Volta, diós Valdívia

Volta, diós Valdívia

Eu estava na numerada quando o Valdívia arrancou. Deixou três adversários – pelo que lembro – e chutou forte com o pé direito. Venceu Aranha. O Palmeiras era campeão paulista. Em 2008, confesso, foi a época que mais gostei de futebol. Eu queria ser o chileno no antigo Palestra Itália. Queria ter driblado toda defesa da Ponte Preta. Queria ter feito o sinal para o Rogério ficar quieto. Queria ter esboçado o chororô depois de ganhar do Corinthians. Eu queria ser o Valdívia.

Eu queria que o Valdívia tivesse ficado depois de levantar a taça do estadual. Torci pelo retorno. Bebi de alegria quando Belluzzo anunciou a volta. Fiquei bêbado e passei mal. Pior ainda fiquei quando as lesões perseguiram o camisa 10. As polêmicas, as faltas e a fibrose deram dor de cabeça. E a minha funcionou melhor do que a do Arnaldo Tirone e suas contratações confusas, suas frases desconexas, suas praias e seu irmão que atendia o celular. Ou seria o próprio?

Eu queria que o Valdívia disputasse a Série-B, mas duvidava. Não acreditava nessa possibilidade. Ele e Barcos tinham muito mercado e o Palmeiras não tinha muito dinheiro. O argentino saiu. Ele continuou. Jogou quase que sozinho em 2013. Ele passava e Prass defendia. O alviverde subiu com tranquilidade. E, no ano seguinte, conseguiu piorar. Valdívia tinha de tocar para Diogo, Mouche, Leandro e Wesley. Todas as jogadas saiam do camisa 10. Era ele contra 11. Ele contra a pressão. Ele contra o Pacaembu inteiro.

Já são 11 anos desde 2008. Eu não sou o mesmo. Antes era menor de idade e ainda tinha um pedaço de sonho de jogar bola. De entrar no Parque Antártica. De decidir um campeonato. De estufar aquela rede linda que me dá muita saudade. Eu sinto muita falta de ser só torcedor. De só gritar o nome do Palmeiras na arquibancada. E sentir toda atmosfera da nossa casa. Eu jogava com o corpo do Mago.

Eu queria ter chutado aquela bola contra o Aranha. Eu queria ter batido o pênalti contra o Coritiba. Eu queria ter feito a festa em 2012 e continuado em 2013. O chute no vácuo. Eu queria ser amado e odiado pela torcida que ele é apaixonado. Acusado de não vibrar por quem tanto cantou no estádio. Mas ele jogou sozinho. Muitas vezes.

O Valdívia com gripe, febre, pneumonia, dor de cabeça, fibrose, asma e sem uma perna é melhor do que Gustavo Scarpa e Lucas Lima. Aos 36 anos.

  • Guilherme Cimatti

    Guilherme Cimatti

    Guilherme Cimatti é repórter da equipe esportiva da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Já passou por BandNews FM, Estadão, Globo e CBN. Sempre trabalhou em rádios, mas tem uma queda por crônica.