As lembranças da anarquia

As lembranças da anarquia

Saudades daquele tempo em que tínhamos quase nada. Não que isso desmereça os tempos gordos pelos quais passou o clube. Apenas aumenta o sabor da gloria, mas que falta faz a sensação desesperadora de recorrer aos santos dos quais nem se é devoto, à religião que parecia distante. Valia tudo pra, quem sabe, mas quem sabe, ter a sorte da vitória.

Não há louco no mundo que recuse o sucesso. Ele é maravilhoso, uma macarronada saborosíssima, mas é tão boa a sensação da busca pelo quase impossível e por motivos nada plausíveis, a sensação de chegar lá. A anarquia do futebol gera a possibilidade de fugir ao provável, ao natural. Nada se garante nesse universo. Não existe a certeza concreta, definitiva.

Cruzeiro vencia por 3 gols de vantagem. Era um vexame lendário. Os olhos, ainda que imaginando uma ilusão, viram tudo se estremecer e o empate acontecer. Quem poderia?

Fosse aquela uma vitória tranquila por 2 a 0, sem sustos, a lembrança não seria tão gostosa, tão tangível, tão possível de abraçar, de acariciar. Vocês todos sabem o que sentiram quando o chute do empate venceu Fábio. Móveis voaram, a cama foi espancada, sua voz ficou finíssima. O coração, na mão.

Que sabor ameno e pálido teria aquela noite se o pênalti de Borja fosse gol. Uma vitória por 3 a 1, ritmo de treino, pontos importantes. Uma volta pacífica pra casa. Quem viveu o gol aos 54 minutos sabe o tamanho daquela miragem.

O pior do time, quando já nada poderia se resolver, vai aos céus, quase racha a testa com seu parceiro de time, e desaba o estádio, o país. Mente quem diz que não chorou de emoção. De raiva. De tesão por aquele momento. O treinador mostra veia e explode. O elenco surta. Os decibéis vão além do suportado pelo tímpano. É essa a graça. É tão feliz.

Somos saudosos do improvável. O Almeida do cronista que me fez jornalista. É maravilhoso ter a certeza que os seus são capazes de vencer, sempre, mas era deliciosa aquela incerteza incólume e nervosa de saber apenas que tudo poderia acontecer. O Palmeiras é o time rico, glorioso e dominante, mas o palmeirense é coração. E ele liga muito, mas muito pouco para as certezas da bola.

Ele liga pra paixão com a qual se joga.

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  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.