Pra você, Victor

Pra você, Victor

Cara, eu preciso escrever pra você.

Faz mais ou menos uns 45 minutos que eu saí do estádio. Fiquei no Gol Norte e não consegui ver direito o seu gol que valeram os noventa e tantos que a gente lutou junto por nosso campeonato que estava em jogo.

Te digo que quando li o número 26 de costas pra mim, de frente pro gol, lembrei daquela noite que você fez um golaço diante da Fiorentina. Olhei pra minha camisa azul, que tirei o guarda roupas só pra hoje.

Pensei em tudo.

Você bateu na bola com toda a raiva de quem queria compensar os anos distantes do Palmeiras e sonhando em voltar. Nos jogos que vieram depois daquela taça “Julinho Botelho”. Pouco valia, mas foi seu gol. Sua raiva. Sua mão no peito em oração com o carinho de quem reza, invariavelmente, por uma noite de Palmeiras, por um sucesso nosso.

Você comemorou aquela taça, virou piada.
Você chorou nos braços de Fernando Prass com o gol do Santos, contra o Vitória que era a nossa vitória daquele ano trágico de ressurgimento. Você foi procurar abrigo em outros rios. Botou fogo no passado ainda inconstante e se habilitou pra voltar.

Victor do céu, voltar pro Palmeiras justamente no ano em que o elenco se tornou tão grande, com um lateral de tanta representatividade. Poderia dar errado, por falta de tentar. A gente sabia que você não tentaria, mas faria da chance, a vida. Da vida, o Palmeiras. E foi sendo. A cada jogo, a mesma oração, uma dedicação infinita, eterna, que vem de 1914 e vai parar sabe Deus em qual taça.

Hoje, sob a chuva de uma noite de primavera, parece que você tirou forças da água que inundava o olho de quem via o jogo, valendo tanto, indo pelo ralo.

Lembra que vi o número 26 de costas pra mim?

Depois daquilo. Aqui, 50 minutos depois.

Com as imagens da sua comemoração descontrolada, emocionada, alucinada, entupida de sentimento. Sob a água. Aquele mesmo Allianz Parque que foi regado com seu choro na nossa manutenção da Série A, você ainda garoto, agora floresce no mesmo terreno, na mesma grama, mas com a iminente colheita de um Campeonato do país.

Não só a Botelho.

A minha camisa azul, enfim, tem um novo sentido.

Obrigado por ser tão nós, tão nosso.

Eu sou seu fã.

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.