Uma esmolinha pelo amor de Deus

Uma esmolinha pelo amor de Deus

Era 1994, Palmeiras campeão brasileiro. Dois jogos decisivos com ocupação superior aos 98% do estádio. Um borderô incapaz de pagar a luz do reluzente Allianz Parque. Tinha gente de todo tipo, o tobogã, pra quem sofria com grana, as numeradas para quem a grana sorria todo dia. Uma esmolinha na Charles Muller poderia ajudar bem na hora de conseguir o papel que abria as portas para que alguém vivesse o sonho.

"Uma esmolinha, meu, por caridade", cantava o Skank, da mesma data.

É 2019, primeiro jogo do elenco campeão brasileiro que segurou seu melhor nome, trouxe o sonho da torcida. Jogo em horário bom. Ocupação pela metade. Vive-se uma ditadura da paixão. O Palmeiras está um cofre. Milhões de reais tentam preencher o vazio daquilo que há de mais nobre e admirável no esporte. O povo está longe. Os atletas, hoje, ouvem o som dos cifrões. Há mais de 20 anos, às vésperas de um título Paulista que é letra de música até hoje, os atletas ouviram as vozes de milhões. Com menos de um milhão no cofre.

"Não vai não, não vai não, não vai não
No hospital, no restaurante,
No sinal, no Morumbi
No Mário Filho, no Mineirão"

No Allianz Parque do maior ticket médio de jogo de mínima importância.

Não é pedir presente, muito menos uma esmola. É pedir senso de humanidade e lógica. Que cobrem os milhões no dia em que milhões brigariam por um lugar. Lição nota 3 das aulas de economia. Porque evaziar espaços por uma ganância sem fim?

O Palmeiras vive sozinho, jogando para muitos mil sortudos que pagam para vê-lo, como um programa de cultura, e bate as portas no rosto de incontáveis de menos sorte que rodariam (e rodam) milhares de quilômetros, metros, ônibus, desaforos, desempregos e muito amor para tentar vê-los. É a censura do sentimento. Uma abertura que nunca acontece. O espetáculo nasce morno. Quase morto.

Que pena, Palmeiras, que você lucre tanto, tanto, tanto, mas seja tão deficitário em abraçar quem é a única razão por você existir. Ainda dá tempo. O Avanti agoniza, mas todo torcedor reza pra poder estender a mão e seguir fazendo dele um sucesso. Dessa relação, muito mais humana.

"Essa quota miserável da avareza
Se o país (e o Palmeiras) não for pra cada um
Pode estar certo, meu irmão
Não vai ser pra nenhum".

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.