fosse o Vasco eliminado na semifinal, seria a mesma história. O São Paulo vice paulista em 1950, também.

O empate por dois gols com a Juventus de Turim deu o título depois de sete jogos contra grandes equipes a Fábio Crippa; Salvador e Juvenal; Túlio, Luis Villa e Dema; Lima, Ponce de León, Liminha, Jair Rosa Pinto e Rodrigues.
Time do técnico Ventura Cambon, que também foi de Oberdan Cattani, Waldemar Fiúme, Achilles, Canhotinho, Sarno e Richard.

Time campeão da Copa Rio.

Time campeão do mundo?

O palmeirense tem o dever palestrino de dizer que sim. Está na estrela vermelha acima do escudo. O torcedor de qualquer outra cor tem o direito de dizer que não. Está no buraco negro no cotovelo de qualquer um.

Os dois lados têm razões para defender as posições numa questão onde quase sempre só cabe a paixão. Logo, qualquer alternativa é válida. O que não pode é desdenhar a conquista, especialmente pelo momento do título.

O Brasil estava com a bola abaixo da grama por conta do Maracanazo. Vasco, campeão do Rio em 1950, e Palmeiras, campeão de São Paulo em 1950 (além de vencedor do Rio-São Paulo de 1951), eram os representantes do país no até então mais importante torneio internacional já realizado. O primeiro com caráter e peso de copa intercontinental.

Por isso o Palmeiras foi Brasil como jamais voltará a ser (embora o clube também tenha sido a própria seleção na inauguração do Mineirão, em 1965). Só o Santos foi algo parecido em 1962-63, mas em outro tempo, num outro torneio. Dificilmente outro time será o que representou o Palmeiras para o Brasil de bola em 1951.

Como jornalista e metido a conhecedor da história do futebol, não daria o caráter mundial ao título internacional. Mas o torcedor do Brasil deu ao time paulista um caráter nacional que nunca mais se viu.

É outro feito desse troféu que só pode ser igualado, em qualquer sentido, se houver outro Maracanazo.

A discussão da amplitude do título não vai acabar nem com a Fifa o legitimando como ela fez em 2007 e depois voltou atrás. Até o próprio Mundial da Fifa de 2000 é discutível. Discutimos a Copa Toyota, aquela anterior ao Mundial de 2005. Os sul-americanos dão ao vencedor do jogo de Tóquio o título de “campeão mundial”. Os europeus o chamam de “campeão intercontinental”.
Tem muito da empáfia europeia o desdém pelo cruzamento dos campeões continentais. Mas eles dão bola mesmo para a Liga dos Campeões, não para Tóquio. E também dão mais importância do Mundial da Fifa.
Nâo eram recohecidos pela Fifa até 2017. Mas sempre foram campeões de fato os de Tóquio, os intercontinentais de 1960 a 1979.

Se é Mundial ou não a Copa Rio de 1951, não importa. O que vale é como valeu em 1951. Milhares de pessoas nas ruas paulistanas para saudar os campeões, conclamados até por presidentes de Corinthians e São Paulo.

Eram outros os tempos. Mas esses são eternos como a conquista. A primeira intercontinental do futebol brasileiro.

Não foi nada fácil. Como se lê abaixo.

COMO FOI ORGANIZADA A COPA RIO DE 1951

Por iniciativa da CBD, com a chancela de representantes da Fifa, o formato original da Copa Rio de 1951 seria assim:

Grupo I: Rio de Janeiro (Estádio do Maracanã) -
Vasco (Brasil, campeão do Rio em 1950 - não havia torneio nacional até 1959)
Sporting (Portugal, tetracampeão nacional de 1951 a 1954. Também participou da Copa Rio).
Nacional (campeão do Uruguai de 1950, então país campeão mundial, no mesmo Maracanã. Eliminado na primeira fase do torneio)
Olympique de Nice (campeão francês, que seria bi na temporada seguinte, participou da Copa Rio e não passou da primeira fase, mas atuando em São Paulo).

Grupo II: São Paulo (Estádio do Pacaembu) -
Palmeiras (Brasil, campeão de São Paulo de 1950)
Milan (o campeão italiano não veio)
Tottenham (o campeão inglês também não veio)
Estrela Vermelha (campeão da Iugoslávia, de boa participação na Copa de 1950, eliminado na primeira fase)

Grupo III: Porto Alegre (Estádio dos Eucaliptos) e Curitiba (Durival de Brito) -
Racing (tricampeão argentino de 1949 a 1951, não quis papo, muito menos bola. À época, eram péssimas as relações entre as federações de Brasil e Argentina. Tanto que nem da Copa-50 a seleção platina participou, também por se sentir preterida pela Fifa)
Stuttgart (campeão da Alemanha Ocidental em 1950 e 1952, não veio. Como a Alemanha não se considerou pronta para vir ao Brasil na Copa-50)
Anderlecht (tricampeão da Bélgica, de 1949 a 1951, também não veio)
Wisla Cracóvia (bicampeão polonês, de 1949 a 1950. Não participou)

Grupo IV: Recife (Ilha do Retiro) e Belo Horizonte (Estádio Independência) -
PSV (campeão da Holanda. Não veio)
Atlético de Madrid (bicampeão espanhol, 1949 e 1950. Não veio)
Malmöe (tricampeão da Suécia, de 1949 a 1951. Não veio)
Kopenhagen (Tricampeão da Dinamarca. Não participou)

Como os organizadores da Copa Rio imaginavam as mesmas recusas e desistências da Copa-50, alguns outros clubes foram convidados: Real Madrid (Espanha) e o Rapid (que seria bicampeão da Áustria em 1951 e 1952).

Cartolas da CBD, Ferj e FPF sabiam o que os aguardavam. Quer dizer: quem não viria.
Desistiram Racing, Tottenham, Stuttgart, Anderlecht, Wisla Cracóvia, PSV, Atlético de Madrid, Malmöe e Kopenhagen. E mais o Real Madrid.

A CBD fez novos convites: Barcelona e Sevilla (Espanha), Rangers (Escócia), Servette (Suiça), Everton (Inglaterra), Colo-Colo (Chile), Deportivo Municipal (Peru), Atlas (México), Strongest (Bolívia).

Todos disseram não.

A Juventus, campeão italiana em 1950 (e que depois seria campeã ao final daquela temporada em 1951-52), terceira colocada na Série A em 1951, acabou entrando no lugar do Milan.
O Austria Viena, bicampeão nacional em 1949 e 1950, foi convidado e aceitou, representando o futebol que seria semifinalista na Copa de 1954.

Dois grupos acabaram sendo formados: no Rio, o grupo A. Vasco e Austria Viena se classificaram. Nacional de Montevidéu e Sporting de Lisboa foram eliminados.

No B, disputado no Pacaembu, Juventus de Turim e Palmeiras se classificaram. Estrela Vermelha de Belgrado (base da ótima seleção iugoslava eliminada pelo Brasil na Copa-50) e Olympique Nice foram eliminados.

Nas semifinais, dois jogos no Pacaembu, a Juve eliminou o Austria Viena.
No Maracanã, o Palmeiras venceu o Vasco por 2 a 1, e se classificou com um empate sem gols, também no Rio.

Os dois jogos decisivos foram no Maracanã.

O Palmeiras venceu a Juve por 1 a 0 no primeiro. Na decisão, o 2 a 2 garantiu o título internacional.

COPA RIO DE 1952

O sucesso da primeira edição vencida pelo Palmeiras, em 1951, inspirou a CBD a organizar o segundo torneio internacional.

Mais gente foi convidada. Menos clubes de qualidade compareceram. Mas, diferentemente da edição de 1951, não havia a chancela da Fifa, nem representantes da entidade.

No grupo do Rio, Fluminense (campeão do Rio em 1951), Peñarol de Montevidéu (campeão uruguaio em 1951), Grasshopper de Zurich (campeão suíço de 1952), e Sporting de Lisboa (tetracampeão português, de 1951 a 1954).

No grupo de São Paulo, Corinthians (campeão paulista de 1951, e bi em 1952), Libertad (vice-campeão paraguaio em 1952), Saarbrücken (vice-campeão da Alemanha Ocidental em 1952) e Áustria Viena (vice-campeão nacional em 1952, e campeão em 1953).

Juventus (Itália) e Racing (Argentina) recusaram o convite.

No grupo carioca, Fluminense e Peñarol se classificaram.
No paulistano, Corinthians e Áustria Viena (uma das bases da boa seleção austríaca da Copa-54).

Nas semifinais, no Pacaembu, o Corinthians venceu o primeiro jogo por 2 a 0. Por uma série de problemas, ganhou a segunda partida por W.O.

No Maracanã, o Fluminense venceu o Austria por 1 a 0 e, no segundo jogo, por 5 a 2.

Na decisão, o Fluminense venceu o Corinthians por 2 a 0. No segundo jogo, também no Maracanã, empate por 2 a 2 garantiu o título ao Tricolor.

COPA RIO DE 1953

A prefeitura do Rio deixou de patrocinar a Copa Rio em 1953.

Ainda assim os organizadores conseguiram fazer um torneio, no Maracanã e no Pacaembu. Vários clubes desistiram, e o fracasso financeiro inibiu novas competições.

No grupo carioca, Vasco (campeão do Rio em 1952), Botafogo (vice-campeão da Pequena Copa do Mundo na Venezuela, em 1952), Fluminense (campeão da Copa Rio de 1952, que entrou no lugar do Nacional uruguaio) e Hibernian (campeão escocês de 1953).

No grupo paulistano, Corinthians (que havia acabado de conquistar o Rio-São Paulo-53, e era bicampeão paulista de 1951-52), São Paulo (seria o campeão paulista de 1953 ao final do ano), Sporting de Lisboa (tricampeão português) e Olimpia (tricampeão paraguaio).

Vasco e Fluminense se classificaram no grupo A. No B, São Paulo e Corinthians.

Nas semifinais no Pacaembu, o São Paulo eliminou o Fluminense na prorrogação, no segundo jogo.
No Maracanã, o Vasco venceu duas vezes o Corinthians.

Na decisão, duas vitórias vascaínas contra o São Paulo deram o título ao Vasco que tinha ainda jogadores do Brasil-50 e teria titulares como Pinga, da seleção de 1954.

Para muita gente, não era mais a Copa Rio.
Não teve o peso e a importância e o interesse das edições anteriores.

Mas é um torneio similar.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.