O Palestra Italia foi Brasil no Dia da Independência

O Palestra Italia teve de absurdamente mudar de nome em 1942 sob a infundada acusação de ser traidor da pátria em guerra contra o Eixo.

Justamente o clube que foi o Brasil como nenhum outro time em torneio internacional, na decisão da Copa Rio contra a Juventus italiana, em 1951.

Justamente a Academia que vestiu a camisa brasileira há 52 anos, nos festejos de inauguração do Mineirão.

Djalma Santos, Valdir, Valdemar Carabina, Dudu, Filpo Núñez, Djalma Dias e Ferrari; Julinho, Servílio. Tupãzinho, Ademir da Guia e Rinaldo

Timaço que era a própria Seleção, convidada pela CBD para representá-la:

Brasil 3 x 0 Uruguai, no Mineirão.

Ou melhor: Palmeiras 3 x 0 Uruguai.

O único argentino a dirigir o Brasil, Filpo Núñez, armou o time para jogar com velocidade e toque de bola, evitando o jogo duro uruguaio – de uma seleção que faria bom papel em 1966, na Copa, e cuja base era o Peñarol, campeão do mundo naquele mesmo ano.

Rinaldo fez 1 a 0, aos 27, depois de Cincunegui meter a mão na bola em lance de Julinho Botelho. Pênalti que também poderia ser marcado sobre Rinaldo, três minutos depois, mas o árbitro não marcou em consideração ao convidado.

Aos 35, Tupãzinho ampliou, depois de lance de Rinaldo e confusão na área.

Com reservas (Picasso no lugar de Valdir, Procópio substituindo Carabina, Zequinha marcando por Dudu, Ademar Pantera no comando de ataque no lugar de Tupãzinho – e mais tarde Germano e Dario entrando nos lugares de Julinho e Rinaldo), o Palmeiras diminuiu o ritmo e ainda assim fez 3 a 0, aos 29 do segundo tempo, num rebote completado pelo ponta Germano.

Além do reconhecimento histórico e inestimável, o Palmeiras ficou com Cr$ 18 milhões pelo prêmio da vitória.

Era um time que não tinha preço, a Primeira Academia palmeirense. Convidada para a festa pela CBD de João Havelange e também por ideia do governador mineiro Magalhães Pinto, palmeirense, e admirador daquele time que venceu os dois turnos do Rio-São Paulo de 1965, cancelando as finais do torneio.

Valdir era um goleiro notável, de colocação, segurança e tranquilidade que não cabiam em apenas 1,72 m; Djalma Santos fazia a sua partida 90 pelo Brasil como se fosse a mesma, sempre regular; o raçudo (porém técnico) capitão Valdemar Carabina espanava a área; o hábil Djalma Dias (pai do ainda mais genial Djalminha) limpava e brilhava o jogo; o veloz ex-ponta-esquerda Ferrari completava a defesa pela qual ninguém passava; Djalma avançava, mas sem desguarnecer a direita. O incansável “vovô” e volante Dudu o cobria quando necessário; mais rápido, Ferrari também gostava de atacar, até por ter sido ponta, no Guarani. Se Julinho caía por dentro, na diagonal, Djalma aproveitava (sem ir ao fundo). Ferrari também tinha espaço para se projetar, porque o ponta-esquerda Rinaldo gostava de fechar, sabia armar e batia muito bem na bola.

Só não era meia porque o 10 era Ademir da Guia.

Quando avançava, Djalma Santos trabalhava com Julinho, até pelo entrosamento dos tempos de Portuguesa. Ele não atropelava o ponta-direita. Sabia a hora. Conhecia o espaço. Dudu e Ademir compunham o meio-campo histórico. Servílio os ajudava sem a bola e se aproximava do centroavante (Tupãzinho ou Ademar Pantera) quando o time saía para o jogo. Era um 4-3-3 que se transformava em 4-2-4 com a bola.

O entrosamento perfeito da equipe também se deu pelo trabalho de Filpo Núñez, o condutor da Primeira Academia, como explica o goleiro Valdir Joaquim de Moraes: “Ele era muito bom treinador. Sabia tudo. Conhecia o futebol, e a alma dos jogadores. Ele falava muito com a gente. E também ouvia”.

Djalma Santos lembrava o porquê do sucesso do melhor time em que atuou: “Era um time de bons jogadores, unido, valente, sem estrelismo. Todo mundo perdia, todo mundo ganhava. Funcionava assim. E por isso funcionava”.

E funcionou demais há 52 anos. Foi 3 a 0. E foi muito pouco. Nas palavras do zagueiro Manicera ao jornalista Juarez Soares, ainda no gramado, a melhor tradução do que fez o Palmeiras contra o desfalcado (mas forte) time uruguaio: “Se vocês brasileiros quiserem ganhar a Copa na Inglaterra, é só colocar esse time aí. Ninguém vai aguentá-los. Ah, e reforça com o Pelé, claro. Mas não tira nunca esse Ademir do time.”

E ele não foi para a Inglaterra, como Servílio (o melhor jogador da Seleção no pré-Copa, absurdamente cortado por Vicente Feola), e Djalma Dias, e Dudu, e Valdir. E o Brasil veio mais cedo para casa, também.

Dos 17 que atuaram em Belo Horizonte (Santo ficou no banco), apenas Ferrari, Dario e Tupãzinho não haviam jogado ou não atuariam mais pela Seleção. Tupãzinho, diga-se, um absurdo só ter sido convocado uma vez.

Julinho não atuaria mais pela Seleção. Foi o jogo de despedida dele. Não tinha condição de jogar os 90 minutos. E ainda assim jogou demais.

Como nenhuma outra equipe tão poderosa representou tão bem o Brasil como aquele Palmeiras que soube ser brasileiro há 52 anos.

Data: 07/09/1965

Local: Mineirão

Renda: Cr$ 49.162.125,00

Juiz: Eunápio de Queiroz

Gols: Rinaldo (27’), Tupãzinho (35’) e Germano (74’)

PALMEIRAS: Valdir (Picasso); Djalma Santos, Djalma Dias, Valdemar Carabina (Procópio) e Ferrari; Dudu (Zequinha) e Ademir da Guia; Julinho (Germano), Servílio, Tupãzinho (Ademar Pantera) e Rinaldo (Dario)

Técnico: Filpo Núñez

URUGUAI: Taibo (Fogni); Cincunegui (Brito), Varela, Manicera e Caetano; Nuñez (Lorda) e Duksas; Franco, Héctor Silva (Vingile), González e Espárrago (Morales)

Técnico: Juan López