Faz dez anos. Eu tinha só 17. Daqui a pouco, antes que perceba, vou estar usando bengala e óculos fundo de garrafa. Pior: estarei contando a antiga piada do 'pavê ou pá cumê' pra família. E falando sobre Neymar, jogador já aposentado, para os netos. Relembrando a história de Rodrygo e Vinícius Júnior que - sei que parece que não - um dia vão se aposentar. Véio, nóis, tio e tamo junto serão os supimpas de amanhã. "E aí, tio? Qualé o rolê de hoje, mano?", iniciaremos dessa maneira as conversas com nosso netos. "Fica ligado, brou. Vamo fazê um corre, truta", convidaremos assim, cheios de gírias, os pequenos para o jantar em 2068. O tempo corre.

 

Mas voltando ao passado: era 2008. Luxemburgo era o melhor técnico do Brasil. Tinha acabado de assumir o clube e contava com investimento. Montou um belo time e foi pra final do estadual. Eu estava no Palestra Itália com meu tio Carlos quando o Palmeiras ganhou da Ponte Preta e conquistou seu último título paulista. E goleada: cinco a zero. Sinto falta principalmente da rede do Parque. Pode parecer estranho, mas ver a bola entrando no gol antigo era meio que mágico pra mim. Também tenho saudade de como o estádio era aberto, das piscinas, dos cantos da torcida. O escudo atrás de uma das traves. O gramado estreito. O jardim suspenso.

 

Reconheço que o Allianz Parque é maravilhoso e tem tudo que as novas arenas precisam ter. É espaçoso, confortável, acústico, coberto. É aconchegante, moderno e imenso. Mas no Allianz Parque a bola jamais vai entrar com aquele encantamento: o encantamento infantil e adolescente. Quase que puro. No gol do Parque Antárctica também vivi meu sonho de jogar bola. Me imaginei chutando ali. Algumas vezes eu olhava um dos gols e ficava recordando: foi lá que Zapata bateu pra fora. Passou perto daquela trave. Fez esse caminho. Foi rasteira. Saiu. O Marcos correu pra cá, comemorando. Foi naquele lugar, depois, que Alex Mineiro foi artilheiro. Em 2008.

 

Eu olhei pra todos os cantos quando o Valdívia limpou todo mundo e venceu o goleiro Aranha. Cinco a zero. Foi a mesma reação quando tive o encontro com o Allianz, anos depois, em 2014, já como jornalista: olhei para todos os cantos. O time ainda comandado pelo Dorival Júnior foi lá treinar e conhecer a nova casa. Os jogadores entraram ao som do hino do Palmeiras. E eu me emocionei. Mas procurei e não achei o Palestra. Visualizei toda arquibancada e não me vi moleque ou adolescente por lá. Parecia que era outro local: mais bonito, mais moderno, mais espaçoso. Mas não parecia o Palestra. O Palestra das falsas promessas contratadas do interior, da fila, do fim da Parmalat. Tinha alguma coisa de diferente. Em mim e no lugar.

 

Meu avô nunca disse a palavra supimpa, mas adorava o time de 2008. Vimos juntos quase toda campanha. Chamava Valdivia de Valvidia. Nunca foi saudosista: chegou a achar, por exemplo, Alceu um grande jogador. Ele faleceu em 2013 e, portanto, não conheceu o estádio depois da reforma. Pensei nele quando vi o Allianz pela primeira vez. E também procurei por ele. Só fui encontrar hoje, dentro de mim, relembrando cada um dos cinco gols. O sorriso do meu avô estacionou naquelas redes antigas. E já faz dez anos.