Crônica de uma cautela anunciada

Crônica de uma cautela anunciada

Coisas estranhas são o prólogo do prefácio de calmaria no Palmeiras. Eu tenho medo, eu tenho medo, eu tive Raul na infância e sei como isso funciona. Se tudo corre bem, se não estamos notícia, seremos a pauta do plantão seguinte. Nunca se acomode com um poço de paz nas alamedas da Pompeia. Eu tenho é medo.

Medo, vocês sabem, é coisa nostra, né. Cazzo, como a vovó falava pra que eu não queimasse o dedo no bolo de fubá antes do “Parmera jogá”. Hoje teria um bolinho esperando que as horas rodassem até que fosse tempo de preparar o terreno com muito cobertor, umas tantas camisas da sorte, as do azar viradas pra baixo e outros amuletos esquisitos nessa festa estanha.

Vovó não está mais arquitetando a noite com as próprias mãos trêmulas e não tão precisas quanto antes, mas de certo canto observa temerosa que tudo esteja tão tranquilinho, tranquilinho. Isso nunca foi nossa casa, isso sempre trouxe uma canja de galinha pra precaver a gripe. Tempos frios. Tempos calmos. Uma combinação que troveja.

Tchê Tchê, ela certamente o chamaria de netinho. Ligeiro, sorrateiro, esperto, menino da rua que arrebitava o dedão no asfalto boleiro. Chegou no silêncio dos que a vida faz brilhar e agora vai trilhando vistoso o caminho da vida longe de casa. Ela teria saudades de vê-lo ali, no quintal, bem visível da janela azul fusquinha do quarto de dormir. Teremos todos. Ela ainda diria: te cuida, rapazinho, leva a blusa.

Ele vai levar muitas memórias também, pode ter certeza, vovó, logo chega um quadrinho emoldurado em verniz pra senhora colocar na escrivaninha. Vai levar também o costume de viver uma noite de decisão dentro do quintal que a vida averdeou e tornou um grande parque de alianças entre ele e seus milhões de torcedores, do Palmeiras, o dela, o dele, o nosso e nem somos o Pa ca em buuu. Muito melhor.

Hoje é dia de entrar em campo como sempre fizemos, no amor de todo dia, na precaução que vovó lecionou ano após ano, de combater com fubá, canja e cautela, um coelho que quer tirar da boca das crianças, uma classificação mais gostosa que chocolate. Tchê Tchê vai ver de casa, do cobertor, com a comida quentinha sob os braços e você, pupilos, façam o que deve ser feito.

Em tempos de calmaria, o sono resolve bater, mas há de existir uma velha senhora chamada cautela e uma outra chamada respeito pra evitar que tudo acabe em pesadelo.

  • João Gabriel

    João Gabriel

    De família italiana e tipicamente alviverde, é de São Manuel, interior do estado. Se formou em Jornalismo pela USC/Bauru e é pós graduado em jornalismo esportivo pelo IPOG/SP.