Pedido de decacasamento

Pedido de decacasamento

Edson estreou campeão brasileiro no Morumbi. 2 x 0 no Vitória. Ele tinha 7 anos quando conheceu um estádio e reconheceu o amor que só cresceria até novo jogo final contra o Vitória. Em 2002. Mas com derrota. Rebaixamento.
“Amor só aumentou quando caímos. E foi uma forma também de escapar do meu relacionamento que ia mal e não aguentou a Série B”.

Algumas vezes Edson foi ao estádio com ela na Segundona. Eles namoravam desde 2001. Família inteira de palmeirenses. Neto de italianos do Palestra. Filho de cearense palmeirense. Amor de coração verde também.

Gabriela.

“Conheci o Edson na escola. Ficamos um ano e meio namorando. Destino nos colocou em caminhos diferentes. Nos reencontramos em alguns momentos desde o final, em 2003. Momentos distintos com intervalos até 2008, ano do Paulistão. Tentávamos retomar. Mas não rolava”.

Edson casou. Gabriela, logo depois. Dez anos sem se falar.

“A gente se via. Moramos perto, frequentamos a mesma igreja. Mas sem falar. Em 2017, ele olhou pra mim na igreja. Eu olhei. Pensei falar. Até pra dizer que tudo bem. Quando ele veio falar comigo...”

Edson se separou. Gabriela, também. Ele saiu de casa. Ela, também.

Eles se reencontram no jogo contra o Cruzeiro no BR-17. Aquele que poderia fazer o Palmeiras depender só dele para ser decacampeão. Empatamos um jogo tenso que precisávamos vencer no Allianz.

Mas foi mais tenso para Edson e Gabriela. “Sou tão palmeirense doida quanto ele. Aquela noite foi uma mistura de emoções. Não sabíamos como lidar um com o outro”.

E com o Palmeiras no meio.

E cada vez mais entre eles. Quase todos os jogos foram juntos. “Quando ela não podia por causa de viagens a trabalho, eu colocava no Allianz no FaceTime pra ela ver onde estivesse”.

Palmeiras x América, o jogo que poderia ser do deca, em casa. “Ele me disse que estava ansioso. Eu não estava. Achava que não precisava ser campeão aquele dia. No final do jogo, 4 a 0 pra nós, todo mundo querendo saber se o Grêmio tinha empatado. Viro pro lado, duas meninas segurando o celular. O Júnior chega no meu ouvido enquanto posávamos pra o que eu achava que seria uma foto e ele me diz no ouvido: ‘só tem uma coisa que amo mais que o Palmeiras nessa vida...’”

Edson se ajoelha no Allianz Parque.

“Tinha esperanças em pedir em casamento a Gabriela na final da Libertadores. Como não deu, e eu não queria deixar pra depois, queria quarta contra o América. Campeão ou não, tanto faz. Estava tão ansioso que não lembro de mais nada antes mesmo do golaço do Dudu. Só pensava no final do jogo. Minha vida e nosso relacionamento parece o Palmeiras. Esse sobe e desce, céu e inferno. Falei que era naquela hora. E foi. Ajoelhei e a pedi em casamento no meio de 39 mil testemunhas palmeirenses... Foi o momento mais feliz da minha vida”.

Gabriela: “é como história do Palmeiras neste século. Período de alegria absoluta, tempos obscuros. Mas o amor, como o Palmeiras, vence tudo. Supera os obstáculos dos outros. E os nossos mesmos".

Vai ter casamento em breve. E já teve deca no jogo seguinte.

E os dois pombinhos viverão felizes para sempre. E todos os porquinhos, tanto quanto eles.

Como Edmundo que foi e voltou. Evair. César Sampaio. Zinho. César Maluco. Luís Pereira. Velloso. Sérgio. Amaral. Alex. Brandão. Valdivia. Luxemburgo. Felipão.

Amores que não vão e voltam. Ficam. Pra sempre. Pro Palmeiras.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.