Perdemos no nosso portão

Perdemos no nosso portão

Eu vi a recepção histórica, memorável, do lado de fora do estádio, antes de Palmeiras X Boca. Eu senti que as arquibancadas chacoalhavam com os mais de 40 mil, que ainda eram uns 36, 37 mil palmeirenses, mas senti, do chão, do asfalto que abrigava uma multidão que se acumulou no Portão C, para o setor Central Leste.

Cheguei cedo, meio da tarde. Passei o dia nos arredores de casa e com uma companhia grande de alviverdes que se recusavam a esperar a hora chegar e preferiam viver o jogo. O clima era enorme, vocês sabem, mas o que era um corredor humano, na Matarazzo, virou uma correria de gente que não sabia para onde ir. De policiais que não sabiam para onde mandar.

Não tinha vilão ali.

Eles tinham que abrir caminho, nós tínhamos um caminhão de emoções para despejar. A truculência acabou se fazendo presente em vários exageros dos vários exagerados com farda e sem. Todos unidos em uma disputa cujo protagonista assiste de camarote. Literalmente.

Feita a festa sob chuvas e rajadas, o caos.

Mal o relógio fazia a nona volta de hora e estávamos no portão C. Uma multidão que ignorava caminhos, filas, espaços. Crianças, senhores, senhoras, sem ninguém que orientasse. Não andava. Não mexia. Mexeu com os nervos do amigo da frente que veio de Rondônia para ver seu time e não conseguiu cantar o "meu Palmeiras" que sonhava. Aos poucos, a barreira policial, mais uma vez sem culpa, liberava meia dúzia de sofredores que encaravam outra gigantesca fila em que os tão inocentes quanto, funcionários das catracas (faltou algo?)

Mais gritaria. Mais xingamento. Mais aperto. Para alguém de 1,70 m, o ar chegava bem meia boca. O céu iluminado em fogos e nós, lá fora. Os quase 300 reais de cada um geravam o orgulhoso anúncio de prováveis 4 milhões de renda.

Faltou uma mensagem de respeito. Uma satisfação caso devêssemos chegar antes. Alguém dando um retorno. Um aviso. Uma mão. Sobraram mãos com raiva e gesticulando: “libera aí, libera aí”. Foi um rio de dinheiro e quase uma chuva de lágrimas.

Será que vale tudo isso por um jogo, poderiam pensar os amassados e sem acesso. E pra você, clube?

Não sei até que ponto, Palmeiras, o seu milhão vale mais do que os mil quilômetros que seu torcedor percorreu pra te ver e foi tratado como gado.

Com todo respeito ao belo tratamento que o gado recebe.

Tags:
  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.