O título de vocês

O título de vocês

Uma torcida espera esse dia por meses, por anos, talvez pela vida inteira. Talvez nunca viva o suficiente. Não é incomum de encontrar aquelas histórias de amor não correspondido por uma conquista. A entrega plena e absoluta em troca de nada. Sorte, privilégio e gratidão dos que ganham, um dia.

Fomos.

Uma criança de 12 anos, ao meu lado, no festivo Allianz Parque, disse: “que legal, vamos erguer troféu de novo”, e voltou a esguelhar-se em paixão pelo “campeão dos campeões”, como cantava. Emocionado, o pai ficava recostado nos concretos do setor Superior do estádio, vendo o filho, vendo o jogo, olhar paralisado, brilhante de lágrima, de felicidade, de um pouco Palmeiras de tudo.

Meio século de vida. Muitas gerações na cabeça, alguns fracassos, grandes conquistas, um hiato histórico do qual não se pode esquecer pra sempre saber o tamanho da glória. Me vi no meio do caminho. Entre o garoto e o pai. Um privilegiado que nasceu campeão e se tornou profissional 20 anos depois, ainda campeão. De novo, campeão. Eles unem o Palmeiras por duas visões distintamente similares em alegria.

Do outro lado, uma garota que entregou a vida aos céus por querer viver de verde e branco. Quando chegou, vitória. Contra o Vitória. Sem título, sofreu. Nunca pôde gritar campeão para seus ídolos ouvirem. Ficou silenciada pela distância e acumulou. Como é o clube para o qual torce, nasceu de novo e foi corrigir seu penar. Tomada pela própria história, deixou as lágrimas caírem, as palavras ditas de um sentimento calado.

Respirou fundo, olhou pro céu, cantou:
“1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, DEEEZ”
Entregou-se à tudo que sempre sonhou viver. Fechou um ciclo.

Do outro lado do estádio, um amigo que o sangue teve azar de não fazer irmão, lutava contra suas convicções contestadas. Foi por paixão, confrontou quem suprime o que sente. O Palmeiras significa a resistência, o verde, o branco e o vermelho, a garra para seguir, o foco inquieto para ser o maior campeão do país. Perde uma discussão, mas nunca perde o sentimento pelo que lhe faz respirar.

O comentarista, escritor, emocionador de Palmeiras profissional, o cara que deu vida por isso e dá o sangue por nós, festejou. Como havia festejado com os filhos, a mulher, os ídolos meus que são fãs deles. Suprimir amor é a pior espécie de tristeza. De egoísmo com a própria consciência. Deu certo, chefe.

Meus pais, vendo a primeira taça da vida, ali, frente a frente. Ano a ano cultivando esse momento. Uma vida quase inteira. Uma história que poderia ser como aquelas fracassadas, mas que acaba em faixa, em cavalinho do campeão, de mil vídeos que esgotaram a memória do celular. A foto que revela o suor dos olhos.

Mais um entre tantos vocês, entre tantos nós.

O jornalismo existe para ser música quando mal feito. O jornalismo existe pra contar as histórias, não todas que gostaríamos, mas alguma que represente muitas. O meu amigo de poucos anos, a garota dos olhos marejados. O Lorenzo que deu as mãos pra Dudu e ascendeu ao nirvana verde e merece um texto só pra ele.

Obrigado, Família Palmeiras!
Vocês são campeões!

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.