Palmeiras De Pai, Palestra Que é Nosso

Palmeiras De Pai, Palestra Que é Nosso

O ano de 1997 foi duro...

Meu pai, cansado de lutas, das coisas da vida, doente, duramente doente, batalhava contra todas as suas infecções renais, suas dores, suas mazelas de mortal que um homem da grandeza de meu velho não merecia ser. Meu pai merecia mais, muito mais…

Em uma daquelas noites de visita no Hospital Jardim em Santo André, enquanto eu me apertava numa poltrona ao lado de seu leito, o velho me chamou:

“Ei Barbudo…”

“Fala pai, que foi?!”

“Quanto foi o último jogo do nosso Palmeiras??”

“Ah se liga, pai! Dorme aí…”

“Deixa de ser tonto rapaz. Me diz; Ganhamos?”

“Pai, o senhor já tá aí tudo estragado, fudido... Melhor deixar o Palmeiras pra lá, vai por mim…”

Velho riu do jeito que podia e insistiu:

“Não se nega um pedido para um homem nessa minha condição. Diga quanto foi o jogo?”

“Tá bom; Foi 0×0 os dois últimos jogos. O time tá uma merda. Agora dorme!”

“Não!”

“Que?! Como assim, “não”? Dorme aí caralho, quer morrer??”

Nessa hora, meu pai fez toda a força do mundo, se levantou da cama, me pegou pelo braço e disse com a velha firmeza de sempre:

“Escuta aqui moleque: eu sou teu pai e te criei para ser feliz. Te preparei para suportar as porradas da vida sim, mas não pra se render assim feito um boi lambão pra tudo que é dureza que aparecer. Que mais você quer? Que eu meta uma faca no meu peito? Você não tá vendo meu estado? Se eu tô te perguntando pelo nosso Palestra é porque isso me da alegria e não importa o resultado de nada. Eu quero falar de futebol com meu filho, posso?”

“Pai…”

“Cala a boca! Promete a mim: domingo você vai lá no Palestra, vai torcer, vai gritar, vai tomar uma cerveja, vai abraçar um estranho na hora do gol e vai ser feliz…”

“Pai, deita nessa porra!!”

“Promete!!”

“Tá bom, prometo!”

Depois desse bate boca, o Velho dormiu.

Passados uns dias, o Palmeiras venceu o Paraná Clube por 3×1 e eu corri contar pra ele no Hospital. Quando cheguei e fui até o quarto, ele não estava mais lá. E antes da espinha congelar, o médico chegou acompanhado de minha irmã, falou do estado do Velho, nos desenganou e nosso mundo acabou. Dois dias depois o velho morreu. Tristeza.

Enterrando o velho, depois de tudo, pensei no que fazer e saí pelo mundo.

Imediatamente lembrei-me do que havia prometido a ele e então minhas pernas me levaram naturalmente pro Palestra Itália e aí, naquele dia, contra o Grêmio, o Palmeiras venceu o por 5×0 e o que era no começo daquele jogo uma dor sofrida virou uma lágrima de emoção, de alegria sim.

Várias alegrias...

20 ANOS SEM O PAI...

Não fui o melhor filho que você poderia ter.

Também não sei dizer se você foi o Pai que eu queria que fosse, na verdade, acho que nada disso importa muito. A gente quebrou esse padrão ae das relações Pai/Filho. Preferimos ser amigos. E como tal, a gente teve as coisas que toda a amizade tem.

Brigamos, nos abraçamos, tomamos porres, falamos de musica, de cinema, de literatura, de vida. Você me fez ir no show do Caetano com você em 1990, eu dizia que não gostava e me acabei dançando feito louco ao som de “meia lua inteira”. Você disse pra eu ficar tranqüilo que não iria contar para ninguém...

Te agradeço, Pai.

Entre outras tantas coisas, e tantas outras paradas, foi o você que me fez Palmeirense. E hoje, naquele dia que todo mundo faz um almoção pra comemorar o dia dos Pais, no caminho do Estádio vou pensando em tudo que foi nosso em vida, em tudo que foi Palmeiras.

Prometo não ficar triste, Velho...