Juninho, zagueiro do Verdão (Foto: Djalma Vassão/Gazeta Press)

A maior vergonha que soube de alguém jogando futebol tinha envolvido Klauss. Tá bom, admito: isso até ontem. Mas já falo sobre o que aconteceu no Allianz Parque. Klauss, meu amigo e parceiro da família, mero desconhecido para os amantes do futebol, conseguiu o inédito e impossível: uma vez pisou na própria mão. Virou motivo de piada. E a chacota, que ocorreu nos anos 80 com o homem de hoje seus 50 anos, segue viva. É só ter um encontro entre a turma da época que alguém inevitavelmente lembra e diz: ‘Puxa vida, hein, Klauss? Lembra daquele dia? Como você fez aquilo?’. E Klaus responde, rindo, com a mesma naturalidade do lance histórico. Os outros gargalham. E eu também.

Confesso que não sei como o fato se consolidou. Se Klauss pisou na mão ao marcar um adversário e escorregar, se Klauss pisou na mão buscando defender uma bola ou se Klauss pisou na mão ao tentar pegar alguma coisa no chão enquanto a jogada acontecia. Não faço ideia se ele jogava como goleiro, zagueiro, meia ou atacante. Se era campo, terrão ou salão. Se o time tinha cinco ou dez em campo. O que sei é o mais relevante: Klauss pisou na própria mão.

Ontem, porém, Juninho fez o improvável e superou o meu brother. O gol contra marcado diante do Cruzeiro foi pior do que o pisão de Klauss. Já vi muitos contrários ao próprio patrimônio e poderia listar aqui. O de Oséas, Júnior Baiano, Marcelo e por aí vai. Os muitos do especialista Pará. Mas de canela, mostrando extrema falta de simpatia com a bola, até agressividade e raiva contra a redonda, isso eu jamais pensei ver. Ela, a bola, saiu mais dolorida do encontro com Juninho do que a pobre mão do meu amigo. Se o atual cinquentão ficou com as marcas dos cravos da chuteira, a bola guardou as manchas da ruindade. Jamais desaparecerão. Nunca senti tanta vergonha alheia como nessa segunda-feira.

Juninho, meus amigos, é mais comprometedor do que mandar nudes em grupo de WhatsApp e depois fingir que nada aconteceu. De cabeça erguida, sem querer se esconder em um buraco no chão, assim seguiu Juninho em campo.

Se Juninho tivesse vivido grandes momentos do mundo, talvez ele mesmo piorasse algumas situações vitais da humanidade. Na disputa entre o capitalismo e o socialismo, por exemplo, com a divisão entre as ideologias e o quase possível acordo, chegaria a questão inevitável. ‘Minha ideologia domina tais países. Você fica com a outra metade e mais o Juninho’. ‘De jeito nenhum. O Juninho de jeito nenhum!”, exclamariam os russos aos americanos, inconformados com a proposta. A guerra fria esquentaria. A mesma coisa com o Tratado de Tordesilhas. Espanhóis e portugueses brigando para quem não herdaria Juninho. Romanos, gregos, troianos, alemães e o mundo inteiro, em todos os tempos, desesperadamente negando a presença de Juninho. E assim vai. Ele é quase uma unanimidade.

O Palmeiras, porém, contraria o planeta: contrata e escala Juninho.

Que contraria a lógica: supera e humilha Klauss.

Vida que segue, amigos. Canelas e mãos protegidas. Vamos em frente.

Mas em frente, Juninho. Pra frente…

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Guilherme Cimatti
Guilherme Cimatti é repórter da equipe esportiva da Rádio Bandeirantes de São Paulo. Já passou por BandNews FM, Estadão, Globo e CBN. Sempre trabalhou em rádios, mas tem uma queda por crônica. É admirador da leveza de Rubem Braga, da poesia de Armando Nogueira, da sinceridade de Nelson Rodrigues, da combinação de palavras de Mauro Beting, da facilidade de Luis Fernando Verissimo e da paixão de Fabrício Carpinejar. Fã de Xico Sá (mas longe de ser jurubeba), dos Pratas e de mais um monte nesse rio de literatura. Curte adjetivos. É apaixonado pelos pequenos detalhes.