Com vozes que ecoam em dó e dor, diretamente da alma, e apenas com a percussão, a batida do coração alviverde, como compasso, a Mancha Verde abre seu carnaval de 2019 com um manifesto em homenagem à raça, à saga e à luta da pele negra.

“A alma que chora, a pele que sangra
Qual será o meu valor?
Entrego minha vida
Rainha do mar, Iemanjá”

Dona Norma, certamente, se derrete em orgulhos de ver sua escola trazer ao Anhembi um samba enredo que toca na sofrimento de um povo e que coloca na avenida a história de uma princesa negra que, segundo o carnavalesco Jorge Freitas, um camisa 10 que já havia namorado com o branco, o verde e o vermelho em outros momentos e agora é o senhor da Mancha Verde, tem a intenção de:

“Contar uma negra que nasceu princesa, foi escravizada, trazida ao Brasil como escrava e aqui lutou por seus direitos, igualdades. Foi Quilombo dos Palmares, fez sua grande menção aqui na terra. Foi Mãe de Ganga Zumba e vó de Zumbi dos Palmares. E num momento tão forte para o mundo, vamos lutar contra a desigualdade racial e a intolerância religiosa”.

Estado laico cada dia mais suscetível às intempéries dos poderosos, o país vê o Carnaval, mais do que nunca, falar em tom de manifesto, de grito libertário e de celebração às grandes e tristes histórias que construíram a sociedade moderna. E a proposta que surgiu pelas mão do presidente da agremiação, Paulo Serdan, trará também a luta pelos direitos dos negros e das mulheres e contra a escravidão.

“África, reluz o encanto e a nobreza
A fé conduz o povo a lutar
Tristeza marejou meu olhar
Oh senhor, tem piedade
Dos corações sem liberdade”

Mareja o nosso, de quem ouve a dor em nota no samba composto por Sereno, Chefia, Darlan Alves, André Ricardo, Rodrigo e Rodolfo Minueto e Gui Cruz. A Mancha vem com Freddy Vianna no gogó e com a Pura Balanço para fazer cantar a torcida palmeirense e toda a comunidade que tem raizes, que é capaz de sentir mais do que a apenas a própria vida.

A Mancha Verde volta ao Anhembi após atingir a mesma pontuação de mais duas escolas e perder o título nos quesitos de desempate. Na madrugada deste sábado, com desfile previsto para 1:25 da manhã, a agremiação da torcida do Palmeiras, com aporte da Crefisa por meio da Lei Rouanet, fará mais um desfile com credenciais de vencer a Liga pela primeira vez.

Com amor à história e respeito às dores, a escola tem a chance de, acima de qualquer coisa, fazer de um enredo e de um samba, uma ode ao que há de bom no mundo, um olhar humano, sensível e carinhoso sobre a época mais sombria e cruel pela qual a humanidade já passou. A música sempre será melhor forma de iluminar o mundo.

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