Guilherme Cimatti e seu pai Irineu (Foto: Arquivo pessoal)

— Você conhece o Guilherme que fala sobre futebol no rádio?

Meu sonho era que você pudesse ter escutado essa pergunta. Que te indagassem por causa do mesmo sobrenome. E que, diante disso, pudesse dizer que o Guilherme é seu filho. Queria que você ficasse sabendo que seu filho virou jornalista, ama o que faz e é feliz.

Hoje faz 10 anos que você morreu e muita coisa tem acontecido desde aquele dia 25 de setembro de 2007. Trabalho na rádio que eu escutava quando criança: a Bandeirantes. Com gente que sempre foi referência e que você ouvia. Você, pai, que vibrou com o gol do Alex em 2002, o festival de chapéus no Morumbi, quando voltava do hospital comigo depois de ter visitado o meu avô (seu e meu pai). Apertava meu braço. Já tinha desenhado o lance todo na voz do José Silvério. Tinha pressa para chegar em casa e ver a pintura do camisa 10.

Em muitas vezes dentro dessa década eu tive pressa. Tive pressa principalmente nos primeiros dias. Queria que a dor passasse logo, em conjunto com o tempo. Queria ver meus avós chorando menos. Tinha pressa para amadurecer o máximo possível e passar tranquilidade. Até hoje sinto que não consegui o suficiente. E sei que jamais poderia ter essa capacidade de tentar ser você para eles.

Mas fui o filho caçula deles. Dos seus pais, dos pais da minha mãe e da minha mãe forte. Todos foram você para mim. Herdaram o seu papel. Eu tenho muito orgulho de ser por inteiro de vocês. De ter os mesmos riscos da sua testa, sua sobrancelha, seus olhos diminuídos quando a boca sorri. Seu jeito e até seu último tênis, branco, guardado na gaveta do meu quarto. Nunca usei. As manchas do tempo ficaram.

Mas têm ganhado cor. Elas se tornaram boas lembranças.

Queria ter te visto quando seu pai foi aí te ver em 2013.

Queria abraçar vocês.

Era para você ter visto que pouco tempo depois eu perdi o seu celular V3, mas guardo sua carteira. Era para ter conhecido o Facebook. Saber que infelizmente houve impeachment de uma presidente da República (acho que você iria questionar o meu ‘infelizmente’ na frase, mas a gente não pode concordar com tudo, não é mesmo?). Não sei como te contar que o Palmeiras foi rebaixado mais uma vez, em 2012. Aconteceu…

Era para você ter ficado irritado com o Maurício Ramos, Preá, Egídio, Claudio e Daniel Carvalho. Era para ter cornetado o Ricardo Bueno, o Max Pardalzinho, Adriano Michael Jackson e o Betinho.

Por outro lado – esse melhor, claro – que pena que você não viu o pênalti do Prass em 2015. O garoto Gabriel Jesus em 2016. A calça vinho do Cuca enquanto dava sorte.

Queria que você tivesse acreditado comigo no Borja, Felipe Melo e Guerra.

Mas antes de tudo: queria que você tivesse visto o Allianz Parque.

Queria que você tivesse visto a Olimpíada no Brasil. Eu queria que você tivesse visto o jamaicano correndo no Engenhão. Aliás: eu queria que você tivesse visto o Engenhão.

Também queria que você tivesse visto a Copa do Mundo aqui. Até o ‘sete a um’ eu queria que você tivesse visto.

Queria que você tivesse me visto na minha rotina de adulto. Ainda que eu alegasse falta de tempo como justificativa para não te ver todos os dias.

Faz exatamente 10 anos que eu não te vejo.

Mas faz quase 27 que eu me vejo em você.

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