COLUNA

'Síndrome do soberano e uma mesa de café'

Palmeiras se complicou na Libertadores após derrota para o Cerro Porteño, no Allianz Parque

O jogador Flaco López, da SE Palmeiras, disputa bola com o jogador do C Cerro Porteño, durante partida válida pela fase de grupos, da Conmebol Libertadores, na arena Allianz Parque. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)
O jogador Flaco López, da SE Palmeiras, disputa bola com o jogador do C Cerro Porteño, durante partida válida pela fase de grupos, da Conmebol Libertadores, na arena Allianz Parque. (Foto: Cesar Greco/Palmeiras/by Canon)

O Palmeiras me lembra um senhor abastado, que venceu muito na vida, com muita dificuldade, mas que enriqueceu e se orgulha, com alguma arrogância, do império que construiu. Preciso dizer, porém, que conjugar em primeira pessoa do singular um clube de futebol é uma escolha de quem vai ser refletido, e a minha escolha é o seu treinador, Abel Ferreira.

Entitulado pela própria história como herói, e absolvido por este caminho trilhado, o comandante se envaideceu com os próprios louros, e até aí, poucos seriam imunes ao sucesso. O tempo, no entanto, deixou cascas de banana para ele, por exemplo: lidar com seus erros, observar suas falhas e ser humilde para perceber que precisa mudar ou ser mudado.

Spoiler: ele não conseguiu.

E tal qual agem esses personagens afagados por todos, a crítica não é respondida, ela é contragolpeada. Não busca-se a solução do problema que motivou a crítica, mas uma forma de desmerecê-la, desqualifica-la, e forçar com que todos a vejam como um gesto isolado de ódio – em termos menos burocráticos: ele tenta ignorar e usa do poder que tem para, à fórceps, suprimir o tema.

Abel não é inimigo, mas se travestiu de alguma coisa amargurada de quem se frustrou por não conseguir mais ser o mesmo homem que ascendeu à conquista e que MERECE ser adorado cegamente, com fé inabalável, acima das dúvidas, voando por cima do radar do racional, vivendo no mundo fantástico de quem tem um império, mas o tempo passa, a fé abala, e a visão fica menos turva.

A cada dia que passa, sentado à mesa do café, este senhor abastado abre o jornal e se vê sob questionamento. Bravo, prefere incendiar as páginas e pedir um novo jornal, afinal, a culpa é dele, de quem escreveu, de quem editou e até de quem imprimiu. E se o próximo trouxer desgosto, incendeia-se também. Apegado ao passado, e preso nele, não sabe como sair, e nem vai aprender.

Soberano, ele segue. Soberano, ele perde.