Ponteiro dos segundos

Ponteiro dos segundos

Mário Filho, o cronista rei desse país, o homem cujas palavras se confundiam e emaranhavam até que faziam, reunidas, um sentido único. Em 1994, ele chamava Telê Santana, lendário treinador, com esse apelido. O que nunca para. Aquele que não jogava apenas quando tinha a bola nos pés. Intenso.

Cobrávamos nós, filhos e fãs do camisa 10 das palavras, que o Palmeiras de 2019 deixasse de ser o ponteiro das horas. Parado, inerte e acomodado. Queríamos mais de quem tinha tanto para emprestar. Fazer que um pós jogo fosse digno de virar crônica, ainda que humilde, mas com carinho pelos 90 minutos e uns chorinhos que vimos mais cedo.

Mario costumava dizer que os times se dividiam entre os boleiros e os não boleiros. Não nesses termos que modernizamos aqui, mas na intenção de apontar aqueles que sabiam quando e porquê jogar e quando e porquê fingir jogar. Escolhiam a intensidade de acordo com a necessidade. Sabiam quando ser segundo ao invés de hora.

Dia de Libertadores e da imaculada, como bem diz um amigo que escreve como Coutinho jogava, camisa em homanagem a São Marcos. Dia de um Palmeiras claudicante oferecer mais. E foram muitos minutos que trazem ótimas notícias. O rival não era o Flamengo de Zico que Mário adorava escrever sobre, mas a vitória até no par ou impar traz a alegria de vencer. Foi assim.

Ricardo Goulart, Dudu, Gustavo e Deyverson faziam o quarteto que trouxe vida ao ataque ineficaz de outrora. Os criativos mexiam-se como baile, o 9 fazia maratona e inferno na vida dos defensores. Chato, muito chato, mas de cabeça fresca, foi a força para que os ligeiros jogassem em paz. E foi em um pivô que resultou em escanteio que o gol de Felipe Melo veio após cabeçada do azes da noite, Ricardo Goulart.

A linha aérea do Melgar estava aberta para negócio. A bola circulava como visitação e quase achou a cabeça dos palmeirenses em outros momentos. O ponteiro que começou sendo segundo foi ficando hora até que o primeiro tempo terminou em um nível mais calmo, mas bastante seguro.

Com Dudu discreto na segunda etapa, Goulart tomou o jogo para si e com Gustavo Scarpa rodando no mesmo nível, e que nível, chegou ao segundo gol. Voando, lá do milésimo andar, cabeceou pro segundo. Não demorou para brincar de futebol e encontrar Deyverson que driblou, pensou varias vezes no passado cheio de erros, e espancou a bola e o mau momento. Era o terceiro. O relógio parecia contar até milésimo.

Já era tempo de acalmar o andor da carrossel, e aqui não tem uma referência discreta ao time holandês, o resultado era completo e a massa estava em paz. O Palmeiras entregou. O Palmeiras aconteceu em bom nível. Não trouxe sono. Não fez a hora passar lentamente, quase se arrastando.

O prognóstico é ótimo. Quase literário. Resta saber se não vivemos apenas uma noite de romance veraneio.

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.