Fotógrafo do Palmeiras escolhe 15 momentos especiais dele em mais de uma década de clube

Foto: Bruno Ulivieri

Cesar Greco chegou ao Palmeiras em 2009 e acompanhou de perto toda reconstrução alviverde. Dos milagres de São Marcos e a despedida do antigo Palestra, até os quatro títulos nacionais que reafirmaram o Verdão como maior campeão do Brasil.

Em todos os momentos, do triunfo no alto da Glória até mais um triste rebaixamento, Cesar estava lá. Registrando cada momento e eternizando em imagens a história para o torcedor.

Cesar atendeu o pedido do Nosso Palestra e separou aquelas que pra ele são as 15 melhores fotografias que ele tirou em 11 anos de clube.

Cada uma delas contém uma grande história. Confira!

1. Amém Marcos!

Sport x Palmeiras, 12 de maio de 2009

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O Palmeiras foi a Recife para o prélio da Libertadores de 2009 contra o Sport. Eu trabalhava para agência de fotografia Foto Arena e nem fazia ideia de que, no próximo compromisso do verde na competição, no mês seguinte, estaria como fotógrafo oficial do Palestra Itália.

Não sabia porquê, mas queria cobrir o jogo. Algo me dizia que deveria fazer esse jogo. Manifestei minha vontade à agência. A resposta deles foi de que não havia orçamento para a viagem, embora houvesse interesse no jogo. Conseguiram uma verba de ajuda de custo. Da minha parte, arrisquei. Na época, meu irmão trabalhava para uma companhia aérea. Consegui uma daquelas passagens de benefício para funcionários a custo baixo, sem garantia de embarque.

Para Recife fui no voo das seis da manhã, com chegada prevista para o meio-dia. Desembarquei com a roupa do corpo e o equipamento, mas, no melhor estilo bate e volta, sem grana para o hotel. Fiz uma refeição no aeroporto e enrolei o quanto pude. Segui no fim da tarde para a Ilha do Retiro.

Pênaltis. Marcão no gol. E como era de costume, três defesas do grande ídolo palmeirense. Na última, Marcos correu para o lado onde estava a torcida do Palmeiras. Correu apontando para os torcedores. Nesse instante de comemoração, tomei uma decisão errada: troquei a longa trezentos milímetros para uma grande angular. E perdi a foto. A imagem do herói da partida.

Não podia acreditar que, depois de tamanho esforço para cobrir o jogo, eu havia cometido tão notável engano. As vendas das fotos é que iriam, no mínimo, compensar o investimento feito na viagem. Prometi a mim mesmo que faria de qualquer jeito uma foto do principal personagem do jogo.

Os colegas estavam todos ocupados no envio da foto do jogo que havia perdido. Marcos atendia os repórteres no campo. Fiquei alí próximo a ele aguardando. Acabou as entrevistas e ele logo foi em direção ao túnel do vestiário. Chamei umas três vezes por ele – Marcos, Marcos, Marcos… Sem sucesso. Ele estava concentrado e me ignorou completamente. Do nada, ele se virou em direção à torcida, levantou os braços e os agitou, soltando o último sentimento de vibração.

Eu estava na frente dele. Foi o tempo de levantar a câmera com a grande angular, mal encaixá-la no olho e fazer a foto. Exclusiva! Com ângulo, expressão e momento de comemoração diferente dos conseguidos pelos colegas. Apenas eu tinha a foto, porque era o único que ainda precisava uma boa imagem e não estava ocupado com o envio do material. Havia cumprido o prometido.

Corri para enviar as fotos. Estava atrasado. Enviei. Finalizei o material fotográfico do jogo. Segui para o aeroporto para o voo das três da manhã. Troquei uma camiseta que havia levado pela suja e suada do trabalho, lavei o rosto, fiz um lanche e segui para São Paulo.

Quando se trabalha como freelancer, a gente vive buscando as publicações com nosso trabalho. A primeira coisa que fiz foi passar na banca de jornal do aeroporto de Guarulhos. Nas capas dos jornais, nos cadernos de esportes, de todos eles, lá estava a foto exclusiva. Valeu a pena a insistência. Era a única foto diferente conseguida pelos que cobriam a partida – e talvez por isso amplamente utilizada. Presente do Santo.

Mais tarde, com a aposentadoria do Marcanzinho, como carinhosamente o chamo, a foto ilustrou a capa do livro de fotos sobre o goleiro craque do Palmeiras intitulado “Amém, Marcos! O livro oficial de fotos do Santo”.

2. O apagar das luzes de Palestra Italia

Estádio Palestra Italia, 22 de maio de 2010

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Fim de partida. O Palmeiras havia vencido o Grêmio pelo por 4 a 2 pelo Brasileiro de 2010, no que marcaria na história o fim dos jogos oficiais do Estádio Palestra Italia.

A noite estava diferente. A temperatura estava agradável como nunca. Pairava no ar um sentimento de saudade misturado à alegria da vitória e de tanta história daquela praça esportiva que daria lugar a uma arena novinha.

Fiquei ali, à beira do gramado, terminando de cuidar das fotos do jogo quando, como por um pedido, o céu me chamou a atenção. Estava lindo, exuberante, com uma cor estrelada de laranja. Tomei fôlego e deixei as fotos por um instante para observar aquele céu. Em silêncio, sem mais nem menos, me veio à cabeça: “Esse céu está me pedindo uma foto!”.

O campo ainda estava parcialmente iluminado. Montariam um evento e por isso ainda havia luz de parte das torres. Perfeito. O gramado e arquibancadas iluminadas, o céu oferecendo um espetáculo de cores.

Não perdi tempo e logo fui até o último lance da arquibancada da ferradura, de frente para o placar. Improvisei um tripé com o banquinho de trabalhar e fui tentar a foto que marcaria o apagar das luzes do Palestra Italia. Foto bastante emblemática e marcante. A história estava garantida.

3. Torcida, a gente de Palestra Italia

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Palmeiras x Boca Juniors, 9 de julho de 2010

O Estádio Palestra Italia viria abaixo. Em seu lugar, se ergueria uma arena das mais modernas. Antes disso, despedida do seu torcedor em um jogo comemorativo contra o Boca Juniors. E lá estavam os apaixonados palestrinos enchendo as arquibancadas do saudoso Palestra em festa para dar o adeus.

Para o palmeirense, as peculiaridades da sua casa estão sempre à memória. O gol da piscina, o gol da Libertadores, a ferradura, as cadeiras cobertas e descobertas, os corredores do Jardim Suspenso todo ladrilhado com paralelepípedos sextavados, o placar, os túneis do vestiário, os brasões atrás dos gols, as tribunas e tantos outros cantos singulares que o Palestra Italia marcava no coração do palmeirense.

Havia também um elemento externo que completava o cenário de uma partida no Palestra: as torres da Casa das Caldeiras das Indústrias Matarazzo. Ficavam ali, guardando o costado do arco da ferradura como monumentos de titãs protegendo sua gente. Quase gêmeas. Três delas. Imponentes. Como muralha a abrigar o Palestra e seu povo de bom coração. Além de ilustrar o cenário de uma típica partida, as torres tinham forte representatividade para a história dos imigrantes italianos e também do Palmeiras.

Foram os Matarazzo, donos do maior complexo industrial da América Latina nos anos 1920, que ajudaram o sonho da compra do Parque Antarctica pelo clube. As torres, além de serem parte do patrimônio visual do Palestra Italia e da cidade, têm vários simbolismos. Era o local de geração de energia para as Indústrias Matarazzo, energia para edificar, construir. Simbolizava a força de trabalho do imigrante italiano e dos brasileiros, o povo, o proletário, o pensamento de vanguarda dos que edificaram o Palmeiras e o tornaram gigante. Verdadeiros monumentos que guardavam a essência da Sociedade Esportiva Palmeiras.

As torres estavam lá, adornando o cenário visual do estádio, defendendo a sua gente que em festa levantavam seus mosaicos e cores para darem adeus ao Palestra Italia.

4. Última comemoração do Santo

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Atlético Goianiense x Palmeiras, 5 de maio de 2010

Rememorar é viver, dizia meu pai. Razão dos mais experientes. Construímos nossa história com os momentos da vida sem perceber que esses instantes provavelmente serão duradouros e podem representar uma marca eterna.
Marcos, nosso goleiro ídolo, das pessoas mais distintas que já conheci, estava lá para mais uma vez defender não um, nem dois, mas três pênaltis em uma decisão de vaga para a próxima fase de uma Copa do Brasil, contra o Atlético Goianiense, em Goiânia.

Comemorou ao seu modo tradicional, com a humildade de um homem ajoelhado apontado para o céu em agradecimento ao Pai. O que eu não sabia é que as fotos que estava fazendo, das defesas de pênalti e principalmente da comemoração, representariam as últimas desses momentos da carreira de tanto sucesso e destaque do Santo.

Quando Marcos se aposentou, as publicações de imprensa utilizaram intensamente essa foto para anunciar o pendurar das chuteiras nas diversas matérias que contextualizaram a sua carreira. A torcida fez um bandeirão com a foto e nas festividades em homenagem a Marcos pós-aposentadoria fiquei um tanto orgulhoso de vê-la tremulando em festa. A silhueta da imagem foi amplamente utilizada graficamente – inclusive estampando a camisa oficial do Palmeiras com a qual os jogadores entraram em campo no jogo em homenagem ao Santo, contra o Ajax. A foto foi estampada no manto, é um negócio sério!

No mesmo dia das festividades, da procissão de São Marcos, dia do jogo contra o Ajax, fotografei um estêncil em um muro do entorno do Palestra com a foto. Até nos dias de hoje essa foto é utilizada.

A foto do singelo agradecimento a Deus, talvez por ter sido a última de uma história tão bonita, acabou tornando-se icônica. Não fazia ideia que estava tendo tamanha sorte e privilégio em tê-la feito.

5. Copa do Brasil 2012

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Coritiba x Palmeiras, 11 de julho de 2012

Fazia muito frio no Couto Pereira. Casa cheia. Final da Copa do Brasil de 2012. Jogo tenso. O time da casa saiu na frente, empolgando a torcida. Mas logo na sequência, com cobrança de falta de Marcos Assunção e leve desvio de cabeça de Betinho na grande área, o ânimo do estádio desabou. Para desconsolo da torcida local, o Palmeiras fatalmente sagrar-se-ia campeão da competição.

A ansiedade já me preenchia com a eterna dúvida: será que conseguiria boas fotos da comemoração naquela velha disputa campal que se forma no gramado entre repórteres fotográficos e cinegrafistas em busca da melhor imagem?

A melhor foto é aquela que tem história. Nem sempre é a melhor tecnicamente, mas a que consegue contar a história e tem na sua feitura outra história. Foi o que aconteceu.

Em meio a um verdadeiro batalhão de colegas agrupados disputando o mesmo espaço (caso um caia, todos caem, de tanta gente no mesmo lugar), entre esbarrões e apertos em busca da imagem do técnico Felipão que levava a taça para comemorar com a torcida palmeirense… Não faço ideia como aconteceu, mas a lente desprendeu da câmera.

Foi o tempo de percebê-la caindo no escuro Couto Pereira, olhar para baixo, ter muita sorte em encontrá-la entre tantos pés para lá e para cá, resgatá-la do gramado ligeiramente enlameado, verificar se havia areia no encaixe (na baioneta não poderia haver nenhum tipo de sujeira, do contrário poderia destruir a câmera), voltar a lente na câmera e fotografar o momento em que Felipão levantava o troféu para a torcida muito emocionado. Foram segundos inacreditáveis.

Estava feita a capa do livro das fotos da competição que seria lançado alguns meses depois, intitulado “O Brasil É Alviverde Inteiro, Palmeiras campeão invicto da Copa do Brasil 2012”.

A foto tinha vários problemas técnicos. Pelo frio e pela queda no gramado molhado, a lente embaçou; o foco estava discutível; mas, sem dúvida, era a foto que representava a conquista de Palestra Italia, a emoção, a taça, a vitória. Foram segundos inacreditáveis e de muita sorte. No fim a foto cumpriu o papel de registar a história.

6. Primeiro ato

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Allianz Parque, 30 de outubro de 2014

O Allianz Parque estava pronto. Passados pouco mais de quatro anos de construção, uma arena suntuosa estava de pé para ganhar a alma vencedora palmeirense. Dentro de poucos dias, aconteceria a partida inaugural, e lá foram os representantes do verde de Palestra Italia para conhecer e, pela primeira vez, treinar na nova casa.

Nelson Coelho, repórter fotográfico das antigas, dos mais experientes, monstro do fotojornalismo brasileiro com vastas coberturas de competições esportivas no Brasil e no mundo em sua brilhante carreira, de quem gosto muito pela pessoa e profissional que é, sempre demonstrou grande interesse pela tradicional foto posada dos times antes do jogo. E ele tem razão: essa foto, além de tradicionalíssima, é o registro histórico de um time.

A imprensa estava presente em massa para cobrir um fato de relevância histórica, o primeiro contato da equipe do Palmeiras com a novíssima casa. Estava com a responsabilidade de não deixar passar nada. Tudo tinha de ser registrado, afinal, era história latente, viva e borbulhante acontecendo. Fotografei tudo que consegui.
Dos roupeiros aos jogadores, estavam todos lá. Sugeri que todos os presentes se juntassem no meio do campo para uma foto posada que não só resumiria em uma imagem a nova casa, como também registraria quem eram aqueles que inauguravam o campo para toda eternidade.

Fiz a foto e depois deixei a frente da pose para que os colegas de imprensa também tivessem a oportunidade de fazer a imagem. Agradeceram e a história da nova casa começaria a ser escrita a partir daquele momento.

7. Vitória da Conquista

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Vitória da Conquista x Palmeiras, 4 de março de 2015

Primeira partida da Copa do Brasil de 2015. Cheguei ao estádio umas quatro horas antes do início do jogo, como sempre faço. Vou com a rouparia para o campo, os ajudo como posso para descarregar a pesada “bausada”, arrumo meu metro quadrado de espaço para trabalhar no vestiário e aguardo tudo acontecer.

Ajeitei tudo e saí um pouco para espiar o campo. Fui tomado por uma imagem curiosíssima. O charmoso e bem cuidado estádio da cidade baiana era formado por um anel de arquibancadas em apenas uma das laterais maiores do gramado e todo cercado por fora por um bosque com árvores altas. A cena dava a impressão de um campo rebaixado em meio a uma selva densa.

A visão me cativou imediatamente e fiquei ali com os meus pensamentos acelerados que não paravam de me dizer: “Você tem de fazer uma foto disso! Você tem de mostrar isso de qualquer jeito!”. E sabia mesmo que teria de usar todo o poder do fotojornalismo para mostrar aquela curiosa e cativante cena. Mas também sabia que a tarefa era dificílima. Não há lente nem ângulo que permita com facilidade sintetizar a aquela cena e a informação que queria passar.

O grande barato da foto e da informação jornalística era o fato de que o Palmeiras, equipe normalmente retratada em cenários mais urbanos e em estádios na maioria tomados por concreto, agora estava submetido a um cenário de fundo bastante inusitado e diferente.

Tentei de todo jeito e estava difícil fazer uma foto que sintetizasse o pitoresco cenário. Mas, como a máxima do plantar e colher remete, Fernando Prass e o bom zagueiro Jackson sobem no segundo andar para rachar com o atacante da equipe local uma bola alçada na grande área. Fiz a foto, e quando a chequei no monitor da câmera, fui tomado por uma grande felicidade: havia conseguido o que queria, a síntese da informação, o fotojornalismo puro.

A foto foi um bom presságio. Boa foto do primeiro jogo da competição que venceríamos. Na partida final, consegui outra igualmente boa, representando um ciclo de início e fim de muita felicidade.

8. Divino

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Academia de Futebol, 12 de outubro de 2015

O dia era das crianças. A Academia de Futebol estava cheia delas para um evento com os palestrininhos. Ademir da Guia e outros grandes ex-jogadores do Palmeiras estavam lá para interagir com a criançada. Fui até o campo 1 com a minha câmera em punho para ver se podia fazer algo interessante.

Fiz umas fotos aqui e outras acolá quando, de repente, observo o Divino paralisar por um momento a atividade que ministrava com um grupo de pequenos. Estava a alguns metros de distância e quando vi a cena corri para não perder a foto.

O apelido que Ademir da Guia ganhou não é por acaso e não poderia ser outro. Seu Ademir é de uma humildade e mansidão de coração sem igual. Uma pessoa doce que não se faz valer de sua monstruosidade como ídolo, atleta e conquistas grandiosas de sua história para estabelecer o seu valor. Não é necessário, a divindade é natural e própria da essência dele.

O Divino abaixara para amarrar o cadarço de um dos pequenos palmeirenses num gesto dos mais simples e lindos. Havia ido ao campo para fazer um registro simples das atividades e no final das contas fui presenteado por uma foto essencialmente palmeirense.

9. Copa do Brasil 2015

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Palmeiras x Santos, 25 de novembro de 2015

Jamais tive tanta convicção em toda a minha vida sobre algo pertencente ao futuro quanto a certeza de que o Palmeiras chegaria e venceria a final da Copa do Brasil de 2015. A única ansiedade que sentia era a tradicional incerteza se conseguiria ou não boas fotos, bons registros, imagens que contassem a história.

Pênaltis. Prass, uma das principais figuras do título, ruma para cobrar. O burburinho da torcida era ouvido aos quatro cantos do Allianz Parque de Palestra Italia. O privilégio de acompanhar os treinamentos do Palmeiras é saber que Prass bateria o penal – e certamente converteria, pelo que eu havia visto em seus treinos de cobranças. Não me causava estranhamento Prass na última cobrança decisiva.

Nos pênaltis, os fotojornalistas buscam o melhor ângulo para fotografar a possível defesa do goleiro. Alguns metros à frente do escanteio na linha lateral. Mais ou menos na direção da linha da pequena área. Fui logo posicionando-me por lá. O fiscal não permitiria que ficássemos alí e indicou que fosse para a linha oposta.

Muito a contragosto e resmungando um bocado, fui para o outro lado. Quando cheguei lá, vi que muitos colegas tinham se posicionado exatamente onde eu queria ter ficado originalmente. A força da maior parte acabou vencendo a determinação do fiscal da Federação.

Fiquei bem bravo por ter seguido o indicado; no final das contas, poderia ter ficado lá. Caso perdesse a alguma comemoração importante, ficaria uma fera. Mas agora não havia mais nada a ser feito, a não ser contentar-se com o local onde eu estava e deixar nas mãos do destino. E que sorte eu tenho.

Fernando Prass posicionou a bola na marca da cal, tomou distância e soltou a pancada. Saiu correndo emocionado, a ponto de deixá-lo desnorteado de tanta explosão de sentimentos. Correu para o lado que estava. Bem na minha direção. Fiz toda a sequência da comemoração com a inigualável expressão que o rosto dele carregava.
Quando chegou bem próximo a mim, perto das placas da linha lateral, imagem que a minha lente 400 mm não mais podia enquadrar pela proximidade, saquei o mais rápido que pude a segunda câmera equipada com a grande angular, uma 16-35 mm, e fiz a foto que seria a capa do livro de fotos sobre a competição, intitulado “Da Vitória À Conquista, Palmeiras tri campeão da Copa do Brasil”.

Era o primeiro momento de comemoração de Prass com os outros jogadores que corriam a extensão do campo para abraçá-lo, o mais emblemático deles e da competição, com todo o cenário do Allianz Parque ao fundo efervescendo com a alegria dos torcedores. Estava ali do lado deles, atrás das placas de publicidade fotografando. Estávamos em pouco colegas por ali. Um ou outro conseguiu a foto. A maioria estava do outro lado. A história mais uma vez estava garantida.

10. O cajado de Moisés

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Corinthians x Palmeiras, 17 de setembro de 2016

Moisés ganhara o apelido de Profeta da torcida palmeirense. Um dia qualquer no vestiário lá estava ele se preparando, concentrado, aguardando sua vez para fazer uma botinha ou algum outro preparativo para enfrentar mais um prélio, quando disparou – Cesinha, onde você fica no campo? Expliquei e em seguida ele completou –Vou fazer um gol e pegar a sua câmera para simbolizar um cajado. Fiquei surpreso e disse que era só ir até mim que passaria a câmera no monopé a ele.

O tempo passou e ele fez um gol. Comemorou. Imaginei que havia esquecido da comemoração sugerida por ele. Passou um pouco mais o tempo e fomos ao estádio do rival para uma partida valiosa rumo à conquista do Brasileiro daquele ano. O jogo tinha um simbolismo e importância enorme, era um clássico, contra e na casa do adversário mais tradicional, valendo a continuidade da liderança e um passo precioso para a conquista do título.

Moisés cabeceou de peixinho após rebote e saiu para comemorar. Estava no lance e já iniciava a sequência de fotos da comemoração quando o reduzido quadro da minha quatrocentos milímetros mostrou ele apontando e olhando diretamente para mim em meio a emoção do gol. Surpreso, apenas pensei: “Ele lembrou e vai vir pegar a câmera”.

Fotografei o quanto pude até o quadro não comportar mais a sua proximidade enquanto corria a mim. Entreguei o monopé com a câmera equipada com a 400 mm, já sacando a reserva com a grande angular para fotografar o gesto do cajado. Foi muito legal a comemoração. Deu para me ver direitinho nas imagens da televisão.

A torcida do rival ficou atônita em silêncio assistindo a alegria do Profeta e seu cajado. Quando a comemoração acabou, um torcedor gritou intimidador – Estou de olho em você, hein! Profissional que sou, fingi que não ouvi e segui meu trabalho.

Vencemos a partida por 2 a 0 e, no final, o campeonato, somando nove conquistas de Brasileiros. O Profeta jogou muito. Mais tarde, em entrevista após deixar o Palmeiras, Moisés declarava que aquele gol foi o mais marcante que fizera na passagem dele pelo clube.

11. Brasileiro 2016

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Palmeiras x Chapecoense, 27 de novembro de 2016

Era dia de levantar a taça. Em pleno Allianz Parque de Palestra Italia cheinho de corações vibrantes, o Palmeiras venceu a Chapecoense e apoderou-se do título de Campeão Brasileiro pela nona vez em sua história. A festa estava completa.

O jogo marcava também a despedida de Gabriel Jesus. Negociado com o Manchester City, o menino Jesus deixaria o Palmeiras. Havia vencido recentemente a primeira medalha olímpica da seleção brasileira de futebol nos jogos do Rio 2016. Fernando Prass, também convocado para aquela seleção, machucou-se, desfalcando não só a seleção como o Palmeiras. Em seu lugar, Jailson fechou o gol e com méritos venceu o Campeonato Brasileiro.

Para apoiar o colega de clube e de seleção, Gabriel Jesus homenageou Prass nas comemorações da conquista da medalha olímpica. Em retribuição, na celebração campal que acontecia pelo título brasileiro, Fernando Prass pôs Jesus em seu ombro e desfilou com o menino. Muito emocionado, saudava os torcedores em tom de despedida e agradecimento. Fiz também uma boa foto desse momento.

Receberam todos as medalhas. Dudu, o capitão, levantou a taça em grande festa, e quando correu com o caneco para a volta olímpica, para apresentar a recente conquista aos torcedores, lá estava eu correndo para registrar os primeiros momentos do emocionante ato.

Fui o primeiro a chegar na frente da cena, Dudu carregando a taça em meio a um leve trote com um sorriso solto acompanhado dos companheiros de time. O símbolo do triunfo.

A imagem do sorriso espontâneo do capitão dirigindo o olhar para a torcida, os fogos disparados ao fundo iluminando o céu e anunciando a glória, os camaradas de equipe no entorno correndo no mesmo ritmo acompanhando a marcha vitoriosa, ainda imersos na emoção de serem campeões, dizendo algo feliz uns para os outros.

Foto que representa o primeiro instante de comunhão entre clube, time, torcida e o sentimento de ser campeão. Exclusiva, nem melhor nem pior do que aquelas conseguidas pelos colegas que estiveram lá para cobrir a conquista do Palmeiras, mas a que consegui, que ganhei de presente para ajudar a eternizar mais um sucesso da rica história do Palmeiras.

12. Cobertura

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Palmeiras x São Paulo, 11 de março de 2017

Em 2015, Robinho havia mandado um petardo do meio da rua e garantido a placa por um golaço de cobertura em pleno Allianz Parque, num clássico vencido por 3 tentos a 0 contra o time vizinho da Academia de Futebol. Ele repetiu a dose meses depois em pleno Morumbi.

Do primeiro gol, tenho a foto do momento exato em que a bola encontra o pé de Robinho ao chute para então viajar para o fundo do barbante. Do segundo, não tenho a foto; estava no lance, mas infelizmente outros jogadores ficaram na frente, impedindo a imagem.

O terceiro, alguns anos depois, foi de Dudu. O baixinho bom de bola e um dos principais jogadores do elenco palmeirense ficou com a responsabilidade de marcar mais um gol de cobertura à longa distância contra o rival. Após pressão de Egídio sobre o adversário, a bola sobrou para Dudu, que teve tempo de observar o goleiro adiantado e chutar. Golaço.

Foram gols marcantes e representados aqui pelo último, o de Dudu, no momento decisivo em que ele acabara de chutar e a bola tomava o rumo pelo ar em direção ao gol, ao fundo das redes para a explosão dos torcedores.

13. Segunda Academia

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Academia de Futebol, 28 de agosto de 2017

Em 1972, nem nascido era e o palmeirense já admirava a formação da Segunda Academia. Foi de perder a conta quantas vezes ouvi comentários saudosos daquele time. Todos começavam com a escalação na ponta da língua, depois vinham as descrições de jogadas e gols e logo em seguida a preferência por um ou outro jogador. Aquilo tudo intrigava meu imaginário. Tanto saudosismo e emoção para descrever um time. Enquanto criança, queria entender aquele sentimento.

O tempo passou e inacreditavelmente cabia a mim reproduzir a foto da Segunda Academia do Palmeiras feita lá nos idos da década de 70 com todos os ex-atletas que participaram daquele time. Foram escalados mais uma vez para remontar a foto como fora feita a época. Seriam também homenageados no banquete de aniversário do clube. Reunião que deu conta de uma porção de memórias.

O riso era fácil. Não abandonava o meu rosto. Finalmente entendi o porquê de tanto saudosismo. Foi mesmo um grande privilégio participar de um momento tão singular da história do Palmeiras, a reunião daqueles que marcaram época de tantas conquistas e glórias.

E lá estavam Ronaldo, Eurico, Leão, Dudu, Luís Pereira, Alfredo Mostarda, Zeca, Polaco e Mario Motta (em pé); Edu Bala, Levinha, Cesar Maluco, Ademir da Guia e Nei (sentados), como na foto do passado, todos vivos e ostentando o brasão de Palestra Italia no peito mais uma vez.

14. La Bombonera é nossa

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Boca Juniors x Palmeiras, 25 de abril de 2018

O jogo era na Bombonera. Seria a primeira vez que, em tantos anos de futebol, eu cobriria um jogo naquele estádio que povoa o imaginário dos que gostam e acompanham o esporte. Comigo não era diferente, tudo que tinha na cabeça era o que ouvira dizer a respeito da praça esportiva e suas peculiaridades.

Estava mesmo preocupado com a estrutura que teria para trabalhar. Ouvia sempre de colegas que conheciam o estádio os problemas enfrentados pela falta de espaço para trabalhar e a proximidade com o alambrado e os torcedores. Jogo fora, em outro país, jamais sabemos ao certo o que vamos enfrentar.

No final, tudo acaba dando certo.

A Bombonera é mesmo bastante curiosa e interessante, mas, pelo menos de dentro de campo, não igualou as expectativas do meu imaginário, e a proximidade com o alambrado e os torcedores e o pouco espaço de recuo para trabalhar não foram problema. Preocupação a menos para concentrar-se nas fotos do jogo.

Estreei com pé direito. Vencemos o Boca em plena Bombonera. Assim como o Palmeiras em sua casa, o time argentino é muito difícil de bater em suas dependências. E vencemos. Gols de Keno e outro belíssimo de Lucas Lima que me presentou pelo debute com uma foto bem legal de sua emoção pelo tento marcado.

Comemorou bem próximo onde eu estava posicionado, ali de frente com a bandeira de escanteio. Quando recebeu o abraço dos companheiros de time, saquei da segunda câmera velha de guerra equipada com a grande angular para fazer a foto que mostrava o abraço do grupo com Lucas Lima de costas apontando para cima. O ângulo que fiz a foto sugeria que o meia palmeirense estava apontando para a torcida do Palmeiras, que estava acomodada no anel superior oposto do estádio logo acima da do time da casa.

Entre imaginário e realidade, a experiência no estádio foi das melhores por conta da vitória e da foto que havia feito.

15. Deca Brasileiro 2018

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Palmeiras x Vitória, 2 de dezembro de 2018

Mais uma vez o Palmeiras estava no topo da tabela, disputando ponto a ponto um título brasileiro. O dia de soltar o grito de campeão aconteceu no estádio do Vasco. Sensação das mais gostosas para o apaixonado torcedor. Do campo foi inesquecível.

A torcida de Palestra Italia estava no canto oposto ao gol onde o tento determinante foi marcado. O torcedor local do time carioca emudeceu as suas dependências com o gol contra a sua equipe, e lá ao longe ouvi as galerias do verde levantarem o grito em ápice de alegria.

Como sinfonia comandada pelo maestro, os sons da emoção palmeirense iniciaram ao longe, chegando ao clímax orquestralmente com o silêncio dos adversários em meus ouvidos. Muito legal e curioso sentimento.

Receberíamos a taça em casa, no próximo jogo, último do campeonato, quando então a festa estaria completa. Vencemos o Vitória da Bahia com casa cheia para assistir o capitão Bruno Henrique alçar o caneco aos céus e explodir o coração da gente de Palestra Italia de satisfação.