Um dia é do Casão, outro é na nossa casa

Um dia é do Casão, outro é na nossa casa

Frio pra acordar naquela primeira segunda de agosto. Para encarar o colégio depois de um 5 a 1 para o Corinthians. Três do Casagrande. A maior goleada deles em Derby. Mas tinha aula no Dante. Primeiro colegial. 1982. Uma gelada.

Na primeira segunda de agosto, em 1986, não lembro sentir tanto frio para encarar aula de Direito na São Francisco. Porque a gente havia devolvido os 5 a 1 no Derby na véspera.

Um dia é do Casão, outro é da nossa casa. A gente precisa lembrar sempre isso para a gente lembrar que ainda é gente.

O jogo vira. Nossa vida, também. O líder pode perder a ponta, só não deve se perder. O Felipe Melo que se perdia se reencontrou com o jogo, com a bola, usando a cabeça como deve no gol de empate em Itaquera. Quando subiu mais do que todos, e ainda mais no meu conceito.

Não tem derrota definitiva. Mesmo os 4 a 0 de 1993 eles podem devolver. Desde que saiam de uma fila contra a gente. Mesmo o 1 a 0 de 1974 eles também podem. Desde que nos deixem uma vez na fila nos vencendo.

O jogo da nossa vida jamais será o da morte. Nem por ironia infeliz do Felipão, nem por ameaça criminosa de torcedor (SIC).

Na vida mais se empata do que se Palmeiras ou do que se perde. Precisamos aprender isso. Como também respeitar quem tem história. Como Felipão. Como Gildo que partiu pouco antes do clássico.

Nosso ponta que marcou em 1968 seu último gol pelo Palmeiras em um Derby. O segundo dos 2 a 2, aproveitando rebote do goleiro Lula. Gildo que marcou seu primeiro gol com a gente também num Derby, em 1961. Ele descontou um 2 a 0 deles depois de grande lance de Julinho. Ele empatou 2 a 2 recebendo de Chinesinho. O Corinthians fez 3 a 2. Aos 44, depois de falta cobrada por Geraldo e saída errada do goleiro deles, Zeola de bicicleta empatou. 3 a 3!

Na tribuna de imprensa do Pacaembu, meu pai repórter do jornal O ESPORTE, em nome da Sociedade Esportiva Jornalismo, começou a dar bananas para a torcida alvinegra. Teve de sair escoltado do estádio. Chegou à redação, escreveu o texto a respeito do 3 a 3, e depois a carta de demissão do jornal. E do jornalismo esportivo.

Não sabia perder. Nem mesmo empatar. Ao menos admitiu.

Precisamos aprender. Tanto quanto lembrar histórias como a de Gildo. Das goleadas de 1982 e 1986. 1974 e 1993. A virada de Felipe Melo.

Ah. E sempre lembrar que num 4 de agosto a gente só tem a ganhar celebrando aniversário de São Marcos. Canonizado num Derby. Inspiração divina como Ademir para o Cássio defender aquela bola do Deyverson.

Vive de passado quem tem história. E só tem futuro quem a respeita.

  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.