Palmeirense de sangue

Palmeirense de sangue

O Allianz Parque conheceu Igor no dia em que faria 19 anos, há dois anos, em 2016.
“Palmeiras no sangue”.
Era assim que Igor Ferreira falava do Palmeiras que foi a vida por 18 anos. "Palmeiras no sangue".
Sangue que o levou sexta-feira, dois dias antes do jogo fundamental para a conquista do enea. Depois de quase dois anos de luta contra a leucemia. Quase o tempo da inauguração do Allianz Parque que ele tanto queria conhecer. Estádio que conheceu Igor às 16h51 de domingo, 6 de novembro de 2016. Quando o locutor da casa Marcos Costi leu o texto de um minuto de barulho em homenagem a ele, autorizado por Paulo Nobre. Com a foto de Igor no telão sob a chuva que começara 16h46. 17 minutos depois dos refletores acesos para iluminar o domingo de chumbo. Justo o 6 de novembro em que Igor celebraria 19 anos.
Na foto ele veste a camisa que a namorada Isabella comprou na Academia Store de Guarulhos, perto de onde ele morava, no Parque Santos Dumont. No dia 31 ela comprou o presente de aniversário de Igor. Uma blusa de frio parecida com a usada por Cuca. O treinador que se emocionou com a história que Lucas Pirez (do blog Torcida Que Canta e Vibra) me contou. Passei a Cuca, que usou a superação de Igor para os atletas, e dedicou a vitória ao menino que Isabella amou. Igor que ganharia de Lucas uma camisa que ele comprou com o desconto de funcionário da loja. Presente que seria dado no dia em que Igor morreu. Antevéspera de Palmeiras 1 X 0 Internacional. Vitória apertada e justa como se esperava. Placar que deixava o Palmeiras a seis pontos do vice-líder Santos. Com apenas 12 pontos em disputa.
A camisa que Isabella deu. A foto do telão do Allianz. A melhor imagem de um clássico que não foi bom. Mas reclamar para quê, né, Igor?
Em janeiro de 2015, o Palmeiras começava a se reestruturar. Dudu já chegara. Era outro elenco. Melhor. Mas ainda desajustado. Igor se sentia cansado demais para quem fazia tanto esporte. Achou estranho quando as mãos ficaram pálidas, os lábios, brancos. A febre começou e não baixou. Depois de quatro dias foi ao hospital. Dengue? Leptospirose? Hepatite? Não se sabia. Transferiram de hospital. Perdendo sangue. Quarenta dias internado até o diagnóstico.
Leucemia.
Ele soube depois da vitória de 2 a 0 contra a Penapolense pelo Paulista. Ele só soube suportar pela força da família, da namorada, dos amigos, da crença em Deus, da fé palmeirense.
O médico não entendia como ele estava em pé. Igor escreveu na página no FACEBOOK que mantinha: "o doutor me disse que eu só tinha 5% de sangue e 1% de vida. Ele me disse que nunca vira nada parecido em 20 anos de profissão". Ele era médico desde 1994. Ano do último Brasileiro do Palmeiras. "A pressão é enorme sobre o Palmeiras depois da virada espetacular do Santos contra a Ponte no domingo pela manhã, que deixa o time a apenas três pontos do líder que entra em campo pressionado...".
Pressionado?
O Palmeiras é pressão desde 1914. Ganhando Copa do Brasil contra o Santos em 2015, não ganhando o Brasil havia 22 anos há 2 anos. Pressão alta não é doença no futebol. É remédio de gigante. De Santos. De Palmeiras. Não por acaso os maiores vencedores de títulos brasileiros.
"Deus te ama e nunca irá te abandonar" escreveu Igor no FACEBOOK, logo no início do longo tratamento. Jogo duro. De paciência. E de perseverança. Nem sempre dá para fazer bonito. Mas dá pra vencer lindo. O gramado do Allianz Parque continuava feio de tanto show. Mas estava melhor. O jogo do time de Cuca seguiu não fluindo. Mas com sangue. O Colorado atacava todo limitado pela ameaça do rebaixamento que se confirmaria como o título palmeirense.

Voltando no tempo real minuto a minuto: o Vitória logo marca na Bahia. Inter volta à zona de rebaixamento. Também por isso ataca mais o Palmeiras. Mas com o meia Anderson apenas mais esforçado. Alex muito nervoso. William do Colorado corre. Aylon não chega. O Palmeiras, menos ainda.
As quimioterapias não melhoravam Igor. Foram cinco desde 2015. E ele sofria como sofria ouvindo o Palmeiras demorar a engrenar no ano passado. Até ganhar nos pênaltis em Itaquera na semifinal do Paulista de 2015. Até perder o título nos pênaltis na Vila Belmiro.
No jogo em que Dudu perdeu a cabeça. O Dudu que levantou o primeiro escanteio contra o Inter na área. Tchê Tchê de cabeça para o ex-colorado Cleiton Xavier abrir o placar. Nova falha da bateria antiaérea colorada que era a melhor do campeonato até a oitava rodada. Mais um gol do melhor ataque do BR-16. Na bola parada ou não.
"Para mim, antes do câncer, meus problemas eram maiores que os dos outros. Quando fiquei doente, ganhar um abraço do nada era a coisa mais importante do mundo". O Palmeiras começou a superar os problemas e não sabia que algumas soluções já estavam lá dentro do clube. Ou da alma. Na Copa do Brasil estava desenganado. Até virar o jogo. E ganhar o abraço de todos. Como Igor foi se superando. Comemorou internado a Copa do Brasil. E um ano depois do diagnóstico conseguiu ser transferido para o Sírio-Libanês. O único hospital capaz de tratá-lo. No dia da goleada de 4 a 1 em Piracicaba, contra o XV, pelo SP-16.
Na segunda-feira, depois da derrota em casa para a Ferroviária, Igor começou a campanha pela doação de medula óssea. O único jeito de curá-lo. No momento em que o Palmeiras de Marcelo Oliveira não se achava.
Na véspera da derrota em casa para o Red Bull Brasil, Igor postou: "você aí achando que a vida tá difícil? Lembre-se sempre que tem alguém em situação pior que a sua. Então sempre agradeça a Deus por tudo que acontece em sua vida."
Logo depois o Palmeiras já com Cuca perdeu de 4 a 1 para o lanterna e calouro Água Santa. Um futebolixo de doer em quatro derrotas seguidas.
Time que não conseguia se defender como agora tem Mina e Vitor Hugo. E até Thiago Santos na cabeça da área correndo por muitos e ganhando aplausos. A franquia Tchê Tchê em todo campo. Jean muito bem em todas. Não concedendo espaços ao Inter que só teve mesmo uma falta cobrada por Alex de perigo no fraco primeiro tempo de jogo mais brigado que jogado. Como tem sido esse Palmeiras redivivo. Como são muitas das finais em todos os tempos.
29 de maio de 2016. São Paulo 1 X 0 Palmeiras. E teria sido mais não fosse Prass. O Verdão seguia sem vencer o rival no Morumbi desde os chapéus de Alex, em 2002. Igor tinha só cinco anos. Mas ele foi dormir enfim feliz naquele domingo. A medula estava zerada. Sem células cancerígenas. Faltava apenas o transplante de medula óssea. Mas não parecia faltar tanta coisa ao Palmeiras. O time começara bem o BR-16. Jogando bem e bonito. Mas ainda oscilava.
"Espera no Senhor, confia no Senhor, e tudo Ele fará" escreveu Igor em 28 de junho. Antes dos 4 a 0 no Figueirense. "Eu sei que meu Deus faz milagres. Mas não sei quando esse momento vai chegar". O Palmeiras era líder. Jogava bem muitas partidas. Mas ainda oscilava. Como o humor de Igor. Natural. Mas sempre tudo se cobra além da conta. Que já era cara.
"Quando rezo peço a Deus para me curar e também curar as pessoas que não sabem o que falam e o que fazem. Tanta gente doente e ainda tem tanta gente fazendo mal para as outras pessoas. Gente que reclama do cabelo que tem mas ainda tem cabelo! Gente que reclama do trabalho que tem mas ainda tem como trabalhar. Hoje eu vejo minha casa como uma mansão. E tudo que eu quero é não sentir dor. Só isso".
O palmeirense reclamando com o Palmeiras. A imprensa reclamando que o "Palmeiras joga mal, mas vence e abre seis pontos" como manchetou jornal de segunda. Sim, não jogou bem de novo contra o Inter. Gabriel Jesus e Dudu jogando pouco. Teve apenas quatro lances de gol contra o ameaçado rival. Parou em dois milagres de Danilo Fernandes. O Inter que acabou de novo na zona de rebaixamento teve três oportunidades. Nenhuma defesa difícil de Jailson. É pouco. É pobre para Palmeiras X Inter. Mas muitas vezes é o possível no momento de decisão.
"A medula pegou". Foi a hashtag de Igor em 9 de agosto, depois do 2 a 1 no Vitória, Palmeiras campeão do turno. "É o meu novo aniversário", celebrou. "Eu venci o câncer" foi o cartaz que mostrou quando o Verdão derrotou o Atlético em Curitiba, a única derrota do Furacão na Arena. No dia seguinte ele teve alta do hospital. Um ano e meio depois da internação. Muita coisa virou na vida dele e na do Palmeiras. Ambos saíram do pior.
Em 2 de setembro, Zé Roberto gravou um vídeo de alegria e esperança para ele. Com a inabalável fé que move esse garoto-vovô que tem idade para ser pai do Igor. Prass também mandou força. Na véspera da virada de 2 a 1 contra o São Paulo, Igor foi jogar sinuca com os amigos. Ainda com máscara. Mas já voltando a viver normalmente.
Esperando o dia da volta ao novo estádio.

Mas ele e o time ratearam. Ainda que o Palmeiras só tenha perdido um jogo no período. Justo no dia em que Igor postou que ficara sem escrever no Facebook por estar cansado. Tinha voltado ao hospital. Pediu para rezarem por ele. Reforçou na quarta-feira. Ao meio-dia de sexta a família soube da partida. Dois dias antes de completar 19 anos.
O Palmeiras estava há dois anos muito próximo de ser o que ninguém foi mais do que ele. Igor estava mais próximo ainda de inspirar o amor de Isabella, da família e dos amigos. O amor de quem enfim esteve no Allianz Parque.
Mais do que falar do jogo que não foi bom, melhor mesmo falar do que é bom nesta vida.
Obrigado, Igor, por ter sido a mais bela imagem de um jogo que não foi bom. Mas que foi campeão como você.
Ainda melhor: é o que você é, mais que campeão. É Palmeiras.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.