Walter Palestrino, o porconvensor de infiéis

Walter Palestrino, o porconvensor de infiéis

“Meu pai não é doente pelo Palmeiras. Não é fanático. Ele apenas ama o Palmeiras como ele ama a família. Isso é amor. A minha mãe aprendeu rapidinho. Ele converteu muita gente da família dela que era corintiana e que virou palmeirense. Minha mãe sabia que a amante dele nos 54 anos de casados foi o Palmeiras”, conta a mais palmeirense da prole, a filha Leslie, a terceira depois da Eliane e da Mirna.

Walter da Silva amava dona Leila como venerava Ademir da Guia e Jair Rosa Pinto - que um dia conhecera e para sempre lembrava a conversa que tivera. Por isso ele gostava de ser chamado de Walter palmeirense. Ou melhor: palestrino. Com a missão de catequizar e trazer para o lado verde da força quem ele pudesse.

O filho caçula Michel não conseguiu ir aos estádios tantas vezes com o pai. Mas na TV não perdiam jogos. Na final da Libertadores de 1999, Walter estava muito nervoso e apelou como de costume: foi tomar banho no meio do jogo. Depois voltou e, quando foi pros pênaltis, ele foi pra cozinha, olhar o futuro pela janela. “Meu pai só via os replays dos pênaltis. Nem viu quando o
Zapata do Deportivo Cali chutou pra fora e ganhamos”. Michel não esquece as emoções do pai amoroso: “Lembro todos os olhares dele no jogo. E ele dizendo que não tinha coração para aquilo...”

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CORAÇÃO DE PAI

Mentira. Walter tinha um coração do tamanho do Palmeiras. E da corneta para quem não gostava. “Meu pai passava janeiro montando e desmontando o elenco. Sugeria negociações bizarras. Achava que era só oferecer cinco pernas-de-pau para o Flamengo em troca de Zico”, conta Michel.

Se não daria bom cartola, seu Walter sabia trabalhar. Também porque o pai dele não o deixou seguir na lateral da várzea na Vila Alpina paulistana. “Pobre não pode jogar bola. Tem que trabalhar!” Assim conheceu Leila. Casaram e foram morar em Londrina. Já tendo convertido parte da família da mulher ao palestrinismo. Toda ela era corintiana ate o catecismo dele.

O primeiro foi o cunhado Fausto, já batizado palestrino desde criança. O filho dele César também é maluco pelo Verdão. Roupas de bebê, flâmulas, chaveiros, camisas e ingressos para ver o Palmeiras em campo faziam parte do kit-vira-casaca de Walter. Uma vitória por 3 a 1 no Rio-São Paulo foi suficiente para a primeira comunhão do cunhado Fausto com o time do Divino. E do ídolo Tupãzinho da Primeira Academia. Fausto jamais esqueceu a honra de levar até o restaurante Demarchi, em São Bernardo, a bandeira oficial do clube depois de um amistoso no ABC. Quando foi oferecido um jantar ao elenco palmeirense e Fausto pôde conversar com seus ídolos e heróis.

Tudo culpa do Walter. São hoje mais de 15 palmeirenses na família por causa dele. E da filha que hoje segue com a missão do pai.

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TUBARÃO-PORCO

Leslie foi ainda menina morar com os pais em Londrina, nos anos 70, logo depois da inauguração do estádio do Café. Ela ia a todas as partidas vestida de Palmeiras. Com uma camisa que virava vestido. Também foi mascote do Tubarão da cidade. Mas bem orientada pelo pai: “Enquanto a gente morar em Londrina, a gente torce por ele. Mas a gente sempre vai ser Palmeiras em todos os lugares e pra sempre”.

Leslie foi inoculada pelo mesmo vírus do pai. Fez questão de manter o legado. Tem quatro filhos. Isabella, Arthur e os gêmeos Lorenzo e Lucca. Ela correu o risco de os perder para o Santos de Neymar. Ainda mais com o Palmeiras na Série B, em 2013. Mas Leslie não tirou o time de campo. Foi a quase todos os jogos com os pequenos gêmeos no Pacaembu. Falava de tudo que fizera Marcos pelo Verdão. Incentiva a idolatria a Valdivia. Ia até os treinos para tirar fotos com Marcos Assunção. Fez os gêmeos mascotes do time. Comeu sanduíche de pernil com eles. Garantiu a herança.

O avô deles também fazia de tudo. Criou o hábito que os meninos ainda têm de ler o “LANCE!” Walter colecionava a revista “Placar” e também o diário. Era outro legado para a prole a quem desde cedo ensinou o Hino.

“Não podemos perder esses meninos” falava para Leslie. A netinha Valentina, filha do caçula Michel, gostava de provocar. Um dia gritou “Vai, Corinthians” na mesa. O avô estrilou. Pediu pulso firme aos filhos. A própria netinha encerrou a questão: “se você é palmeirense, vovô, eu vou ser palmeirense”. Como ficaram os gêmeos que até hoje dormem uniformizados. Tão palmeirenses quanto a irmã mais velha que sempre foi ao estádio. Mas nem sempre consegue ver o jogo. No Allianz ou em casa. Culpa da superstição.

É estatístico! Contra “fatos” não existem argumentos... Um dia Isabella saiu da sala e saiu gol do Palmeiras: “Quando a gente tá perdendo ela tem que sair da sala de TV pro time empatar. Se ela está no arquibancada, ela vai comprar água. Pipoca. Vai dar uma volta no estádio até sair gol...”, exige a mãe. Mas não é só a Isabella e nem o nosso técnico que tem esquema tático e funções bem definidas. “Quando vemos jogos em casa, todos ocupam os mesmos lugares no sofá. A hora de fazer pipoca é sempre a mesma. As celebrações são sempre iguais”.

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A CASA É NOSSA

Walter converteu a família ao Palmeiras. O clube uniu a família. Tudo fizeram pelos dois. No processo de batismo alviverde dos gêmeos, Leslie levou o pai junto para ver as obras da nova arena. Ele fez questão de ir para ver o novo palco da torcida. Mas torcendo o nariz para a novidade: “meu pai achou o Allianz Parque muito moderno. Europeu demais. Ele ainda queria guardar a lembrança do velho estádio que ele tanto amava”.

Como o Pacaembu. Quando Walter foi conhecer o Museu do Futebol, chorou só de ver o portão aberto para o gramado onde a luta e tantos títulos aguardaram o Palestra e o Palmeiras.

SENTADO À DIREITA DO PAI

O filho caçula estava trabalhando no hospital em 2014 quando soube que Leivinha, Dudu e Ademir da Guia estariam no SESC São Caetano. Conseguiu convencer o pai que não queria sair de casa, meses depois da morte da mulher. Foram ao evento, cantaram o Hino, ouviram histórias. Até que foi liberada a conversa com os craques da Academia. Walter criou coragem e cumprimentou e abraçou Leivinha. Depois Dudu. Falou pouco. Guardou o fôlego para falar com Ademir. Ele não o tratou como Divino. Mas como se fosse mais um filho. Abraçou o maior craque palmeirense, olhou no rosto dele e disse: “Nós, palestrinos, te agradecemos de joelhos por tudo que vocês fizeram”.

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Ademir se emocionou. Mas não mais que Walter. “Meu pai parecia uma criança que ia ao circo ou que ganhou uma bicicleta. Ficou horas lá. Só ouvindo e conversando com os ídolos como se fossem velhos amigos”.

E no fundo sempre foram. Como o Palmeiras uniu pai e filho ainda mais. Quando Michel o trouxe de volta, Walter o agradeceu como se fosse Ademir: “Filho, muito obrigado por ter me dado uma das maiores alegrias da vida para ver essas três figuras maravilhosas. Ainda mais do seu lado”.

O pai deixou o carro chorando. Não só ele.

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AS PARTIDAS

Walter foi internado no fim de 2017. “Ele queria ir embora. Encontrar a minha mãe. Descansar”, conforta-se Leslie. Ela o visitou sempre no hospital. “O que unia a gente era o Palmeiras. O que mais a gente falava era sobre o Palmeiras. Eu levava o tablet ou computador e via os jogos e programas esportivos com ele. Nas partidas, só entrava no quarto do hospital quem estivesse vestido de Palmeiras. Ele abaixava o volume da TV ou do tablet e ouvia o jogo pelo radinho, companheiro tão antigo quanto o Palestra. Ele só gostava de ouvir a narração pelo rádio. Pela Jovem Pan”.

Walter ficou seis meses internado. Já estava mais recluso desde que a mulher partira, cinco anos antes. “Os olhinhos dele só brilhavam ainda pelo Palmeiras. E pela ‘missão’ que ele havia conseguido fazer.

“Só ele me chamava de Lilico na família. E ele sempre falava no hospital: ‘eu consegui, Lilico. Eu consegui fazer uma ala da família virar palmeirense! Quando você tiver netos, continue essa tradição. Seus netos vão ser palmeirenses!’”

Não era mais uma torcida. Era uma ordem para Leslie. Como se dada a todos os atletas. Mais do que profissionais, eles são amadores. Amam o clube.

Na Sexta-feira Santa, Leslie foi ao hospital. O estado de saúde dele piorara. Mas ainda estava lúcido. Walter fez a filha prometer que continuaria com a missão dele. “Você é a mais palmeirense da família, Lilico. Eu vou te pedir então: quando chegar a hora, não me veste de palmeirense. Não usa aquela camisa autografada. Os bichos vão comer tudo. Mas eu quero levar alguma coisa comigo do Palestra”.

Todos levaram quando chegou a hora. Toda a família foi com a camisa do Palmeiras. Até quem não era foi homenagear a maior paixão dele além da própria família.

PORCONVERSÃO

“Meu pai sempre nos cuidou e nos ensinou bastante. Mas ele nos ensinou ainda mais a ser palmeirenses. Ele catequizou a família. Sempre com muita esperança. Ele falou na última barba que fiz para ele que 2018 é nosso”, disse o filho Michel.

A derrota para o Corinthians no Paulista pesou. No intervalo do jogo seguinte contra o Boca, em 11 de abril, no Allianz Parque, a bola parou. O coração de Walter, também.

Na partida de volta na Bombonera, Leslie tinha certeza que não tinha como perder do Boca em Buenos Aires. “Quando ele chegasse ao céu ele daria um jeito no time. Foi o que fez. 2 a 0 pra nós!”

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O neto Rafael é filho de um grande corintiano casado com Eliane. Mas ele preferiu seguir um enorme palmeirense como o avô Walter. O conversor ao credo. Rafael desde pequeno fazia camisas brancas do Palmeiras pintando o escudo e o número nas costas com uma caneta verde.

Rafael achou que conseguiria ver a jogo sem o avô contra o Boca. Mas não foi possível. Walter foi quem criou o menino. “Eu tentei, mas não queria ver a partida sem ele. Não consegui ver a vitória contra o Boca. Como é que eu vou ver o nosso time sem o meu vó do lado? Não completa... Não consigo.... A coisa mais linda que existe é meu filho Frederico. Ele ganhou uniforme do bisavô e nasceu campeão da Copa do Brasil. Vai ser difícil voltar a ver futebol”.

Rafael, com todo respeito, carinho e admiração, muito mais difícil foi seu avô virar casaca de muitos corintianos da família da sua avó. Complicado foi manter os novos palestrinos como os gêmeos quando o time não dava pé.

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É dolorida a perda. Não tem como repor. Mas quando o seu Frederico estiver entendendo o que é futebol, conte a história do seu Walter para ele. Muito provavelmente ele ainda não vai entender o que é futebol e o que é Palmeiras. Mas, certamente, vai ter a melhor prova do que não precisa de prova: o amor. A família. O Palmeiras.

Histórias como a da sua família condensam o que tem de mais lindo no amor e na família: o Palmeiras.

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  • Mauro Beting

    Mauro Beting

    Mauro Beting é comentarista do Esporte Interativo e da rádio Jovem Pan, blogueiro do UOL, comentarista do videogame PES desde 2010. Escreveu 16 livros, e dirigiu três documentários para cinema e TV.