Rafael Marques se declara ao Palmeiras e relembra melhor momento da carreira

Rafael Marques se declara ao Palmeiras e relembra melhor momento da carreira

"Apadrinhado pelo treinador", "jogador de um time só", "quem é esse aí?". A chegada do atacante pedido por Osvaldo de Oliveira, em 2015, foi cercado por esse tipo de desconhecimento, preconceito e precipitação. Vindo do multimilionário futebol Chinês, Rafael Marques tinha consigo uma única defesa: ter amor pelas cores que passaria a vestir. Fez disso sua bandeira e buscou nas quatro linhas, no sorriso fácil e na efetividade inquestionável, a colheita de respostas às dúvidas que tentavam intimidá-lo.

Nunca será simples de descrever o gigantismo daqueles que participaram de uma jornada que tinha a missão de resgatar um clube que quase teve fim. Quem vê com os olhos dos milhões atuais, talvez, veja neblina ao buscar essa referência. O peso de ser dez vezes campeão do Brasil é enorme. Buscar o nono, duas décadas depois, duas quedas depois, não é busca apenas de futebol. Era o reecontro com o orgulho, com a fé e com a esperança de ser Palmeiras.

Rafa foi expoente.

Nos clássicos, sobressaiu-se. Na Vila Belmiro, fez dois gols em dois minutos. Em Itaquera, nunca passou em branco. Bateu o penâlti decisivo diante do Santos para a defesa de Vanderlei, mas defendeu esse clube como um santo sob as traves. Fez do São Paulo, vítima fatal. Em jogo brilhante, fez dois, colocou cerejas sobre a cobertura histórica daquele bolo. Ou jogo.

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Gritava como se não houvesse amanhã, e nunca houve, o título daquela Copa que lavou a alma do palmeirense que não nasceu com esse sentimento, mas adquiriu ao longo da vida de boleiro. Ouviu muito, desabafou em volume máximo. Em 16, já na condição de um querido membro do novo Palmeiras, conquistou o país. Associou, de vez, o clube como sobrenome. O Rafa, do Palmeiras. Viria a ser Cruzeiro nessas voltas que o dinheiro e a bola dão.

Hoje, segue Azul, mas segue a vida em São Caetano, no clube paulista que será o adversário do Palmeiras no próximo domingo. Ele já projeta o reencontro que não será inédito.

"Eu ja tinha jogado com o Cruzeiro, depois com o Sport, não tinha marcado no primeiro, muita gente perguntou se eu iria comemorar, eu disse que não. Óbvio que eu tenho um respeito muito grande pelo clube e pela torcida, mas eu tenho que respeitar o clube que eu defendo no momento. A oportunidade que eu estou tendo. Tenho um carinho e uma história muito grande com a Sociedade Esportiva Palmeiras e sua torcida, e assim ela também tem comigo. Se sair gol eu vou ficar feliz, mas será uma comemoração mais discreta, contida, com certeza."

Nada a se estranhar vindo de quem têm no coração a mesma intensidade ao lembrar de como sua chegada foi complexa e inconstante.

"O que mais me orgulha é ter feito parte dessa reconstrução do clube. Eu passei pelo Palmeiras em 2004, e quando voltei em 2015 tudo foi diferente. Eu virei palmeirense e quando não estou jogando contra, torço sim. Fiquei feliz pelo título (brasileiro) do ano passado."

O grito incontido que esse repórter viu da arquibancada, como torcedor, em 2015, Rafa conta como viveu aquele dia histórico.

"A final da Copa do Brasil é o maior jogo que eu vivi. A rivalidade que se criou no ano todo. Para mim o gosto de ganhar a Copa foi maior do que ganhar o Brasileiro no ano seguinte. Aquele dia foi inexplicável. Eu vejo torcedores falando. Foi algo que mexeu com todo mundo. Torcedores, atletas, funcionários. Eram 40 mil dentro do estádio e 40 mil fora. Uma atmosfera sem igual. Até hoje todo torcedor que me para fala desse jogo. Não tem como…"

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E Ricardo Oliveira teve papel importante nessa memória que ele celebra e não se arrepende de ter crticado o camisa 9 rival após o título. "Sim, depois conversamos, mas aquilo no final de jogo foi um desabafo meu. Ele sabe que exagerou nas provocações. Virou algo pessoal com os nossos atletas. Com o Dudu, Prass… Mas já foi, faz parte. Deixou um gostinho diferente na final."

Mesmo assim, Rafa considera outro jogo, outro clássico, o mais importante. Aquele que o consagrou como "Rei de Itaquera".

"Dérbi é uma coisa diferente. Não tem explicação. É uma atmosfera diferente. É o maior clássico do Brasil. Eu já joguei alguns grandes clássicos, mas nada se compara com Palmeiras e Corinthians, não tem o mesmo gosto. Aquele jogo (semifinal do Paulistão 2015) foi um dos mais especiais na minha passagem. Fazer um gol em um jogo desse tamanho é muito bom. (Sobre o apelido) Eu nunca provoquei. Sempre fui um cara de respeitar qualquer adversário e torcida. Sempre fugi de polêmicas, nao é o meu perfil. Mas é diferente fazer gol neles, lá. A gente sabe como a torcida é apaixonada. Fico muito feliz de ser reconhecido como homem clássico. Isso nao fui eu que inventei, foram meus gols e atuações nesses jogos grandes que fizeram a torcida me apelidar. É muito gratificante. Eu sempre fiz gol em clássico. Começou no Japão, depois no Rio e aqui no Palmeiras onde eu marquei gols nos 3."

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Japão que tem uma importância muito grande na vida de quem ficou conhecido com o cara mais "gente boa" do elenco eneacampeão.

"Tudo começou no oriente. Lá, eu aprendi a ser profissional. A ser educado. Passei por uma catástrofe. Peguei o Tsunami em 2011 e vi de perto como as pessoas se ajudam. Eu procuro ajudar sempre que posso. Mas sou um cara muito desconfiado. A gente vive num mundo muito difícil. Mas a vida me ensinou a ser um cara feliz. Uma vez o Tchê Tchê perguntou para mim em um treino: “Pô, Rafa, você nao tá jogando e tá sempre com esse sorriso no rosto. Nunca briga com ninguém, tá sempre brincando. Como pode, voce tá forçando, né?”. Ok, vamos lá. Você està com problema, certo? O que vai mudar você trazer esse problema aqui para dentro? Nada! Problemas todo mundo tem, mas quando estou trabalhando procuro esquecer tudo. Acho que isso faz eu ser um cara querido por onde passo."

E querido em um elenco que transparecia uma união tremenda e um bastidor que ele contou demonstra que as impressões são certeiras. Amigo do goleiro Jaílson, ele conta que o jogo de domingo já está rolando entre eles, jogadores.

"A gente se fala muito. Assim que eu acertei com o São Caetano, eu vi que ia ter o encontro com o Palmeiras logo na terceira rodada. A gente tem um grupo de whatsapp daquele time de 2015/2016. O baixinho (Dudu) é muito meu amigo. Falo com ele direto. Mandei no grupo “Aí, baixinho, terceira rodada já tem. Vou socar a porrada em você.”. Fora de campo a gente brinca. Mas dentro do jogo é foco total na partida. A gente não pode extravasar e abusar pois tem que ter respeito pelas duas equipes.

E esse clima não começou por acaso. Rafa lembra das pessoas que fizeram a construção desse novo Palmeiras que frutificou amizades tão duradouras. Para ele, a diretoria foi decisiva naquela mudança de rumos.

"O Paulo foi fundamental, sem dúvidas. A gente se fala ainda. O Paulo Nobre além de ser torcedor fanático, ele sabia separar o lado torcedor do profissional. Todo mundo que chegou em 2015 ajudou o clube a ser o que é hoje. O Alexandre, o próprio Oswaldo. Chegaram quase 15 jogadores e ele foi importantissimo para unir e transformar o ambiente num lugar gostoso de se trabalhar. A gente ajudou a colocar o Palmeiras no lugar que ele merece, que é no topo."

Por ter vivido o auge com a camisa do verde, perguntamos a ele sobre encerrar a carreira no clube, se seria um sonho ou um desejo. A resposta não é nada surpreendente a quem é tão querido pelo palmeirense.

"Sim, sim. Tenho um carinho muito grande. Eu não era palmeirense quando criança, mas hoje sou. Falo com toda tranquilidade do mundo e isso nao é para fazer média ou querer cavar uma vaga de volta no clube. Eu torço mesmo. É um clube muito especial para mim, onde eu vivi o auge e conquistei coisas inesquecìveis. Estou muito feliz no São Caetano. Quero ajudar o clube que tambèm está buscando uma reestruturação. Mas meu carinho pelo Palmeiras sempre será gigante."

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No entanto, os planos de pendurar a chuteira não está tão próximo assim...

"Eu, físicamente, sempre me cuidei, tenho um preparo muito bom. Quando chega na idade que eu tenho (35 anos) o que manda é a cabeça. A rotina de jogador é desgastante. Treino, concentração, muito tempo sem familia. É um desgaste excessivo acompanhar o nosso calendário. Tem muita gente que não tem a noção do que a gente vive. Mas acredito que eu ainda jogue mais uns 4,5 anos…

A última resposta do papo foi sobre Borja. O camisa 9 que vive entre amores e críticas da torcida. Ele que enfrentará o colombiano, domingo, tece elogios ao concorrente:

"Eu peguei o começo do Borja. Acho um pouco excessiva a cobrança da torcida em cima dele. Ele é um baita atacante, sabe fazer gol, tem muita explosão. O começo foi duro para ele, toda adaptação. Ele tem feito gols, o Deyverson também era muito criticado e agora está em paz. Eu sofri também. Faz parte do futebol. A torcida do Palmeiras estava com um pè atrás logo que eu voltei."

O Nosso Palestra e o palmeirense estão ansiosos para reencontrar um personagem tão especial e que ainda sabe como colocar o coração no meio do futebol. Que domingo seja um dia de Palmeiras com vitória, mas com o olhar grato e saudoso ao Rafael, o Rafa, do Palmeiras.

Rafael Marques fez 91 jogos pelo Palmeiras entre 2015 e 2017, marcando 21 gols. Até hoje ele é o terceiro maior artilheiro do Allianz Parque, com 12 tentos. Ficando atrás somente de Borja e Dudu.

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Fotos: César Greco/ Ag. Palmeiras/ Divulgação

*Contribuiu: João Gabriel Falcade

  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.