Era uma noite chuvosa em 18 de dezembro de 1974.

Na primeira partida da decisão do campeonato paulista daquele ano, o Palmeiras enfrentava o Corinthians, e Ronaldo foi o astro que mais brilhou na noite paulistana...

55 segundos de jogo. A zaga do Corinthians ainda não tinha nem ajeitado as meias quando Leivinha escapou da marcação do meio campo e passou a bola para Ronaldo. Rápido, inteligente e habilidoso, o atacante escapa do ótimo Zé Maria aplicando-lhe uma toca, foge de outro carrinho corintiano, vai ao fundo do campo pelo lado esquerdo e cruza para área. A bola encontra o pé direito de Edu Bala e vai parar no fundo das redes de Buttice.

Era o Palmeiras, abrindo o placar em mais uma arrancada de glórias. Fato corriqueiro naquele começo de década. Tanto para o Palmeiras quanto para o ótimo atacante que iniciou toda a jogada.

Ronaldo Drummond veio para o Palmeiras após ser campeão brasileiro no Atlético Mineiro em 1971 com Telê. Seguiu então vencendo nos anos seguintes: bicampeão brasileiro em 1972 e 1973 pelo Palmeiras, campeão paulista invicto em 1972. E a final do Paulista de 1974.

“Cheguei em 1972 em um time pronto, muito bom. No começo foi complicado de achar meu lugar, na minha posição (ponta-direita) o titular era o Edu e então eu jogava pouco. Foi um trabalho muito grande para começar a me encontrar no Palmeiras, mas tudo foi dando certo aos poucos.” 

No caminho da glória, havia um tostão...

Termina o jogo do dia 18 de Dezembro.

O placar final aponta 1 a 1, com o Corinthians empatando com uma cabeçada de Lance após cobrança de escanteio, logo aos 3 minutos. O resultado não abala a confiança dos jogadores do Palmeiras, todos estão tranquilos. Afinal, ser campeão não era algo muito raro para o Verde, ao contrário dos rivais que amargavam uma fila de 21 anos sem conquistas.

Todos estavam tranquilos exceção a Ronaldo, que num canto dos vestiários do Pacaembu estava apreensivo.

“Em uma jogada com Brito (zagueiro corintiano) levei uma pancada na coxa que imediatamente virou um "tostão", uma hematoma grande que com o passar do tempo, do calor do jogo começou a doer. Imaginei que passaria logo, mas foi ao contrario; Com o passar dos dias foi aumentando.”

A garrafa mágica de Osvaldo Brandão

“No sábado a noite eu estava crente que não ia conseguir jogar no domingo. Meu companheiro de quarto era o Eurico e mostrei pra ele o local da contusão na coxa. Um tostão enorme, subiu onde levei a pancada. Já estava me conformando em ficar de fora quando chega o Brandão e o médico Naércio Ramos.”

Oswaldo Brandão era o técnico do Palmeiras. Um homem esperto do futebol. Multicampeão, vitorioso onde passou, nunca foi um desses cientificistas da bola, pelo contrário. Era um homem extremamente sábio e voltado para as questões humanas, como foi naquele episódio.

Munido do médico do clube e do massagista, Brandão orientou que fosse feito no local uma massagem com uma garrafa como se fosse um rolo de macarrão. Em movimentos contínuos, o tostão da coxa de Ronaldo foi abaixando e de alguma forma aquilo o confortou.

“Não sei se sarou de vez, mas para o momento me convenceu de que o problema estava resolvido e fui para campo” – conta, sorridente. 

Aos 24 do segundo tempo, para entrar na história

[caption id="attachment_3376" align="alignnone" width="715"] Ilustração - Thiago Rocha[/caption]

22 de Dezembro de 1974.

No exato minuto entre a bola que vem do fundo e o pé do atacante que balança a rede, há um intervalo, uma pausa, uma fenda no tempo que cientista nenhum conseguiu estudar, sequer imaginar.

Esse é o tempo de sonho, de onde vem o verso, é o que precede o poema, a blue note do improviso jazzístico e a parábola mágica desenhada por uma anca santa que remexe ao som de uma gafieira imortal.

Quando a bola cruzada por Jair Gonçalves encontra a cabeça de Leivinha para desviá-la em direção de Ronaldo, o atacante viveu todas essas sensações.

Chegada firme, peito do pé, chute firme, bola no fundo das redes, Palmeiras campeão. Graças a Ronaldo a rotina vitoriosa dos anos 70 se mantinha. Em meio a todo silencio da tristeza adversária, o Palmeiras saía com mais um titulo na história.

“Fui muito feliz no tempo que fiquei no Palmeiras. Ganhei títulos, tive e tenho até hoje o carinho do torcedor. Sempre muito bom ser lembrado.”

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