(Foto: Marcelo Brandão/ClickPalestra)

Certo dia eu entrevistei o bicampeão olímpico Serginho, um dos maiores jogadores da história do vôlei. Nesse bate-papo, ele transpareceu humildade como poucas vezes enxerguei em um entrevistado com tanta história. Em meio ao roteiro que tinha de seguir, fui obrigado a questioná-lo: “Serginho, o que você fez para manter tanto seus pés no chão e sua humildade intacta sendo um dos maiores nomes do seu esporte?” E ele me respondeu sorrindo: “Ninguém muda, meu amigo. As pessoas são o que elas são. O que elas ganham, dinheiro ou títulos, só expõe o que talvez estivesse escondido”. Essa resposta nunca saiu da minha cabeça e passei a observar as pessoas com esse olhar. E por meio desse olhar, me dei conta de que Zé Roberto é o Serginho dos campos de futebol.

Na Academia de Futebol, Zé Roberto vestiu a camisa alviverde aos 40 anos e logo na assinatura de contrato mostrou o quanto era atencioso com cada detalhe que envolvia sua chegada. Com a caneta em punho, Zé fez questão de fazer uma ligação ao diretor Alexandre Mattos, que não estava em São Paulo, para perguntar se poderia assinar aquilo antes apenas apalavrado. Em seguida, a questão feita na breve conversa foi simples: “vamos montar um time pra ganhar, Alexandre?”. O multicampeão José Roberto da Silva Junior não assinou por dinheiro. Assinou com a intenção de se tornar um dos líderes da reconstrução de um clube que quase foi rebaixado menos de um mês antes de seu acerto.

Diferente de muitos, Zé Roberto nunca selecionou para quem daria atenção. O quarto reforço da era Alexandre Mattos mal conhecia o departamento de comunicação do clube, mas fez questão de se colocar à disposição para todos os compromissos que lhe agendassem. Todos, sem exceção. Após sua apresentação, o meia aceitou atender de forma exclusiva todos os meios de comunicação. E até hoje é assim. Qualquer pessoa que lhe requisita atenção ganha o imediato e respeitoso olho no olho do craque.

Falando em atenção, não é segredo o quanto Zé Roberto cuida de seu corpo. Estar onde está com a idade que acumulou exige mais do que sacrifícios. Exige interesse. Interesse que impressiona o departamento médico do clube, já que o atleta mais experiente do elenco chega ao mês de setembro de 2017 como um case de sucesso físico. Qualquer jogador com idade avançada acumula problemas crônicos, porém a atenção aos cuidados preventivos chamam a atenção de quem está no seu dia a dia. Não à toa, Zé Roberto perdeu apenas um jogo em função de uma inflamação no tendão calcâneo e outro duelo por conta de um edema no esporão calcâneo no pé. Os índices de um atleta jovem só aparecem pela atenção dada ao seu corpo e pedida aos médicos quando algo lhe incomoda. A experiência lhe trouxe idade, mas também muitas lições, disciplina e consciência para se manter em alto nível.

Dentro de campo, não falta atenção ao elenco e à história do clube. Quem não se recorda de seu discurso dentro do vestiário momentos antes da primeira partida do Palmeiras em 2015? “Bate no peito e diz: o Palmeiras é grande!”. Zé Roberto tem atenção com cada palavra que fala e ganha a atenção daquele que lhe escuta. Foi mentor do craque Gabriel Jesus e segue sendo conselheiro do ídolo Dudu, mas ainda assim sobra atenção para Raphael Veiga e outras promessas vistas constantemente ao seu lado durante os treinamentos.

Atenção define Zé Roberto. Seja no meio ou na lateral, no time titular ou no banco de reservas, nas entrevistas ou no departamento médico, cada detalhe importa ao quarentão que chegou ao Palmeiras após um 2014 de severas desatenções para fazer o clube chamar a atenção do país inteiro nos anos seguintes.

Os marcantes títulos nacionais conquistados com Real Madrid e Bayern de Munique ganharam de Zé Roberto a mesma dedicação colocada nas conquistas obtidas no Qatar ou no Brasil. Difícil imaginar que o autor do livro “Colhendo Frutos em Terra Seca” poderia desmerecer algum campeonato quando o maior título que ele carrega é se tornar um vencedor na vida. Aos 43 anos, Zé ouvia de muitos dentro do clube que ainda não era hora de parar, tanto pela condição física quanto pelo medo de perder toda a atenção desse ‘José’. Ele para nesse ano, então que pare apenas de jogar, mas continue no futebol.

Torcedor palmeirense, Zé Roberto fará sua despedida diante do Botafogo. Vale a pena prestar atenção na entrada em campo e gritar o nome daquele que merecidamente recuperou o animal das arquibancadas pela atenção que sempre deu ao clube.

Comente

comentários