Preço e apreço

Preço e apreço

Em 2014, o Palmeiras era o clube que ninguém queria vir. Em 2019 é o que ninguém quer sair. BULLARA, Rafael.

Há 7 anos a diretoria passava a sacolinha para comprar Wesley numa vaquinha. O W-e-s-l-e-y. Crowdfunding. Foi créu. Sem fundo. O único palmeirense com 100% de aproveitamento no Allianz Parque: dois jogos, duas substituições, a arena o xingando nas duas vezes antes de ele ir para o São Paulo.

Ele talvez não merecesse por tanto que sofreu com lesões. Mas o palmeirense também não merecia alguém tão caro e, no final, sem os valores mínimos para um atleta sem comprometimento e compromisso.

Um pouco antes, ainda em 2012, o Palmeiras juntara até o que não tinha para comprar Oswaldo, do Ceará. A proposta era maior do que a do São Paulo. Mas ele preferiu o Morumbi. Era melhor jogar no rival. Como também fez o volante Thiago Mendes no começo de 2015. Bem no início da retomada palmeirense com Paulo Nobre, Allianz Parque, Avanti!, Alexandre Mattos, Cícero Souza, Crefisa, FAM, Maurício Galiotte, licenciamentos, novo acordo de TV com Esporte Interativo, conquistas em campo, e a torcida que canta e vibra.

A que paga o que tem e o que ninguém paga tanto para ver o Palmeiras em casa. Ou mesmo pela TV como sócio-torcedor. Mais sócio pela paixão do que torcedor pela presença física que cada vez mais não tem cabimento de tanta gente que quer ir ao estádio. De tanto que o estádio cobra pelo tíquete médio acima da média.

Nunca existiu o “compra jogador que a torcida paga”. Nem na vaquinha do Wesley. Mas o torcedor não pode pagar tanto. Ao menos não todos. Tem como no Allianz Parque, por boa vontade e política do gestor do estádio e do clube, reservar até 5 mil lugares menos caros. Nem digo mais baratos que não serão. E não podem ser para que o nível de investimento e manutenção do clube consiga se manter.

Não sei qual o preço ideal para o ingresso menos caro. Mas sei que o que se tem, e com o aumento do Avanti! agora, não é mesmo o ideal para ninguém. Nem para o cofre verde recheado das verdinhas.

Não é populismo barato que sai caro não meter a faca. É jogar junto com quem não tem preço, só apreço. O torcedor que vai pra ver Wesley. E mais ainda para ver Dudu que ficou e Bruno Henrique que vai ficar. Também pelo que o Palmeiras investe para os manter. Pelo que cobra pela manutenção do elenco decacampeão.

Nenhum clube no Brasil conseguiria manter o ídolo e o capitão como conseguiu o Palmeiras. Não por acaso os que iriam jogar nos rivais agora querem vir ao clube que paga e muito bem em dia. O Marcelo Moreno que não quis vir em 2013 agora daria o pai pra vir. Porque agora tem time, ou melhor, times para competir em alto nível. Dinheiro e estrutura para dar e não vender para a China. Planejamento, ideias e práticas para ganhar tudo que vier a disputar.

Só não pode perder o que não se disputa: o torcedor. O que tem valor, não preço. Ainda mais esse.

O Palmeiras que ninguém queria vir em 2012 e só queria sair até 2014 voltou a ser Palmeiras. O clube não pode exigir um preço alto demais para todos. Quem puder, paga. Mas quem não tem como, tem como haver um jeito de pagar menos.

E tem como. Não é fazer ingresso a preço de banana. Mas um setor mais popular. Mais palmeirense. Só isso.

Tem como. Se não acha que é elitista, só peço um preço que seja realista.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.