Edmundo são animais

Edmundo são animais

Edmundo tem nome de craque. Genial e genioso. Sanguíneo. Parece dos nossos desde o berço. Mas o melhor é que não nasceu palmeirense. Virou. Amo quando eles amam nosso time como se fosse o deles como é o nosso desde sempre. "Aprender" a ser palmeirense deve ser maravilhoso como é nascer sendo.

O Edmundo de quem falo aqui é de origem italiana. É como milhões que só podiam ser. E se não houvesse Palestra para ser palmeirenses talvez eles fossem outro clube. Certamente eles seriam outros seres.

Edmundo tinha que comer macarrão todo domingo com toda família no almoço. Sagrado como o Divino. A família Palmeiras como a do Edmundo é a única. Amada todo o tempo. Briga o tempo todo. Mas Edmundo só queria vê-los por perto como o nosso time.

"Mas não era apenas o sangue italiano que corria forte nas veias, ali tinha muito do nosso Brasil. Meu pai não amava apenas futebol, ele cornetava até partida de curling nas Olimpíadas de inverno. Ele adorava esporte. Ele respirava futebol, e ele amava o Palmeiras. Amor que passou para a mulher, para os filhos, para a sobrinha, e, agora, por último, para o amado neto, Davi. Ele que nos ensinou a jogar bola, ele nos ensinou a amar o Palmeiras na mesma intensidade que ele amava. Inclusive, perdeu alguns dedos da mão direita durante a comemoração do titulo da Libertadores de 1999, com rojão".

O Edmundo pai da Letícia amava Edmundo. "Dois animais". Ela lembra que coração de pai sempre cabe mais do que 11. "Marcos, Alex, como exaltava a classe do Ademir da Guia, Rivaldo. Como sabia a escalação de qualquer time do Palmeiras. E não lembrava apenas dos bons jogadores, mas dava risada lembrando daqueles dignos de @jogueinasep que ele teve que aguentar vestindo o manto. Não teve um unico técnico que passou no Palmeiras que ele não tenha chamado de burro, nem Felipão nem Luxemburgo". Frase típica da corneta: "nem meu time da várzea é tão mal treinado assim".

San Lorenzo, em 1999, foi o primeiro jogo da Letícia, no velho Palestra. "Foi ele quem me deu a primeira camisa do Palmeiras, a primeira bandeira. E fui eu que o levei no primeiro clássico dele contra o Corinthians no Allianz Parque. 2016. Gol do Cleiton Xavier".

Edmundo torcia até pelas obras da nova arena. "Não tinha um dia que ele não acompanhava pelo site. Eu costumava dizer que ele já até conhecia os pedreiros".

Todo jogo a Letícia tinha a função tática de fazer pipoca para eles. Era pela TV, ou pelo rádio com o Silvério ou com o Ulisses. Ou pelo celular. Mas sempre com pipoca. E com ele ao lado do time que era tão dele como a família. Com briga. Com discussão. Com vida.

Se não tinha Palmeiras, tinha o Brasil. "A Seleção não ganha Copa sem jogador do Palmeiras, não adianta!". E ainda tinha o Manchester City pra torcer. Quer dizer. O clube onde foi jogar o Gabriel Jesus.

"Meu pai respirava futebol, e não importava a qualidade técnica, não. Ia da serie C a Premier League. Tudo era futebol. Ele gostava de ver jogo inclusive na padaria santista e no bar do Toninho, em Santos".

O coração bateu e trabalhou tanto nessa vida que ele só podia parar no feriado. No dia do Trabalho. E 19h, depois do expediente.

"Uma pessoa tão agitada, fervorosa, alegre, nunca tinha tempo ruim pra ele, viveu tão intensamente, torceu tão intensamente, cornetou tão intensamente que seu coração cansou. No mesmo dia que um dos seus maiores idolos do esporte faleceu, Ayrton Senna".

Edmundo deixou Letícia. Mas ela sabe que não. "Eu perdi meu melhor e maior companheiro de jogos. Mas sei que ele vai continuar a assistir aos jogos comigo, a nossa rotina não vai mudar, mesmo que sem ele fisicamente presente".

Vai ser como a final da Copa do Brasil contra o Santos que tão bem conhecem. Edmundo levou a filha para ver Prass. Ela estava lá dentro celebrando. Ele ficou lá fora torcendo em volta do Allianz Parque.

Só pra a levar e trazer de volta para casa. Só pra levar e trazer a maior alegria de um pai. Fazer um filho que é como ele: palmeirense.

"Ele me ensinou tanto. Mas, de longe, amar o Palmeiras foi a melhor coisa que o senhor me ensinou. Fica com Deus, pai. Fica com seus pais. Sei que daí vocês vão olhar por nós e pelo Palmeiras".

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.