Sou Palmeiras para ser o que sou

Sou Palmeiras para ser o que sou

Não vou falar tudo que o Palmeiras me dá. Nem tudo que eu imodestamente já contribuí.

Mas vou falar de 3 de setembro de 1975 quando perdi Luís Pereira e Leivinha da Academia pra Espanha. Quando 11 anos depois, na mesma data, perdemos para a Inter de Limeira. 10 meses depois do XV de Jaú de 1985. Três anos antes do Bragantino. Quatro antes da Ferroviária. Oito depois do Guarani.

Aquela canelada do Biro-Biro no SP-79. Aquela no meio das pernas do Zetti no SP-87 depois de perder o Jorginho pro rival. O Sócrates em 1983. O Ademir descansar em 1977. A gente só ganhar em 1993.

Presidente metendo a mão. Ditador matando o coração. Taça de Prata. Taca pra ver se cai. Taca de novo pra ver se quebra. Tava demorando...

Presidente que me processou. Organizado que mandou mexerica na minha cabeça. Paltrollero que me persegue. Apedeuta intolerante. Quem se acha mais torcedor do que o outro. Quem se perde procurando cabelo na minha cabeça.

O Palmeiras nos tira do sério e, sério, nos arranca pedaços.

Mas todos aqueles jogos perdidos eu ganhei por ser Palmeiras. Todas aquelas noites sem sono eu sonhei Palmeiras. Todos aqueles apitos finais eram pontapé iniciais para novas vitórias. Todas aquelas bolas perdidas pela linha de fundo eram linha de partida que nos aguarda. Todos aqueles refletores apagados não refletiam nossa luz acesa. Aquele Palestra esvaziando em derrota nos deixa mais cheio de vontade de vitória. Aquele estádio ao fundo era no fundo nosso estado de espírito de porco.

Nunca perdi nada por ser palmeirense. Minha vida, meus amores, melhores amigos e colegas são tudo isso por serem Palmeiras.

O Palmeiras não me dá só alegria. Me chuta, me derruba, me maltrata, ainda vai me matar. Mas isso é a nossa vida. E a minha vida é Palmeiras.

Não o Palmeiras que só ganha. Não o do clube, do time, do técnico, do cartola, do parceiro, do patrocínio, da renda, do VIP. O Palmeiras é o que me ensina a perder e empatar. Porque vencer é sina que não se ensina.

O Palmeiras me ensina a viver com todas as nossas falhas, falsas, farsas, fraudes e fraldas.

Não sou Palmeiras só para ser campeão. Sou Palmeiras para ser o que sou.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.