O time de um craque só

O time de um craque só

Eis aqui um sambinha feito de uma nota só. Antônio Carlos Jobim, nos anos 70, o craque solitário de uma legião de estrelas que davam tom e verso à música nacional. Que os poemas me perdoem a heresia da comparação, mas o estrelado elenco verde é uma obra de arte com nuances que entram a todo tempo, mas com a mesma base.

Com um craque só. Uma força só.

Luís Felipe é a escala do violão, as afinações do piano ou os solos de guitarra. Desempenha com descrição, mas é a alma do processo. Absolutamente indispensável à engrenagem, é quem decide, controla, afaga e apedreja. Não há Augusto dos Anjos que explique melhor do que a palavra de quem é subordinado à essa figura decisiva.

Nas entrevistas pré férias e pós vitória desta quinta-feira, as falas voltaram-se para Felipão. Em dia de sinceridade explícita, Lucas Lima que pouco fala e pouco fazia, falou por estar fazendo além do comum, ainda que dentro da esperança de outrora, sobre a importância do treinador coroa em sua retomada com a verde e branco.

Em sequência como titular, o platinado agradeceu ao bigode por tê-lo recuperado quando a crítica já o tinha como fora dos planos do invictus da Pompeia. Habilidoso com a bola e com a noção de realidade, o camisa 20 nota com clareza a importância das costas largas e coragem indistinta de Scolari ao banca-lo entre os 11 quando nem entre os 30 seu futebol era capaz de justificar.

Um trator em campo, ainda que com rompantes de Rolls-Royce, Zé Rafael é titular indiscutível desse Palmeiras que não perde e lidera o nacional. Mesmo após o início à sombra do elenco famoso, o camisa 8 também fez questão de agradecer ao treinador, que soava carrasco por demorar a vê-lo, por ceder a ele a chance “na hora certa”. No momento em que o time precisou de Zé e o eficiente meia precisava atuar.

Felipão é a nota fina do samba de Toquinho, de Cartola. Fazem pouco barulho, mas tocam no ponto sensível de todos que estão ao redor. Craque escondido no rosto sisudo, o experiente gaúcho é quem comanda o presente, pensa no futuro, prepara o amanhã e cuida de buscar os que pararam no passado. E não passa despercebido. É e sempre será exaltado como o fio desse sambinha que em tons afinados e leves vai levando o campeonato como música.

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.