Análise Retrô: O eterno 8×0

Há 87 anos, o Palestra Italia massacrava seu arquirrival em partida válida pelo Campeonato Paulista e Torneio Rio São-Paulo de 1933

Por: André Galassi

Em 5 de novembro de 1933, há exatos 87 anos, a Sociedade Esportiva Palmeiras — até então Palestra Italia — aplicava a maior goleada da história dos clássicos diante de seu arquirrival, o Sport Club Corinthians Paulista. O elástico placar de 8–0 foi fundamental nas conquistas do Campeonato Paulista e do Torneio Rio-São Paulo daquela temporada e instaurou uma enorme crise no lado alvinegro. No entanto, além da goleada, o jogo mostrou a importância palestrina no cenário de profissionalização do futebol paulista e brasileiro, movimento decorrente desde o fim da década de 1920 e efetivamente consumada no ano de 1933.

Palestra e Corinthians já eram velhos conhecidos e se enfrentavam regularmente desde 1917. Fundado por operários no bairro do Bom Retiro em 1910, o Alvinegro já havia se sagrado campeão estadual oito vezes até 1933, sendo o primeiro deles em 1914. Ironicamente, na mesma temporada do primeiro título corintiano, surgia dos operários descendentes de italianos o Palestra Italia, vencedor estadual em quatro ocasiões até 1933.

Com o encerramento das atividades do Paulistano, clube de elite da capital e onze vezes campeão estadual, no dia 08 de janeiro de 1930, a rivalidade entre Palestra Italia e Corinthians, os já grandes inimigos, aumentava ainda maisLogo após o alvirrubro fechar as portas, surgia o São Paulo da Floresta, que posteriormente encerraria suas atividades em 1935. Foi o clube precursor do São Paulo Futebol Clube, afinal, dos seus diretores e elenco saíram os homens que em 16 de dezembro de 1935 fundaram o Tricolor do Morumbi.

É necessário ressaltar que o Palestra Italia vinha de uma sequência positiva antes da histórica goleada. Em 1932, o clube conquistou o Campeonato Paulista de forma invicta, com 100% de aproveitamento. O elenco era treinado pelo uruguaio Humberto Cabelli, treinador mais vitorioso do Palestra Italia antes de se tornar Palmeiras, em 1942. Com o uruguaio, o clube foi tricampeão paulista nos anos de 1932, 1933 e 1934, campeão do torneio Rio São Paulo de 1933 e novamente vencedor do estadual em 1936. 

Com o profissionalismo instaurado em 1933, foi criada a competição Rio-São Paulo, e portanto as partidas entre times paulistas no campeonato estadual valeriam pontos também ao interestadual. Assim sendo, era em jogo válido pela abertura de ambas as competições que Palestra Italia e Corinthians duelavam em 07 de março, com mando de campo dos alvinegros. Em um massacre, Romeu Pellicciari duas vezes, Gabardo, também duas vezes, e Carrazzo garantiram a vitória palestrina por 5–1, nutrindo um sentimento de uma eventual revanche pelo time do Bom Retiro no segundo turno de ambas as competições, em novembro do mesmo ano.

A temporada seguia e parecia próspera ao Palestra. Os resultados eram positivos e a equipe lutava pelos dois títulos. Fora das quatro linhas as coisas ocorriam bem e no dia 13 de agosto foi inaugurado o Stadium Palestra Italia — primeira grande reforma do terreno palmeirense — com arquibancada de cimento armado, tornando-se o mais moderno estádio do Brasil. Na estreia, goleada por 6-0 contra o bom time do Bangu, que contava com a presença de dois tios do futuro ídolo Ademir da Guia em sua equipe. 

O JOGO:

Passados oito meses da primeira goleada imposta ao rival, no dia 05 de novembro Palestra e Corinthians se cruzavam novamente, dessa vez no Stadium Palestra Italia, em partida válida para a 18º rodada do Rio São-Paulo e a penúltima do Campeonato Paulista. 

Ainda no antigo sistema de pontuação, na qual a vitória valia dois pontos, o Palestra ocupava a liderança em ambos os campeonatos, estando a quatro de vantagem do São Paulo no Rio-São Paulo e a dois de distância no Paulistão. Uma vitória no dérbi seria de extremamente importante não apenas para continuar distante dos rivais no torneio interestadual, mas principalmente para ficar com as mãos na taça do Campeonato Paulista. A equipe palestrina faria o seu último jogo justamente diante do Tricolor, em casa, uma semana após o combate diante do Corinthians. Já o time do Parque São Jorge ocupava o oitavo lugar no torneio carioca-paulistano e quarto no estadual. 

Tabela, por pontos perdidos, do Rio São-Paulo (e esq.) e do Campeonato Paulista (a dir). (Foto: Acervo Correio de São Paulo / Biblioteca Nacional)

Como de costume, antes da partida, havia o jogo dos times secundários. Para os mais supersticiosos, o que aconteceria nos 90 minutos na partida dos aspirantes poderia ser um presságio daquilo que viria no tão esperado certame principal. Com gols de Fogueira, Sandro, Vasio e Del Bianco, o Palestra goleou o segundo quadro corintiano por 4–0 escalado com Joel; Viana e Narciso; Zico, Davi e Ventura Cambon; Paulo (depois Vasio), Sandro, Fogueira, Del Bianco e Riolando. Detalhe para o médio-campista Ventura Cambon, que posteriormente viria a ser ídolo como treinador, somando 248 partidas no banco de reservas alviverde e conquistando a Copa Rio de 1951, o Campeonato Paulista de 1944 e 1950, além do Rio São-Paulo de 1951.

Porém, o que realmente importava era o jogo principal e para garantir a vitória e consequentemente ficar muito perto de conquistar o Campeonato Paulista, o treinador Humberto Cabelli adotou o mesmo esquema que a equipe estava acostumada a atuar, o 2–3–5, formação muito comum a época e eternizada pelo Uruguai nas conquistas das Olimpíadas de 1924 e1928, além da Copa do Mundo de 1930. No gol, o ídolo Nascimento era uma peça fundamental da equipe; Carnera e o capitão Junqueira compunham a defensiva; Tunga, Dula e Tufy fechavam o trio de médios-campistas; Lara e Gabardo eram os enganches com o trio ofensivo composto pelo ponta direita Avelino, o ponta esquerda Imparato e o centroavante e artilheiro Romeu Pellicciari.

Escalação palestrina para o duelo (Via: TaticalPad)
Escalação alvinegra (Via: TaticalPad)

Logo após o apito do juiz, o Palmeiras já mostrava para o que vinha na partida. Com menos de um minuto no relógio, Romeu arriscou de longe, mas parou no goleiro Onça. Aos sete, Imparato cruzou da esquerda para Romeu mandar no canto. 1 a 0. Três minutos mais tarde, o centroavante teve a chance de ampliar o marcador, mas parou dessa vez no travessão.

Controlando as ações, aos 28 a dupla Imparato e Romeu funcionou novamente e o ‘’Príncipe Palestrino’’ entrou com bola e tudo na meta alvinegra após ser servido com um excelente passe do ponta esquerda. Romeu ainda anotaria mais um antes do intervalo, com assistência de Gabardo. 3 a 0 e final do massacre do primeiro tempo.

Na segunda etapa, Gabardo não demorou um minuto para deixar o dele no gol mais bonito do prélio. O ponta-direita passou por quatro adversários e colocou a quarta bola na meta de Onça. Aos 9, Romeu bem posicionado pegou o rebote de Imparato. 5 a 0 e quarto do camisa 9.

Inteligente além de goleador, foi dos pés de Romeu que saiu o sexto gol. Após tabelar com o Tuffy, serviu Imparato na esquerda para o ponteiro anotar o primeiro dele na noite. 6 a 0. Aos 35, os papéis se inverteram e Onça deu rebote no chute de Romeu. Bom para Imparato que anotou mais um. 7 a 0. Ainda daria tempo para o oitavo, novamente dos pés de Imparato, em falha do goleiro corintiano. 8 a 0 e uma atuação impecável do imparável Palestra Italia. 

Apesar do elástico placar, a sensação era de que a goleada poderia ter sido ainda maior. Além das boas jogadas, bolas na trave e defesas do arqueiro Onça, o Palestra ainda teve um gol de Imparato anulado por impedimento no segundo tempo e um pênalti não marcado pelo arbitro Haroldo Dias da Móta, após o jogador corintiano Rossi tocar a bola com as mãos dentro da grande área, ainda na etapa inicial. Vale ressaltar, que segundo dados estatísticos da Folha de São Paulo, o goleiro palestrino Nascimento tocou na bola apenas quatro vezes durante toda a partida.

Edições matinais e noturnas da Folha destacavam o jogo de ‘’hontem’’ (Foto: Acervo Folha)
Edições matinais e noturnas da Folha destacavam o jogo de ‘’hontem’’ (Foto: Acervo Folha)

Ao fim da peleja, Luiz Imparato foi eleito o melhor jogador em campo, depois de deixar o gramado com três gols e duas assistências naquele inesquecível domingo. Como premiação, Imparato ganhou de presente um rádio e mil contos de réis. O dinheiro, difícil de ser convertido para a moeda atual, foi o suficiente para bancar a festa de casamento de um dos irmãos do craque, segundo o noticiado na época.

Além de Imparato, o outro destaque ficou por conta de Romeu, artilheiro da noite, e considerado por muitos o principal jogador da partida. Ídolo do Palmeiras e também do Fluminense, Pellicciari era descrito por jornalistas como um centroavante acima da média e além de colaborar com gols, fazia a função de cérebro da equipe, sempre ativo durante os 90 minutos. 

A REPERCUSÃO DO DÉRBI:

Na manha da segunda feira, 06 de novembro, dia seguinte ao jogo, estampava no jornal A Gazeta Esportiva uma foto do centro-atacante palestrino com os dizeres “Uma grande tarde de Romeu”. Maior goleada sofrida na história do Sport Club Corinthians Paulista até então, a reportagem dizia: “Toda a classe e superioridade do alviverde traduziram-se em tentos frente a um Corinthians frágil e tímido, o que constituiu uma contagem recorde para o clássico encontro”.

Romeu era a capa da edição esportiva do jornal A Gazeta, no dia seguinte ao duelo (Foto: Acervo A Gazeta)

O mesmo periódico ainda se referia a atuação palestrina como ‘’acadêmica’’. Muito embora a a expressão ‘’Academia’’ se eternizasse nas alamedas alviverdes apenas nas décadas de 1960 e 70 com os históricos times liderados por Ademir da Guia, a alcunha foi empregada para noticiar o passeio esmeraldino naquela tarde de domingo.

“A partida valeu apenas pela exhibição academica do Palestra, que jogou como quis, pondo a descoberto toda a bondade da classe de seus jogadores, que demonstraram que se encontram todos em boas condições physicas, muito apurados technicamente, e com um moral superior” dizia o texto. 

Já o jornal Correio de São Paulo destacava ‘’a verdadeira negação’’ do futebol apresentado pelo Corinthians e a forma impiedosa na qual o Palestra infligiu o revés no seu velho rival. Tentando explicar os motivos do atropelamento, o jornal relatava as constantes mudanças no elenco alvinegro, enquanto pelo lado palestrino a escalação já se mostrava entrosada desde 1932 e consequentemente facilitava o entendimento dentro de campo. 

Capa do diário de esportes do Correio de São Paulo na segunda-feira, 06 de novembro de 1933 (Foto: Acervo Correio de São Paulo / Biblioteca Nacional)

CRISE NO RIVAL, A ATENUAL CONVULSÃO CORINTHIANA:

Se nos lados do Parque Antarctica as coisas não poderiam ser melhores, no Parque São Jorge o Derby deixou profundas e nebulosas marcas. Em mais de três décadas de futebol no Brasil, nunca havia sido registrado uma crise interna tão grande como a que se via no Corinthians, estopim de um vulcão com várias pequenas crises que culminaram no oito a zero.

De acordo com o jornal A Gazeta, a “contagem esmagadora e, quiçá, humilhante” foi em parte resultado da postura dos próprios atletas do Corinthians. Os alvinegros, segundo o tradicional jornal, já entraram em situação emocional desfavorável e não souberam como reagir diante dos primeiros ‘’pontos’’ sofridos.

“Os jogadores, antes de tudo, sentem-se desmoralizados. Hontem, foram tímidos, parecendo que pisaram o gramado já batidos, antes mesmo de ter sido dada a sahyda […] A rapaziada, ante a fatalidade da derrota que se esboçou logo que a bola foi movimentada, submeteu-se resignadamente ao sacrifício”, relatava a reportagem.

Logo após o jogo, torcedores descontentes com o clube tentaram roubar e empastelar a sede social do clube, dando trabalhos a polícia. Na segunda, houve a distribuição de um manifesto concitando os associados a irem à noite na sede para depor a diretória. Pressionado, o presidente Alfredo Schurig (que dá nome ao Estádio Parque São Jorge até hoje) publicou uma nota no jornal com o título “A directoria do Sport Club Corinthians Paulista aos seus sócios e ao público esportivo de S. Paulo” e renunciou logo em seguida ‘’tranquilo e de consciências satisfeita’’ segundo relato dado aos jornalistas.

COROAÇÃO DA TEMPORADA:

Com os pontos na mão e a autoestima alta, o Palestra garantiu o título paulista dias mais tarde, vencendo o São Paulo da Floresta por 1–0 com gol de Avelino com mais de 35 mil pessoas no Stadium Palestra Italia. A vitória diante do tricolor também foi importante para a conquista do Rio São-Paulo, que seria consumada apenas em dezembro coroando a temporada de 1933. Ao todo, o Palestra acumulou 34 partidas, das quais venceu 26, empatou cinco e perdeu apenas três naquele ano. Além disso, o ataque alviverde balançou as redes adversárias 113 vezes e acumulou goleadas: 5–1 e 5–0 no Syrio-SP, 4–1 no Fluminense, 6–0 no Bangu-RJ, 5–0 no Ypiranga-SP e 4–0 no América-RJ, além dos já mencionados 5–1 e 8–0 no Corinthians.